O encontro entre os líderes das duas maiores potências do mundo, Donald Trump e Xi Jinping, terminou sem mudanças de posições relevantes entre rivais. Trump foi inusualmente comedido em suas palavras durante e depois das reuniões. Xi deu recados claros, diretos, logo de início, indicando que incentivos à independência de Taiwan podem levar a um conflito com a China, e depois fez as mesuras de praxe ao visitante, prometendo, o que já fizera outras vezes, sem cumprir, comprar centenas de Boeings e milhões de toneladas de soja dos EUA. Na discussão da relação, porém, algo mais importante surgiu. Xi pregou “nova estratégia de estabilidade construtiva”, ‘, com a qual Trump pareceu se sentir confortável. Ambos estão propensos a não ampliar o confronto, em uma espécie de “détente” como a que marcou as relações dos EUA com a URSS dos anos 1960 a 1980, com aumento do diálogo e cooperação e redução das tensões.
Pequim mostrou-se um rival à altura das investidas de Donald Trump, iniciadas já no primeiro mandato com uma guerra comercial que se estendeu ao campo global no segundo. A predominância da produção chinesa de bens vitais para o mundo, como o virtual monopólio de terras raras, deu à China armas econômicas de grande alcance. A ofensiva comercial dos EUA perdeu força na hora em que Xi ameaçou parar de fornecê-las ao mundo, podendo interromper a produção de ímãs para automóveis, mísseis, drones etc. Trump buscou uma trégua até outubro, que pode se estender indefinidamente a partir de agora.
O presidente americano, o mais midiático deles, saiu sem grandes coisas para anunciar. Ao contrário, na questão de Taiwan, sobre a qual recebeu um ultimato inicial, pareceu estar a caminho de um recuo. Ele aprovou novo pacote de venda de armas a Taiwan de US$ 14 bilhões e, na volta de Pequim, disse que não era certo que isso ocorreria. Nenhum ocupante da Casa Branca cogitou discutir o assunto com os chineses e Trump não deve ter feito isso. Mas a dúvida sobre o envio de armas após encontrar-se com Xi mostra o peso de um veto de Pequim.
Cercado por bilionários em sua comitiva, Trump, que deslanchou a maior ofensiva protecionista de um país desenvolvido em tempos modernos, instou a China a abrir seus mercados. Xi disse que seu país continuaria fazendo isso, quando na verdade continuará fazendo o contrário, subsidiando de várias formas os bens da maior plataforma exportadora mundial. Foi ela que permitiu ao país driblar o cerco tarifário americano. Após a trégua comercial, a China obteve seu maior superávit comercial de todos os tempos, de US$ 1,2 trilhão em 2025, exportando mais do que nunca, apesar das medidas americanas.
Além disso, a guerra comercial perdeu força. A Suprema Corte americana derrubou em fevereiro as tarifas do “dia da libertação”, pois as leis utilizadas pela Casa Branca não poderiam ter sido usadas para essa finalidade. Agora a Corte Internacional de Comércio considerou que o presidente não poderia ter imposto tarifa global de 10% sem o aval do Congresso. Cabe recurso a essa decisão.
Trump foi pedir a intercessão da China junto ao Irã, aliado político e grande fornecedor de petróleo para o país, para que o tráfego pelo Estreito de Ormuz seja liberado e se chegue a um acordo de paz. Trump mencionou que a trégua com o regime dos aiatolás “‘está por um fio”, em uma guerra cujo preço político lhe está custando caro: perto das cruciais eleições legislativas de meio de mandato, 58% da população americana se opõem ao conflito. Xi deu apoio protocolar à abertura do Estreito, o que significa que não moverá uma palha para resolver um problema cuja responsabilidade única e exclusivamente atribui aos americanos, como os diplomatas deixaram claro em suas declarações durante a visita de Trump.
As medidas comerciais equivocadas de Trump, além de aumentarem a inflação, não melhoraram o comércio externo americano, nem atingiram de forma contundente seu rival, a China. Em abril de 2025, quando foi lançada a ofensiva tarifária, o déficit de mercadorias dos EUA foi de US$ 85,4 bilhões. Em março passado, atingiu US$ 87,4 bilhões. A alta da inflação trouxe mais descontentamento contra Trump, hoje avaliado de forma negativa por quase dois terços dos eleitores nas pesquisas sobre a condução da política econômica. Os juros pararam de cair e as apostas se voltam agora sobre quando subirão.
A falta de apoio chinês para encerrar a guerra no Irã, que caminha para o quarto mês, elevou na sexta-feira os juros de títulos do Tesouro e derrubou as bolsas americanas. O papel de 30 anos atingiu 5,12%, o nível mais alto em um ano, e, pela primeira vez desde 2007, o Tesouro fez leilão desses títulos pagando mais de 5%. O choque do petróleo intensificou o temor da inflação e poderá provocar mais e maiores estragos na economia real e nos mercados financeiros.
Apesar de tudo, uma trégua permanente na disputa dos EUA com a China, se sustentada, dará tempo a que os países possam, sem a pressão da urgência, se adaptar a uma nova ordem global que tende a ser multipolar, na qual, ao contrário do que crê Trump, os EUA não serão os únicos a deter o comando.
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