Pela paz, ucranianos consideram o antes impensável: ceder território

Khristina Iurchenko trabalhou duro para construir uma vida na região leste da Ucrânia conhecida como Donbas, onde dedicou toda a sua energia ao popular estúdio de dança de que é proprietária.

Mas ela abriria mão de tudo isso, disse ela, em troca de uma paz duradoura. Khristina está entre um número crescente de ucranianos que dizem que entregariam à Rússia a parte do Donbas ainda controlada pela Ucrânia se isso pusesse fim à guerra.

Isso representa uma mudança radical para uma população ucraniana cansada da guerra. Abrir mão de território que a Rússia não conseguiu capturar há muito tempo é considerado uma linha vermelha. Mas o que antes parecia impossível agora parece menos improvável, já que o Kremlin insiste que as negociações de paz apoiadas pelos EUA só avançarão se a Ucrânia concordar em abandonar o Donbas.

“Para mim, a paz é a prioridade, e se definitivamente não houvesse guerra depois de entregarmos o Donbas, eu estaria pronta para partir”, disse ela. Ela apoiaria a rendição do território, disse ela, apenas se os aliados da Ucrânia oferecessem garantias sólidas para a segurança do país no pós-guerra.

O futuro do Donbas está entre as questões mais espinhosas, enquanto a Ucrânia, a Rússia e os Estados Unidos continuam as negociações em Abu Dhabi, capital dos Emirados Árabes Unidos, nesta quarta-feira.

A Ucrânia passou anos fortificando cidades no Donbas e perdeu um grande número de soldados defendendo a região industrial. O território abrange partes de várias regiões, incluindo Donetsk e Luhansk. A Ucrânia ainda controla cerca de 20% de Donetsk, mas perdeu toda a região de Luhansk.

Para a Rússia, a captura do Donbas, onde Moscou perdeu muito mais soldados do que a Ucrânia, poderia permitir que ela reivindicasse alguma vitória, mesmo tendo ficado muito aquém de seu objetivo de subjugar toda a Ucrânia.

Em declarações públicas, o presidente Volodimir Zelenski disse que a Ucrânia continua se opondo a uma retirada unilateral do Donbas. Mas ele também deu a entender que está disposto a flexibilizar sua posição, dizendo que tanto a Rússia quanto a Ucrânia devem estar preparadas para fazer concessões, já que a Ucrânia está sob pressão no campo de batalha e na mesa de negociações.

Em maio de 2022, dois meses depois que as forças ucranianas repeliram o Exército russo nos arredores da capital, Kiev, uma pesquisa do Instituto Internacional de Sociologia de Kiev revelou que 82% dos ucranianos acreditavam que o país não deveria ceder território sob nenhuma circunstância.

Na pesquisa mais recente do instituto, publicada na segunda-feira, 40% dos entrevistados disseram apoiar a renúncia ao Donbas em troca de garantias de segurança.

Os dois números não são diretamente comparáveis, porque pesquisas anteriores não associavam garantias de segurança à questão da cessão de território. Mas a conclusão está de acordo com outros dados da pesquisa, que mostram uma aceitação crescente das concessões territoriais.

Ainda assim, a maioria dos ucranianos continua se opondo. Muitos dizem que estão preparados para continuar suportando as dificuldades, incluindo a campanha da Rússia para destruir a infraestrutura energética do país durante um inverno extremamente rigoroso.

Abandonar o Donbas poderia dividir a sociedade ucraniana, afirmam analistas. Também poderia transformar o legado de Zelenski de um líder heroico que defendeu o Estado para alguém que permitiu a ocupação russa do território controlado pela Ucrânia, onde vivem atualmente cerca de 190 mil pessoas. Muitos provavelmente se mudariam para áreas ainda controladas pela Ucrânia em vez de viver sob o domínio russo, como disse Khristina, proprietária do estúdio de dança.

Zelenski “ouve seu povo e não fará isso”, disse Ievhen Koliada, chefe do Centro de Coordenação de Socorro, que ajudou a retirar milhares de residentes de áreas da linha de frente, incluindo Donbas.

Mikhailo Samus, diretor da rede independente New Geopolitics Research Network, em Kiev, observou que a lei ucraniana proíbe a cessão de territórios que não tenham sido ocupados por força militar.

Zelenski propôs que as tropas ucranianas e russas recuassem uma distância igual da linha de frente no Donbas para criar uma zona desmilitarizada. Embora tal compromisso possa ser teoricamente considerado, disse Samus, Putin está seguindo um caminho militar e prometendo tomar a região pela força ou por meio de negociações.

Para aqueles que dizem estar dispostos a abrir mão do Donbas, as garantias de segurança são cruciais, afirmaram analistas. Muitas pessoas temem que, se a Ucrânia retirar suas tropas sem tais garantias, não haverá como impedir que a Rússia se reorganize e use a região para lançar novos ataques nas planícies abertas além das cidades fortificadas do Donbas.

Para os ucranianos, as garantias de segurança devem significar “uma garantia de que não haverá novos ataques e que os países parceiros são responsáveis por garantir isso”, disse Oleh Saakian, analista político e cofundador da Plataforma Nacional para Resiliência e Coesão Social, um think tank.

Zelenski diz que a Ucrânia está pronta para assinar acordos com a Europa e os Estados Unidos sobre garantias de segurança. Embora as nações europeias tenham prometido estacionar tropas na Ucrânia após qualquer cessar-fogo, ainda não está claro se elas concordariam em realmente lutar contra a Rússia em defesa da Ucrânia. De qualquer forma, a Rússia disse que se opõe ao plano de estacionar europeus dentro da Ucrânia.

Saakian alertou que abrir mão do Donbas pode não ser suficiente para fazer com que a Rússia abandone a guerra. “É uma grande ilusão pensar que chegar a um acordo com a Rússia sobre alguma linha de demarcação poderia levar a uma paz, mesmo que temporária”, disse ele.

Aconteça o que acontecer, Khristina Yurchenko disse que a paz é o objetivo principal. No entanto, ela também disse estar preocupada com a possibilidade de que mesmo uma grande concessão territorial não seja suficiente para garantir que a Rússia não ataque novamente.

“Se a Ucrânia cedesse o Donbas, teríamos que nos mudar e reconstruir nossas vidas do zero”, disse ela. “Seria um sacrifício difícil, mas que valeria a pena para acabar com a guerra.”

“Mas quem pode garantir que eu não teria que fazer isso novamente?”

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