Regiões da Europa reconstroem vida selvagem e se tornam destinos turísticos

THE NEW YORK TIMES – Não era uma situação em que eu esperava me encontrar: agachada em um prado romeno às margens de uma mata virgem, ouvindo os passos dos bisões. Nosso guia se referiu ao local como um “lugar de sentar”. Você se espalha e procura pela área em que sabe que os bisões estiveram recentemente, tentando ignorar o ruído dos insetos, dos pássaros e da flora que vem no vento em busca de vestígios auditivos do maior animal terrestre da Europa, que, até recentemente, não era avistado nessa região havia centenas de anos. Ouvi algo se mexendo atrás de mim, a folhagem esmagada, e me virei bem a tempo de avistar um flash do que eu sabia que provavelmente era um veado-vermelho.

Era meu segundo dia procurando bisões nas Montanhas Tarcu da Romênia, mas eu ainda não os havia avistado. Mas agora eu já sabia sabia ler seus movimentos a partir de um emaranhado de pegadas. Sabia onde encontrar os pomares para onde vão, desocupados desde que os agricultores locais se revelaram incapazes de competir com os supermercados alemães de baixo custo. Agora os pomares estavam cobertos de vegetação e tinham sido retomados pelos ursos que saem à noite para saquear as árvores frutíferas e pelos bisões que devoram seus galhos, deixando pegadas cheias de chuva para os sapos de barriga amarela e arando corredores através da vegetação densa para que javalis, texugos e outros pequenos herbívoros possam expandir o território, crescer e se multiplicar.

Eu estava testemunhando um processo conhecido como renaturalização, abordagem progressiva de conservação que visa restaurar ecossistemas eliminando intervenções humanas, como barragens e diques, em lugares que foram despovoados e são economicamente marginalizados. Essencial para a retomada da vida selvagem é a reintrodução de “espécies-chave” como o lobo, o abutre e o bisão, animais que têm uma enorme influência em seu habitat, remodelando significativamente a paisagem e promovendo a biodiversidade.

Criando uma nova selva

Nos últimos nove anos, mais de 60 bisões foram soltos nessa região dos Cárpatos do Sul, também conhecida como Alpes da Transilvânia, cordilheira densamente florestada no sul da Romênia. Os Cárpatos do Sul são uma das nove regiões renaturalizadas administradas pela Rewilding Europe, organização sem fins lucrativos fundada na Holanda em 2011. A renaturalização explodiu em popularidade desde então, inspirando organizações como a Rewilding Britain, a Rewilding Scotland e a Rewilding Australia, e transformando o debate público a respeito das estratégias de conservação.

Apesar das críticas, o movimento de renaturalização tem sido um grande sucesso. As populações de alce, lobo, bisão e urso estão maiores em todo o continente, aumentando a biodiversidade e a captura de carbono. No ano passado, a ONU reconheceu a renaturalização como um dos vários métodos recomendados para a restauração de ecossistemas. “Acho que uma das maiores surpresas é como a natureza de fato é resiliente. Muitas vezes ouvimos histórias da diminuição da biodiversidade, das espécies ameaçadas de extinção, mas basta oferecer espaço suficiente para que a natureza volte quase instantaneamente”, disse a dra. Liesbeth Bakker, primeira professora de renaturalização da Europa na Universidade de Wageningen, nos Países Baixos.

O núcleo do conceito de renaturalização é a ideia de que essa “nova selva”, como às vezes é chamada, também criará novas oportunidades econômicas em áreas rurais despovoadas. Esse foi o ímpeto por trás da European Safari Co., empresa de viagens fundada em 2016 pela Rewilding Europe que faz parceria com guias locais e operadores turísticos para fornecer experiências selvagens em áreas renaturalizadas, com uma porcentagem dos lucros destinada à conservação local.

Partindo em um safári europeu

Cinco anos atrás, a ideia de um safári europeu poderia parecer um tiro no escuro, mas, em um mundo abalado pela Covid-19 e ameaçado pelas mudanças climáticas, a perspectiva de uma experiência selvagem com impacto ambiental positivo em uma parte remota e bonita do mundo que precisa de turismo tem um apelo óbvio. Esse foi meu sentimento, pelo menos, quando parti em setembro com meu parceiro para um safári de rastreamento de bisões nos Cárpatos do Sul.

Houve muito ceticismo local quando o programa de reflorestamento chegou em 2014, segundo Matei Miculescu, de 30 anos, guia local e guarda-florestal de bisões. Mas a opinião mudou quando o projeto de ecoturismo começou alguns anos depois. “Soltamos esses bisões na natureza, e basicamente as pessoas os aceitaram vivendo em suas terras. Agora temos de retribuir de alguma forma”, afirmou Matei, explicando que todos os aspectos de nossa viagem, desde as refeições até o transporte oferecido pela família que aluga a casa de hóspedes, seriam tratados diretamente com os habitantes do vilarejo.

Matei e um motorista nos pegaram em uma enorme picape velha e dirigimos até o acampamento base, idílica fazenda em uma encosta repleta de macieiras floridas e barracas de acampamento. Ali, fomos recebidos por cerca de cem ovelhas e um punhado de cães pastores entusiasmados. Depois seguimos para as montanhas.

A floresta se fechou ao nosso redor, enormes faias e pinheiros, muitas das árvores com centenas de anos. Os Cárpatos abrangem a maior área de floresta virgem do continente, bem como as maiores concentrações de urso-pardo, lobo e lince, e mais de um terço de todas as espécies de plantas europeias.

Durante milhares de anos, o bisão europeu, parente próximo do bisão americano, vagou por essas montanhas – parte de um habitat que se estendia do sul da França ao Rio Volga e ao Cáucaso. Seu ancestral, o bisão das estepes, aparece em pinturas rupestres que datam de mais de 35 mil anos.

À medida que as populações humanas se expandiam e derrubavam florestas, o alcance do bisão diminuiu e, na virada do século, foi caçado até quase a extinção. O último bisão europeu selvagem foi morto por caçadores no Cáucaso russo em 1927. Até então, restavam menos de 50, todos mantidos em zoológicos. Projetos destinados a salvar o bisão começaram quase imediatamente na Alemanha e na Polônia, onde a primeira reintrodução de bisões foi efetuada na floresta de Bialowieza em 1952. Os programas de reprodução e reintrodução continuaram pelo resto do século e, em 2010, havia mais de dois mil bisões livres na Europa.

Mas nenhum bisão selvagem era visto nos Cárpatos do Sul havia mais de 200 anos, até que a iniciativa de renaturalização chegou em 2014. “Os bisões eram vistos quase como criaturas míticas”, comentou Matei, que trabalha como guarda de bisões desde o início do projeto. Com o apoio da União Europeia e da Nationale Postcode Loterij, a Rewilding Europe e o WWF começaram a enviar bisões criados em cativeiro para libertá-los na região. No início, eles os compraram de reservas naturais e zoológicos, mas poucos bisões de zoológico sobreviveram. “O estresse era demais para eles, que tinham dificuldades para encontrar comida suficiente e viver com o rebanho. Então decidimos que não levaríamos mais bisões de zoológico, apenas de grandes reservas”, contou Matei. Depois disso, eles obtiveram mais sucesso, e a população chegou a mais de cem animais, com mais de 38 bezerros nascidos nos Cárpatos do Sul.

Esses passeios pela natureza são apenas uma pequena parte do trabalho de Matei, que passa a maior parte do tempo rastreando bisões, coletando amostras para um projeto de DNA em colaboração com uma universidade alemã, lendo dados de GPS e revisando imagens de câmeras escondidas na floresta. Sua tarefa mais importante, porém, parece ser inspecionar o esterco. Certamente, fizemos muito disso – tanto que comecei a me perguntar se eu tinha viajado pela Europa para passear na floresta procurando fezes.

Um velho modo de vida

À tarde, cruzamos descalços um riacho gelado e subimos o outro lado de uma ravina, caminhando até chegar a um cume, e procuramos bisões no maciço oposto.

Descemos ao acampamento base para jantar, depois dividimos uma garrafa de vinho tinto local ao redor de uma fogueira enquanto o céu se enchia de estrelas. Decidimos partir antes do amanhecer do dia seguinte, decisão da qual nos arrependemos durante todo o nosso café da manhã gelado na escuridão total. Foi apenas enquanto subíamos a montanha sob a primeira luz azul da manhã que começamos a ganhar vida.

Seguimos a rota do dia anterior, mas avançamos, rastreando pegadas de bisões e outros vestígios, até entrarmos em uma parte mais antiga da floresta. À medida que a floresta diminuía, percebi que Matei estava caminhando em minha direção, gesticulando descontroladamente e sinalizando para que eu ficasse em silêncio. “É o rebanho!”, sussurrou, apontando para uma clareira. Desnecessariamente, nos abaixamos e rastejamos até a beira do prado, onde poderíamos nos esconder no mato e ver a clareira.

Menos de seis metros à nossa frente, uma manada de cerca de 15 bisões, desgrenhados e magníficos, pastava em arbustos altos no prado. Um deles – provavelmente a fêmea alfa – percebeu imediatamente nossa presença. Ficou imóvel, olhando diretamente para nós, enquanto as outras, todas fêmeas, exceto um bezerro e dois jovens machos, continuavam a pastar. Nós nos escondemos nos arbustos e ficamos observando os animais, absortos durante quase uma hora. Finalmente, a alfa deu um berro profundo e o rebanho fugiu em uma nuvem de poeira, de volta para a floresta que mais uma vez era deles.

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