China usa desfile para mostrar o poderio militar

Caças sobre Pequim e tanques na Praça Tiananmen nesta quarta-feira, 3 (em Pequim, terça-feira, 2, no Brasil), quando o líder máximo da ChinaXi Jinping, comanda um elaborado desfile militar destinado a estimular o orgulho nacional e mostrar o peso diplomático da China.

Ao menos 20 líderes, em sua maioria autoritários, estiveram presentes. Junto com Xi estavam o presidente Vladimir Putin, da Rússia, o ditador norte-coreano Kim Jong-un e o presidente Masoud Pezeshkian, do Irã — a primeira vez em que os líderes dos quatro países se reuniram no mesmo lugar.

A China pretende usar o desfile para comemorar o 80º aniversário do fim da 2ª Guerra Mundial. O evento tem como objetivo mostrar algumas das armas mais novas do país e chamar a atenção para o que o Partido Comunista, atualmente no poder, afirma que são as contribuições não reconhecidas da China para a derrota do Império Japonês.

A segurança foi reforçada em Pequim em preparação para o desfile. Os ensaios envolveram mais de 40.000 soldados, civis e funcionários. O trajeto do desfile seguirá pela Avenida Chang’an, uma via central que passa pela Praça Tiananmen e pela entrada da Cidade Proibida.

Ditadores, vizinhos e um Estado da Otan

Entre os convidados estão Min Aung Hlaing, chefe da junta militar de Mianmar, e o presidente Denis Sassou Nguesso, da República do Congo, líderes de países com péssimos históricos em direitos humanos. Apenas sete dos 25 países cujos líderes estão presentes são considerados livres ou parcialmente livres pela Freedom House, um grupo de defesa com sede em Washington.

Há um caso notável, o do primeiro-ministro Robert Fico, da Eslováquia, um país membro da Otan considerado um dos mais livres da Europa Central. Fico, crítico de longa data do apoio ocidental à Ucrânia, tem trabalhado arduamente para estabelecer melhores relações diplomáticas e econômicas com Pequim.

Ainda assim, a convergência de tantos líderes decididamente antidemocráticos “ressalta a atração da China sobre os autocratas como a principal potência autoritária do mundo”, disse Neil Thomas, membro do Centro de Análise da China da Asia Society.

Também revelador, disse Thomas, foi o fato de que líderes de 11 dos 14 países que fazem fronteira com a China estavam representados, entre eles Mongólia, Laos e Nepal, oferecendo “uma demonstração vívida de que a China já é uma superpotência regional”.

A última parada da vitória comemorativa da 2ª Guerra Mundial em Pequim, em 2015, serve de referência: o público pode esperar um espetáculo altamente coreografado, com soldados marchando, bandas tocando música marcial e aeronaves militares voando em formação, lançando nuvens de fumaça colorida.

Xi provavelmente passará em revista as tropas reunidas através do teto solar de uma limusine de fabricação chinesa equipada com microfones, que ele usará para gritar periodicamente: “Saudações, camaradas!”

Xi então se juntará aos líderes mundiais visitantes para assistir ao resto do desfile. Em 2015, veteranos da 2ª Guerra Mundial foram incluídos no evento, acenando de ônibus sem teto.

Nacionalismo e uma reformulação da guerra

O desfile é a peça central de uma campanha mais ampla do Partido Comunista para fomentar o sentimento nacionalista e antijaponês. O partido promoveu filmes que enfocavam a brutalidade do Exército Imperial Japonês, lotando cinemas em todo o país e preparando o público para a mensagem de Xi.

Esse fervor é politicamente útil para o partido. Ao reviver as memórias do trauma da guerra, o partido comunista tem uma maneira de reunir apoio interno diante de uma prolongada recessão econômica, desemprego entre os mais jovens e tensões com os Estados Unidos.

A campanha também aumentou as fricções com o Japão. Na semana passada, Pequim apresentou um protesto a Tóquio sobre relatos de que o Japão havia pedido aos governos europeus e asiáticos que não participassem do desfile.

Espera-se que Xi destaque o papel mais importante que a China desempenhou na 2ª Guerra Mundial, algo que normalmente não é reconhecido no Ocidente. A reformulação da guerra tem dois objetivos: apresentar o partido como o salvador da nação, embora os historiadores digam que os nacionalistas fizeram a maior parte da luta, e reforçar as reivindicações de Pequim sobre territórios — especialmente Taiwan — que, segundo a China, as nações ocidentais negaram após a guerra.

Poder de fogo moderno para um exército de primeira linha

Espera-se que o desfile mostre algumas das armas mais recentes da China, que ajudarão o país a atingir seu objetivo de construir um exército de ponta.

Isso inclui mísseis balísticos intercontinentais com capacidade nuclear, tanques de última geração e uma série de sistemas de armas não tripulados. A China afirma que precisa de um exército de primeira linha para manter a paz e se defender de agressores externos, como os Estados Unidos.

Muitas das novas armas que devem ser reveladas no desfile parecem ter sido projetadas para aumentar a capacidade da China de invadir Taiwan, a ilha autônoma reivindicada por Pequim. Entre elas estão mísseis antinavio hipersônicos que poderiam impedir a Marinha dos EUA de vir em defesa de Taiwan e drones de combate que podem ajudar as forças armadas chinesas a navegar melhor pelo terreno montanhoso de Taiwan.

Embora a demonstração de força tenha como objetivo destacar o poderio da China, ela também ocorre em um momento em que a liderança militar do país está em desordem devido a uma repressão à corrupção. Três das sete cadeiras da Comissão Militar Central, o conselho de supervisão do Partido Comunista que controla as forças armadas, parecem estar vazias depois que seus membros foram presos ou desapareceram.

https://www.estadao.com.br/internacional/xi-jinping-usa-desfile-para-mostrar-o-poderio-militar-da-china-e-seu-circulo-de-autocratas

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