O que a Rússia quer dos EUA em encontro no Alasca

O Alasca, escolhido para a reunião entre Vladimir Putin e Donald Trump na próxima sexta-feira, 15, simboliza como poucos lugares a visão de mundo do Kremlin.

Diferentemente da tomada de um quinto do território ucraniano por Putin e seu exército, a venda do Alasca aos Estados Unidos no século XIX pelo imperador Alexandre II foi uma transação pacífica. Ainda assim, o negócio serve de lembrete de que fronteiras nacionais não são imutáveis e que terras podem servir de moeda de troca na diplomacia.

Analistas creem que o equilíbrio no campo de batalha e as pressões orçamentárias não farão o presidente russo rever sua ambição territorial maximalista, nem aceitar acordos de paz desfavoráveis.

O foco de Putin é outro. Ele quer manter um canal de diálogo aberto com Trump para evitar que a frustração do presidente americano com Moscou comece a ter um custo real. “Putin não tem qualquer motivo para encerrar a guerra agora”, diz Alexandra Prokopenko, pesquisadora do Carnegie Russia Eurasia Center. “O que ele quer é manter a atenção de Trump.”

Nesse aspecto, Moscou enfrentava mais riscos. Trump, que chegou à Casa Branca prometendo acabar com a guerra em 24 horas, expressou irritação com o fato de Putin se mostrar “muito simpático” sem deixar de atacar a Ucrânia, nem de vender seu “papo furado” a Washington. Pela primeira vez desde que assumiu, Trump começou a autorizar transferências mais significativas de armamentos para Kiev e ameaçou aplicar tarifas sobre a Índia por comprar petróleo russo.

Mas o clima de impaciência mudou quase da noite para o dia com a visita do enviado especial americano Steve Witkoff a Moscou na quartafeira 6, apenas dois dias antes do prazo final dado por Trump para um cessar-fogo sob a pena de sanções. Em vez de mais problemas para o Kremlin, a visita rendeu o primeiro convite a Putin para se reunir com um presidente americano nos EUA desde o encontro com George W. Bush em 2007.

A reunião no Alasca é o resultado do fato de que Putin e Trump haviam “se colocado em situação difícil, segundo Sam Greene, professor de política russa na King’s College London. Putin, diz Greene, jamais anunciaria um acordo dentro do prazo estabelecido por Trump, porque transpareceria fraqueza sob pressão. Trump, por outro lado, temia a possibilidade de impor sanções ineficazes e acabar “parecendo duplamente fraco”.

“Putin está indo aos EUA e não como prisioneiro; ele já não é motivo de frustração, e sim um convidado; e a reunião ocorrerá sem ucranianos ou europeus. Tudo isso é uma vitória diplomática”, acrescenta Greene.

Autoridades europeias têm procurado convencer o governo americano a intensificar a ameaça de sanções à Rússia antes do encontro com Putin.

O vice-presidente dos EUA, JD Vance, descreveu no domingo o encontro como “um grande feito para a diplomacia americana”, dizendo que o objetivo era encontrar um acordo negociado sobre território “em que a matança pare”. “Tanto russos quanto ucranianos, no fim das contas, provavelmente ficarão insatisfeitos com ele”, disse à Fox News.

O encontro entre Trump e Putin sem a presença do presidente ucraniano Volodymyr Zelensky, um antigo objetivo do Kremlin, parece se concretizar sem que a Rússia tenha feito concessões significativas sobre seus principais objetivos de guerra. Para Andrei Kozyrev, um ex-ministro das Relações Exteriores da Rússia, a reunião em si é “uma vitória política de Putin”, conquistada “sem custos internos ou externos, ao contrário do seu interlocutor”.

Para autoridades ucranianas, a abertura para negociações reflete a tentativa de Putin de alcançar pelo menos três metas distintas. Alyona Getmanchuk, nova chefe da missão da Ucrânia na Otan, afirma que o país busca sair do isolamento, evitar novas sanções e usar a determinação de Trump de encerrar o conflito “para resolver, pela via diplomática, aquilo que não conseguiu pela via militar”.

Tanto russos quanto ucranianos provavelmente ficarão insatisfeitos” — JD Vance

Em meio ao turbilhão diplomático, as forças ucranianas enfrentam uma pressão cada vez maior no Leste porque o exército russo está tentando isolar várias cidades estratégicas para as defesas da Ucrânia. A Rússia conquistou 502 km2 de território ucraniano em julho, ritmo semelhante ao de junho e maio e um dos maiores dos últimos 12 meses, segundo o Black Bird Group, que monitora o conflito usando informações de inteligência de fontes abertas.

O DeepState, um grupo de monitoramento da guerra ligado ao Ministério da Defesa ucraniano, informou no domingo que tropas russas avançaram quase 7 km sobre uma área próxima à cidade de Pokrovsk que o exército russo vem tentando cercar há um ano.

No campo econômico, a confiança da Rússia é menor. As receitas com energia caíram 20% no acumulado dos sete primeiros meses do ano em relação ao mesmo período de 2024 devido à queda no preço do petróleo. As novas tarifas de Trump sobre a Índia aumentaram a pressão.

“A economia russa está em seu pior momento considerando os últimos três anos” “, diz Janis Kluge, especialista em economia russa do Instituto Alemão de Assuntos Internacionais e de Segurança (SWP). Mas, acrescenta, a situação não é grave o suficiente para alterar a postura de Putin em relação à Ucrânia. “Para Putin, as ameaças de sanções são um sintoma da frustração de Trump”, diz. “Ele está mais preocupado com o aumento dessa frustração do que com o efeito das novas sanções.”

O conteúdo completo das conversas entre Putin e Witkoff não foi divulgado, mas alguns detalhes vieram à tona nas ligações dos EUA com parceiros europeus e ucranianos, além de declarações públicas, incluindo a possibilidade de troca de territórios ucranianos.

“Haverá alguma troca de territórios, para benefício de ambos”, afirmou Trump. Logo após a reunião, Moscou considerou as propostas de Witkoff “aceitáveis”, mas não comentou as declarações de Trump sobre a troca de terras.

Putin já afirmou diversas vezes que suas exigências para a Ucrânia permanecem as mesmas. Entre elas estão a renúncia oficial da Ucrânia à adesão à Otan e seu status não nuclear, além da “desmilitarização” e “desnazificação” do país, este último um termo vago que, na prática, significaria a saída de Zelensky da presidência.

Ele também exige que a Ucrânia “retire totalmente” suas forças de quatro giões que a Rússia ocupa apenas parcialmente, mas decidiu incorporar oficialmente ao seu território.

Putin “não exclui” a possibilidade de a Ucrânia “manter a soberania” sobre as regiões de Kherson e Zaporizhzhia, desde que permita o acesso russo à Crimeia por elas. “Kiev precisa garantir o direito de uso dessas terras”. “, disse.

A exigência de retirada das tropas ucranianas de Donetsk e Luhansk “leva negociação a um beco sem saída”, avalia o analista político Volodymyr esenko, de Kiev. “Putin sabe muito bem que a Ucrânia não vai aceitar concessões unilaterais, e vai tentar usar este encontro com Trump e nossa recusa ao plano russo para nos acusar de não querer acabar com a guerra”, afirma.

Pesquisas de opinião mostram um cansaço maior na Ucrânia e mais apoio a um possível cessar-fogo, mas a maioria da população ainda rejeita a possibilidade de ceder às exigências russas retirando-se de áreas povoadas.

Quase três quartos dos ucranianos ouvidos em julho pelo Instituto Internacional de Sociologia de Kiev rejeitaram um plano que envolvesse a entrega completa das regiões de Donetsk, Luhansk, Kherson e Zaporizhzhia, a desistência da adesão à Otan e limitações ao Exército. Uma maioria de 54% apoia um plano no qual as linhas fronteiriças ficariam congeladas, a Ucrânia receberia garantias de segurança dos EUA e da Europa e as sanções contra a Rússia seriam gradualmente suspensas.

Com a aproximação da reunião de cúpula no Alasca, Zelensky e Putin vêm trabalhando para consolidar o apoio de seus respectivos aliados. Os negociadores ucranianos querem que a Europa e os EUA insistam para que as negociações só ocorram após um cessar-fogo ou uma redução significativa das hostilidades.

Putin, por sua vez, conversou por telefone com líderes de nove países considerados amigos por Moscou, incluindo Xi Jinping, da China, e recebeu no Kremlin o presidente dos Emirados Árabes Unidos e o conselheiro de segurança nacional da Índia.

https://valor.globo.com/mundo/noticia/2025/08/11/o-que-putin-quer-de-trump-em-encontro-no-alasca.ghtml

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