Rompendo com décadas de política em relação à Coreia do Norte, o presidente da Coreia do Sul, Lee Jae-myung, agora pede que os Estados Unidos flexibilizem as sanções contra Pyongyang em troca de um acordo para que o país congele seus programas de armas.
“Acredito que há um valor significativo em uma troca entre as sanções – que, de qualquer forma, não são particularmente eficazes – e a interrupção do desenvolvimento de armas nucleares adicionais e de tecnologia de mísseis balísticos intercontinentais”, disse Lee em entrevista ao jornal The New York Times na sexta-feira, 18.
Por mais difícil que esse acordo possa parecer, o mundo não tem uma alternativa realista, argumentou Lee. A Coreia do Norte está cada vez mais exibindo seus mísseis nucleares contra o Sul. O país já não é o Estado pária isolado que Washington tentou conter por meio de uma combinação de pressão e diálogo, à medida que as guerras na Ucrânia e no Irã alteraram o cenário geopolítico.
Rússia e China voltaram a tratar a Coreia do Norte como parceira estratégica, especialmente depois que o líder norte-coreano, Kim Jong-un, enviou tropas e armas para apoiar a invasão em larga escala da Ucrânia pela Rússia. Esse conflito, juntamente com os ataques americanos no Irã, apenas fortaleceu a determinação da Coreia do Norte de ampliar sua dissuasão nuclear.
Ainda assim, Lee acredita que o presidente americano, Donald Trump, é o único líder capaz de levar Kim de volta à mesa de negociações. Autoridades sul-coreanas dizem que Trump representa a melhor oportunidade para o líder norte-coreano assinar um tratado de paz para a Guerra da Coreia, que nunca terminou formalmente, e normalizar as relações com Washington.
Alguns analistas alertam que é ingênuo esperar que os dois líderes consigam fechar um acordo substancial, mas Lee questionou qual opção resta além da diplomacia.
“Buscar a desnuclearização nas atuais circunstâncias”, advertiu Lee, “garante que nada será alcançado”.
Uma vez assegurado um congelamento, ele imagina a construção de confiança por meio de incentivos e concessões recíprocos para, eventualmente, convencer o Norte a reduzir seu arsenal nuclear. O objetivo final seria criar um ambiente no qual Pyongyang se sinta seguro o suficiente para sobreviver sem armas nucleares.
Nesta semana, Lee visitará Nova York, onde apresentará à Organização das Nações Unidas (ONU) sua visão de paz e coexistência na Península Coreana.
Lee conversou com o The New York Times por cerca de 70 minutos na House of Eternal Spring, um salão de banquetes com telhado de telhas situado dentro do complexo da Casa Azul, sede tradicional da Presidência sul-coreana. Seu antecessor, Yoon Suk Yeol, um conservador, transferiu o gabinete presidencial para a sede do Ministério da Defesa antes de declarar lei marcial, dois anos atrás, dando início a um período político turbulento que terminou com seu impeachment e prisão.
A decisão de Lee de devolver a Presidência à Casa Azul ao tomar posse, 15 meses atrás, pretendia sinalizar um retorno à normalidade. Durante uma recente cerimônia de formatura universitária, ele posou para fotos com estudantes – um contraste marcante com Yoon, cujos seguranças derrubaram e amordaçaram um estudante que protestava dois anos antes.
Mas Lee enfrenta seus próprios problemas. Sua aprovação quase caiu pela metade desde abril, à medida que muitos sul-coreanos culpam seu governo pela disparada dos preços dos imóveis e por uma recente queda da Bolsa de Valores.
Ele também enfrenta uma pressão crescente de Trump, que recentemente o chamou de ingrato por se recusar a apoiar a guerra americana contra o Irã. Durante a entrevista, Lee defendeu sua posição sobre o Irã, dizendo que a Constituição sul-coreana o proibia de enviar tropas para uma guerra já em andamento entre países estrangeiros.
O presidente sul-coreano também busca diminuir as tensões comerciais com Trump. Negociadores sul-coreanos correm para implementar um acordo firmado entre os dois líderes no outono passado, no qual Seul concordou em investir US$ 350 bilhões nos EUA em troca de tarifas mais baixas sobre produtos sul-coreanos.
Para aplacar Trump, a Coreia do Sul pode oferecer-se para construir uma usina de geração de energia a gás no Texas e oito usinas nucleares nos EUA, segundo pessoas familiarizadas com o assunto.
Lee insistiu que não se deixa abalar pelas críticas de Trump. “Entendo perfeitamente que, do ponto de vista dele, o presidente dos EUA possa fazer diversas declarações”, afirmou.
Ele espera usar o interesse duradouro de Trump pelo ditador norte-coreano para convencer o líder americano a retomar as negociações paralisadas e reduzir as tensões na Península Coreana.
Lee acredita que o diálogo entre a Coreia do Norte e os EUA melhore as relações de seu próprio país com o vizinho do Norte, que se deterioraram nos últimos anos. A Coreia do Norte demoliu estradas e ferrovias que antes ligavam as duas Coreias, além de instalar campos minados e outras barreiras ao longo de sua fronteira, que já é fortemente fortificada.
Em contraste, a Coreia do Norte está se aproximando tanto de Moscou quanto de Pequim. Depois de apoiar a guerra da Rússia na Ucrânia, o Norte abriu uma ponte ao longo de sua fronteira com a Rússia e está prestes a abrir outra com a China.
O colapso da comunicação entre as duas Coreias eliminou a capacidade da Coreia do Sul de atuar como mediadora entre Kim e Trump, papel desempenhado por Seul ao ajudar a organizar três reuniões de cúpula durante o primeiro mandato de Trump. Essas reuniões terminaram sem um acordo sobre a desnuclearização da Coreia do Norte.
Apoiado pela Rússia e pela China e impulsionado por um crescimento econômico renovado, Kim já não está tão desesperado por um acordo com Trump e agora tem maior poder de barganha para exigir termos mais favoráveis, afirmaram analistas. Ainda assim, Trump expressou repetidamente seu desejo de retomar sua diplomacia pessoal com Kim, frequentemente se gabando de que os dois têm uma “relação muito boa”.
No mês passado, Trump reduziu unilateralmente um importante exercício militar conjunto anual com a Coreia do Sul, descrevendo-o como “hostil” a Kim. A Coreia do Norte, por sua vez, afirmou que Kim manteve “boas lembranças e sentimentos em relação a Trump” dos encontros anteriores entre os dois.
Lee não está sozinho ao pedir uma mudança de estratégia para retomar as negociações com o Norte. Em um fórum na Coreia do Sul na semana passada, Stephen E. Biegun, que liderou as negociações dos EUA com a Coreia do Norte durante o primeiro mandato de Trump, disse que Washington poderia negociar uma “desaceleração ou congelamento” do arsenal nuclear norte-coreano.
Outros estão mais céticos quanto a um avanço. Cheong Seong-chang, analista sênior do Sejong Institute, com sede em Seul, advertiu que Trump pode estar mais interessado em criar um espetáculo diplomático com Kim, como uma visita surpresa a Pyongyang, para desviar a atenção pública da guerra prolongada com o Irã. Alcançar uma paz duradoura na Península Coreana também não seria a principal preocupação de Kim, afirmou.
Lee diz que o atual impasse nas relações é simplesmente arriscado demais para continuar, já que a Coreia do Norte está expandindo constantemente seu arsenal nuclear.
“Nossas estimativas indicam que a Coreia do Norte agora é capaz de produzir, ou pode já estar produzindo, de 10 a 20 armas nucleares adicionais por ano”, disse Lee. “Quando acreditar que acumulou armas nucleares e mísseis suficientes para garantir sua sobrevivência, ficará tentada a exportá-los para ganhar dinheiro.”
