O discurso do primeiro-ministro do Canadá, Mark Carney, no Fórum Econômico de Davos, em janeiro, repercutiu nos quatro cantos do globo. Líderes de Bruxelas a Varsóvia e de Tóquio a Nova Délhi ficaram impressionados com a coragem do canadense em admitir que a ordem mundial liderada pelos Estados Unidos tinha sido fraturada e as potências médias precisavam se unir para sobreviver em uma nova era em que o poder bruto se sobressaia.
“As potências médias devem agir em conjunto, porque se você não está na mesa, você está no cardápio”, disse.
Apesar de cruas e diretas, as palavras do primeiro-ministro canadense formalizaram um movimento que já era visto como necessário por países como Austrália, Japão, Índia, Coreia do Sul e Polônia em busca da diversificação nas relações econômicas e diplomáticas.
“O discurso de Carney foi marcante porque ele disse uma verdade que outros países não conseguiram admitir”, avalia Jennifer Welsh, professora de governança global da Universidade McGill, em Montreal, no Canadá. “Em um momento em que os EUA estão lidando com as potências médias de forma coercitiva, é simbólico que um líder de uma nação tão interdependente de Washington como o Canadá tenha dito o que ele disse”.
Liderança de Carney
A aparição em Davos e o tour recente de Carney por países como Austrália, Índia, Emirados Árabes Unidos e China credenciou o canadense como uma liderança das potências médias.
Ele foi eleito em abril do ano passado e conquistou uma maioria no Parlamento canadense em abril deste ano. Sua ascensão ao cargo ocorreu em meio a ameaças do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, sobre uma possível anexação do Canadá.
Carney prometeu buscar novos investimentos para reduzir a dependência de Washington e tem cumprido. Ele se aproximou da União Europeia e do Reino Unido e reduziu as tensões bilaterais com Pequim e Nova Délhi.
A parceria com a China e a Índia esteve mais focada no âmbito econômico, segundo Welsh, mas o estreitamento de laços com países europeus e nações asiáticas como Coreia do Sul e Japão tiveram um significado diferente.
“O primeiro-ministro está começando a sinalizar que é preciso colaborar com países que compartilham os mesmos ideais”, diz a professora da Universidade McGill. “Europa, Japão, Coreia do Sul e Austrália compõem grande parte do PIB global e possuem grandes centros educacionais. Na visão de Carney, eles devem andar juntos”.
A intenção do canadense é construir uma aliança em busca de mais autonomia estratégica e a manutenção da soberania.
“Carney fala sobre uma série de recursos e setores que os países precisam ter acesso, como alimentos, energia, semicondutores, IA, vacinas, minerais críticos e defesa”, avalia a especialista. “Ele enxerga a diplomacia das potências médias como a criação de diferentes coalizões em torno dessas questões”.
Parcerias
Essas parcerias já estão acontecendo entre diversos países. O Canadá anunciou cooperações econômicas e militares com Austrália, Japão, Coreia do Sul e a União Europeia.
No ano passado, Carney negociou a inclusão de Ottawa no Fundo de Segurança para a Europa (SAFE, na sigla em inglês), uma parceria que permite que empresas canadenses concorram a contratos de aquisição da UE.
O país também divulgou a primeira Estratégia Industrial de Defesa em fevereiro deste ano para reduzir as compras militares de Washington em meio a preocupações relacionadas a possíveis incursões dos Estados Unidos no território canadense e violações no Ártico.
Já a Polônia possui uma grande parceria de defesa com a Coreia do Sul e apontou que em breve vai abrigar linhas de produção de tanques sul-coreanos.
Na Oceania, a Austrália anunciou a compra de navios de guerra do Japão e o Brasil fechou um acordo para construir aviões de transporte militar para os Emirados Árabes Unidos.
De acordo com analistas entrevistados pelo Estadão, a insegurança em relação ao guarda-chuva militar americano e o atraso na entrega de armas dos Estados Unidos ajudam a explicar a busca por diferentes parceiros no setor.
“Existe um nervosismo em países como a Polônia sobre a capacidade dos EUA entregarem pacotes de armas que foram encomendados”, destaca Philip Bednarczyk, diretor do escritório de Varsóvia do German Marshall Fund.
Desde o início da guerra na Ucrânia, Washington tem atrasado entregas, mas a demora se intensificou com a guerra no Irã.
“Em lugares como a Polônia, onde temos a Rússia do nosso lado e a guerra na Ucrânia acontecendo, não é possível esperar os EUA e é necessário buscar armas de outros produtores, como a Coreia do Sul”, aponta Bednarczyk.
Além de diversificar as compras, países como a Polônia estão aumentando a produção local no setor de defesa. Varsóvia virou uma capital importante no segmento de tecnologia de guerra, com várias empresas abrindo filiais na capital polonesa.
“As relações entre compradores e vendedores no setor de defesa estão mudando e a Polônia faz parte disso”, avalia o analista do German Marshall Fund. “Isso cria uma nova rede de relações que espera-se que seja sustentável e resiliente diante das mudanças políticas globais”.
Temores
A união de potências médias também ocorre por conta de temores que envolvem Estados Unidos e China.
Segundo pesquisas de opinião ao redor do globo, a maioria dos países não têm confiança em Pequim e Washington e acredita que Trump e Xi usam sua influência sobre o comércio e segurança para coagir ou punir.
Nações asiáticas como Japão, Coreia do Sul e Vietnã têm receio de que o presidente americano possa modificar sua política de segurança na região em troca de melhores relações econômicas com a China.
A decisão de Trump de redirecionar um grupo de ataque de porta-aviões do Pacífico e munições da Coreia do Sul para a guerra no Irã aumentou o medo.
No passado, o republicano ameaçou retirar tropas do Japão, que abriga mais de 50 mil militares americanos, e da Coreia do Sul, onde 24 mil militares estão estacionados.
Também existem temores de que o AUKUS, um pacto entre Austrália, Reino Unido e EUA que foi projetado para reduzir a influência de Pequim na região e equipar Canberra com submarinos de propulsão nuclear e tecnologia avançada, poderia ser cancelado de forma repentina.
“Esse cálculo das potências médias também ocorre por conta de um temor sobre o que significaria uma grande parceria entre EUA e China”, avalia Welsh. “Não acredito que Trump seja exatamente contra a China. Ele é bem ambivalente”.
Restrições
Apesar das novas parcerias, as potências médias não desejam criar uma coalizão formal que se oponha a Washington e Pequim.
Estas nações têm diferentes interesses estratégicos e não querem um confronto direto com as superpotências.
“Todas as potências médias têm graus variados de dependência dos EUA e da China”, destaca Welsh, da Universidade McGill.
Diversos aliados americanos se depararam com essa realidade. Desde o retorno de Trump a Casa Branca e o início de sua política coercitiva de tarifas, líderes de países como Reino Unido, Canadá e Alemanha foram a Pequim para cortejar os chineses e buscar melhores oportunidades econômicas.
Esse movimento não significa um alinhamento a Pequim, mas ressalta que os países médios não tem como reduzirem a dependência americana sem melhores termos com a China.
Os países precisam acessar a economia chinesa, isso é um fato, diz Welsh.
Oportunidade
Mesmo com as restrições, analistas entrevistados pelo Estadão enxergam que a nova coalizão é positiva e deve ser mantida nos próximos anos.
O movimento também credenciou novas lideranças globais, como Carney, do Canadá, e o primeiro-ministro da Polônia, Donald Tusk.
Ambos são políticos de centro que são populares e oferecem um contraste ao avanço da extrema direita e a impopularidade de figuras de potências europeias mais tradicionais como Emmanuel Macron, Keir Starmer e Friedrich Merz.
“Carney tem muitos desafios, mas ele conseguiu frear o avanço populista e se tornou um símbolo. Todos falam sobre o seu discurso em Davos”, destaca a professora da Universidade McGill.
Segundo Bednarczyk, do German Marshall Fund, Tusk também pode entrar nessa lista, mas precisa passar pelas eleições legislativas da Polônia para se catapultar globalmente. “Se ele ganhar as próximas eleições, ele pode entrar no Hall da Fama dos políticos centristas e contribuir mais na discussão sobre as potências médias”.
