Com medo da Rússia, um ‘Domo de Ferro’ na Europa?

Temendo uma Rússia cada vez mais imprevisível, países europeus estão se voltando a Israel para sistemas de defesa aérea. A Alemanha assinou um acordo bilionário pelos sistemas de defesa Arrow 3, que já estão sendo produzidos e estarão operacionais em 2030. FinlândiaEslováquia e Chipre também garantiram sistemas de defesa de Israel e existem outros países interessados.

O acordo entre Israel e Alemanha, que tem cifras próximas de 4 bilhões de euros, foi o maior acordo de armas da história de Israel. O documento foi assinado em setembro de 2023 e o armamento já foi transferido para Berlim.

O sistema Arrow, assim como outras armas que fazem parte do arsenal militar israelense, foi amplamente testado durante a guerra multi-frentes que Israel enfrenta desde outubro de 2023 contra o grupo terrorista Hamas, a milícia xiita radical libanesa Hezbollah, os Houthis e o Irã.

Israel tem uma reputação por sua indústria de defesa e tecnologia, avalia Azriel Bermant, pesquisador sênior do Instituto de Relações Internacionais de Praga e especialista nas relações entre Israel e a Europa. “Todo esse arsenal já esteve no campo de batalha e foi efetivo. A Alemanha e outros países conseguem ver isso”.

Sistema de defesa de Israel

O sistema de defesa israelense funciona em camadas para conseguir conter ameaças em qualquer distância. “É preciso ter esses diferentes tipos de armamento. Os países precisam de uma proteção contra mísseis de longo alcance, médio alcance e curto alcance. O ideal é investir em vários sistemas e que funcionem em sequência”, destaca Raphael Cohen, analista especializado em assuntos políticos e militares, da Rand Corporation, centro de estudos americano com base em Washington.

O armamento comprado pela Alemanha, o Arrow 3, foi projetado para interceptar mísseis balísticos armados com ogivas nucleares e outras ogivas não convencionais fora da atmosfera terrestre e tem um alcance de 2.400 km. O projeto foi desenvolvido pela companhia estatal Israel Aerospace Industries (IAI) e pela Boeing, dos Estados Unidos.

O sistema representa o nível mais alto de defesa aérea israelense e é considerado crucial dentro do arsenal israelense para a defesa de Tel-Aviv contra o Irã.

Outros países europeus optaram por sistemas israelenses que tem uma capacidade menor de alcance. Em novembro de 2023, a Finlândia fechou um acordo de 317 milhões de euros para comprar o sistema de defesa David ‘s Sling (Estilingue de David). O armamento foi produzido pela companhia estatal Rafael Advanced Defense Systems e é capaz de interceptar foguetes e mísseis balísticos com um alcance de até 300 quilômetros.

A Eslováquia e o Chipre compraram o sistema Barak MX, que conta com três interceptores para alcances operacionais de 35, 70 e 150 km. Já a Grécia está interessada em desenvolver o próprio sistema de defesa Domo de Ferro, que pode interceptar mísseis de curto alcance.

“O sistema Arrow foi projetado para armas de longo alcance, que têm uma trajetória balística mais alta. O David ‘s Sling tem um sistema médio e o Barak MX tem um alcance um pouco menor”, avalia Raphael Cohen, da Rand Corporation. “O Domo de Ferro é de curto alcance, funciona bem para foguetes vindos de Gaza e do Líbano, mas não para mísseis balísticos”.

Necessidade europeia

A demanda europeia por sistemas de defesa aérea aumentou desde o início da guerra na Ucrânia, em fevereiro de 2022. Oito meses depois do começo do conflito, a Alemanha liderou uma iniciativa chamada European Sky Shield (Escudo Europeu do Céu). O projeto visa estabelecer um sistema integrado de defesa aérea, similar ao Domo de Ferro, para toda a Europa.

Até agora, 23 países fazem parte da aliança, incluindo Alemanha, Reino Unido e Holanda. A compra do sistema Arrow 3 faz parte da iniciativa, que também conta com o sistema Patriot, dos Estados Unidos, para a camada de longo alcance. As camadas menores, de curto e médio alcance, contam com os sistemas de defesa SkyRanger 30 e IRIS-T, de produção alemã.

“Essa iniciativa é importante para fazer um guarda-chuva para a Europa contra os mísseis russos”, aponta Vitelio Brustolin, professor de relações internacionais da Universidade Federal Fluminense (UFF) e pesquisador da Universidade de Harvard. “Os europeus têm medo, principalmente, dos mísseis Iskander, da Rússia, que tem uma base de lançamento no enclave de Kaliningrado, que fica bem perto de diversos países da Otan”.

O especialista indica também que a escolha da Alemanha por comprar o sistema Arrow 3 faz sentido porque o arsenal consegue defender territórios sob ameaça de satélites, além de mísseis balísticos. “A Rússia já tem uma iniciativa de colocar armas de destruição em massa em satélites, então os europeus conseguem se defender disso com o Arrow 3″.

Demanda

Com o apetite por defesa aérea em alta, analistas entrevistados pelo Estadão avaliam que Israel pode conseguir vender mais sistemas de defesa aérea para países europeus e não europeus.

“Eu não consigo ver um equipamento melhor que o Arrow 3 para defesa aérea”, avalia Brustolin. “O Arrow 3 é o melhor sistema em termos de raio e de altitude. Os sistemas que tem na Europa não tem toda essa altitude, apesar da grande produção bélica da Europa”.

O especialista indica que os Estados Unidos também poderiam usar o Arrow 3. O presidente americano Donald Trump apontou ainda em janeiro que gostaria de criar um “Domo Dourado”, que seria capaz de defender todo o território americano contra mísseis balísticos intercontinentais e hipersônicos. “Washington teria que usar o Arrow 3, principalmente porque a Boeing também faz parte deste programa e não tem outro sistema melhor”, destaca Brustolin.

Apesar disso, Cohen, da Rand Corporation, aponta que existe um limite para a venda destes sistemas. “Os europeus são mais críticos de como Israel está lutando a guerra em Gaza e querem crescer a própria indústria de armamentos e empregos europeus. Eles não querem depender de um país que está fora do continente para defesa aérea”.

Indústria de Guerra

A venda de armamentos israelenses em meio a guerra que Israel enfrenta contra o grupo terrorista Hamas ressalta a capacidade da indústria de produzir o que precisa usar domesticamente e também para vender ao exterior.

Para Cohen, o setor de defesa israelense conseguiu se adaptar com a maior demanda durante o período de guerra. “De certa forma, a guerra impulsiona a indústria de defesa, existe um interesse estratégico e econômico de aumentar a produção e reservar uma parte para vender”, afirma o analista. “Israel também está abrindo novas fábricas e se preparando para novas crises no futuro, então faz sentido o que Israel está fazendo”.

https://www.estadao.com.br/internacional/um-domo-de-ferro-na-europa-com-medo-da-russia-europeus-buscam-israel-para-se-defender

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