Às vésperas da abertura de sua 80ª Assembleia Geral, as Nações Unidas enfrentam a crise mais grave desde sua criação, há oito décadas. A relação entre Washington e a ONU nunca esteve tão desgastada. Donald Trump suspendeu a participação dos EUA em várias agências multilaterais e reduziu e atrasou consideravelmente contribuições financeiras.
A instituição, para sobreviver, está recorrendo a medidas de austeridade inéditas. O governo Trump não apenas reduz aportes, como também bloqueia avanços em áreas que Washington considera “woke” – gênero, clima, desenvolvimento sustentável.
Como observa Richard Gowan, na revista Foreign Policy, a estratégia de Washington não é abandonar a ONU de imediato, mas ter uma presença reduzida, contribuindo bem menos com a organização, sem, contudo, claro, abrir mão de seu poder de veto no Conselho de Segurança.
Em tese, essa estratégia cria oportunidades para outras potências. De qualquer forma, imaginar que países como China e Rússia possam assumir o papel dos EUA seria um equívoco. Pequim busca cargos de liderança na ONU, mas como mostrou o Financial Times, a China vem quitando suas contribuições obrigatórias com atrasos cada vez mais longos, agravando a crise de liquidez das Nações Unidas.
Ao mesmo tempo, Moscou carece de recursos para assumir tal responsabilidade – e, mesmo que os tivesse, enfrentaria limitações em função do seu isolamento diplomático no Ocidente depois da invasão à Ucrânia.
Apesar de vários países europeus, como a Alemanha, serem contribuintes relevantes, o continente não dispõe de recursos para cobrir a lacuna do recuo americano – em grande parte porque está dedicando volumes crescentes ao setor de defesa. O Financial Times cita dados do Pew Research Center, mostrando que, desde 2019, apenas 53 dos 193 países membros da ONU pagaram dentro do prazo suas contribuições anuais ao orçamento da organização. O que se vê, na prática, é um reflexo do “novo normal”: o multilateralismo mais limitado, com cooperação pontual e rivalidade entre grandes potências.
As consequências são visíveis em áreas críticas: assistência humanitária, medicamentos, programas para refugiados e segurança alimentar sofreram cortes profundos. Para milhões de pessoas, isso significa a interrupção de um auxílio necessário para sobreviver.Não faltam vozes questionando a utilidade da ONU. Mas convém lembrar dois pontos centrais. Primeiro: a organização depende de seus Estados-membros para ser eficaz. É de má-fé responsabilizar a ONU pela continuação de conflitos no mundo. Segundo: o custo da ONU sempre foi relativamente modesto — seu orçamento regular é inferior, por exemplo, ao da polícia da Cidade de Nova York.
Mesmo assim, nem todas as críticas do governo americano estão equivocadas. A ONU está demasiadamente acomodada e precisa de reformas urgentes. Por exemplo, seria necessário reduzir o número de agências, que às vezes focam em desafios semelhantes, como agricultura, refúgio/imigração e saúde pública; combater privilégios excessivos, comuns em burocracias tão complexas; e modernizar e turbinar a comunicação.
Não faltam diplomatas no sistema multilateral que, em off, dizem ver como positivo Trump estar tirando a ONU de sua zona de conforto. A forma agressiva e altamente politizada do governo americano, porém, levanta dúvidas sobre a intenção de, como promete o novo representante permanente dos EUA junto à ONU, “fazer as Nações Unidas grandes de novo”, em alusão ao lema trumpista. O maior risco é, tal como ocorreu com a Liga das Nações, a instituição se tornar irrelevante diante da escalada das rivalidades geopolíticas.
Em última instância, o que se prepara é um sistema internacional mais fragmentado, em que Genebra, Nairóbi e outras sedes técnicas terão mais relevância, enquanto Nova York deixaria de ser o epicentro do multilateralismo.
No entanto, embora seja fácil ceder ao pessimismo, não se deve esquecer que a ONU já enfrentou sérios desafios antes — da paralisia durante a Guerra Fria ao descrédito após massacres em Ruanda e Srebrenica nos anos de 1990. A organização sobreviveu a todos. Vários países pequenos e médios tendem a assumir mais responsabilidades, seja no financiamento, seja em iniciativas diplomáticas. Para outros, sobretudo no Sul Global, abre-se espaço de manobra.
O Brasil, por exemplo, ventilou a possibilidade de acionar uma conferência de revisão da Carta da ONU (Artigo 109), algo não debatido de forma séria desde a década de 1940. Em vez de limitar-se a discursos genéricos sobre a importância do multilateralismo, a Assembleia Geral da próxima semana é uma oportunidade para articular ideias concretas de reforma, redução de custos, adaptação e cooperação. A ONU enfrenta uma crise sem precedentes, mas ainda não pode ser dada como vencida
https://www.estadao.com.br/internacional/oliver-stuenkel/em-crise-onu-busca-reinvencao
