Fórum de Educação: a briga entre aspiração e possibilidade de autonomia na adolescência

Quando se fala de adolescência e autonomia fica no ar a difícil “desproporção entre o que se aspira e o que é possível fazer”. A frase fechou a palestra do psicanalista e colunista da Folha de São Paulo, Contardo Calligaris, no 3º Fórum de Educação da ESPM realizada ontem. O tema, Educar apara a Autonomia: Vivenciando a Adolescência foi tratado por Calligaris a partir de seus paradoxos. O primeiro deles é que “desejamos” tratar autonomia como “virtude, como coisa boa” alertou o psicanalista logo na abertura do encontro, porém enfrentamos complicadas contradições.
Antes da modernidade, “digamos 200 anos atrás”, como explicou Calligaris, autonomia não era valor: “o sujeito era guiado pela tradição, pelo que pensavam os anciões, basicamente pelas exigências dos pais e, claro, pela vontade da religião”. Na modernidade “essas coisas perdem valor”, como apontou o psicanalista em linguagem bem informal. E passamos a esperar que “pelo menos os jovens sejam desobedientes”.
Neste ponto, estava a principal contradição apontada pelo psicanalista com longa atuação como professor na Itália e, principalmente, nos Estados Unidos: o que mais esperamos é que os jovens cheguem à autonomia “tanto moral, como financeira”, e para isso usamos a educação, cuja função é “passar valores já conhecidos”. Calligaris fulminou: “esse ideal é paradoxal”. No encontro estavam professores do ensino médio, orientadores e diretores de escola que apontaram – como ficou muito visível nas perguntas – que o psicanalista tocou no ponto mais difícil da relação entre o quê quer a escola, o que querem os pais e o quê o alvo de ambos, os adolescentes, acabam fazendo. Neste aspecto, a palestra de Callegaris atendeu, de fato, o pedido do diretor acadêmico da ESPM, Ismael Rocha, “nós recebemos estes meninos cada vez mais cedo” e precisamos aprender mais sobre “como lidar com a ruptura, que sabemos que existe” entre a fase da adolescência e a vida adulta.
No encontro, coordenado pela diretora nacional do curso de Design, Ana Lucia Lupinacci, Callegaris destacou dois pontos nesse complexo processo de procurar autonomia e ao mesmo tempo educar; primeiro, é preciso “não confundir autonomia com integração”, porque na adolescência “o grupo de amigos é o mais importante” e estes grupos “não são regidos por idéias concretas e sim abstratas”. Segundo: “adolescentes são excelentes interpretes do desejo inconscientes dos pais”. A platéia manifestou especial interesse em duas frases de Callegaris: “rebeldia é valor social e ser autônomo atrapalha isso” e “é preciso reconhecer a dimensão de orgulho complacente dos pais” sobre a desobediência e as repetidas falhas dos filhos.
O debatedor no encontro, Pedro de Santi, psicanalista e professor da ESPM, chamou a atenção para o “trabalho pretensioso” de educar para a autonomia, uma certa expectativa de transgressão quando nosso adolescente “é o contrário e pede tutela”. Callegaris aproveitou o comentário para destacar que muitas vezes a rebeldia esperada é “aspiração frustrada dos pais”. Ele insistiu nos cuidados com a “atitude narcísica” escondida na ansiedade de que nossos filhos sejam “uma garantia da continuidade de nós mesmos”.
Cauteloso, no final da palestra Callegaris apontou que se a autonomia se realizar a probabilidade da depressão aumenta. E lembrou o alerta de Lacan de que se ninguém deseja nada por mim, meu desejo desaparece. As perguntas do final mostraram que o público aceitou a perspectiva de paradoxo, entre aspiração e possibilidade, quando se fala de autonomia na adolescência.

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