China tem como amortecer a crise da Evergrande

O crescimento da economia global é maior do que esperado há um ano, mas a recuperação continua desigual e expõe tanto os países desenvolvidos quanto os emergentes a uma série de riscos. A avaliação da Organização para Cooperação e Desenvolvimento (OCDE) foi apresentada pela sua economista-chefe, Laurence Boone. 

Em entrevista ao Valor, Boone destacou a alta da inflação e a desaceleração do crescimento global em 2022. Para a OCDE, uma consequência potencial de uma pressão inflacionária mais forte em 2022 é elevar as expectativas do mercado financeiro sobre um início mais precoce da normalização da política monetária, o que criaria dificuldades para alguns emergentes. 

A avaliação é também de que o progresso lento de vacinação e a propagação contínua de novas mutações do vírus resultaram em uma recuperação mais fraca e maiores perdas de empregos. 

Boone destacou igualmente a tensão com a crise da dívida imobiliária na China, ilustrada na ameaça de default da Evergrande, que representou 4% de todas as vendas de imoveis novos na China no ano passado. Mas, ao apresentar o relatório de perspectivas globais, ela deu a mensagem da OCDE de que o governo chinês tem capacidade monetária e fiscal de amortecer o choque causado por Evergrande, e que o impacto das turbulências que abalaram as bolsas no mundo deve ser limitado. 

Para a economista-chefe da OCDE, o apoio dos governos continua sendo necessário, em meio a perspectivas a curto prazo ainda incertas e mercados de trabalho que ainda não se recuperaram. Leia a seguir trechos da entrevista. (AM) 

Valor: O que mudou desde sua última projeção para a economia mundial? 

Laurence Boone: Em termos de crescimento não há surpresa, está em linha com o que falamos em maio, mas a retomada continua desigual entre os países. O que é novo é que focamos na inflação, porque, claro, todo mundo está muito preocupado com isso. 

Valor: Há risco de estagflação? 

Boone: Não podemos dizer nunca que não há risco de nada. Pelo momento, temos uma recuperação muito forte e que continuará no ano que vem, portanto a situação não sugere isso [estagflação]. Com relação à inflação, pensamos duas coisas. Primeiro, que é temporária, pois se deve muito ao lado extraordinário desse crise; segundo, que será bem mais complicado para países emergentes, com os altos preços de energia e alimentos. 

Temos movimentos de preços bastante ásperos devido a vários distúrbios. Como uma forte demanda de matérias-primas, com preços que aumentam muito com o preço do petróleo. Perturbações do preço de transporte, muito mais caros hoje, multiplicados por três no transporte marítimo, e também perturbações nas cadeias de produção. E há muitas fronteiras que estão fechadas em vários países, muito menos mobilidade de pessoas, e isso afeta particularmente os setores da agricultura e construção. Esse é o lado da oferta. 

No lado da demanda, em muitos países a renda das pessoas e a situação das empresas foram preservadas, e com a abertura da economia subiu a demanda por bens duráveis, automóveis, equipamentos de casa, semicondutores. A demanda de semicondutores vai ser mais elevada de maneira permanente, mas vemos que a capacidade de produção está aumentando, e os preços vão se normalizar. Quanto a bens duráveis e semiduráveis, não é demanda que vai continuar a aumentar por vários anos. Há fenômeno de recuperação, mudança de demanda de certos produtos e isso também deverá abrandar no curso do ano que vem. 

Portanto, a recuperação de preços não quer dizer forçosamente que é uma inflação que vai subir o todo o tempo. Quando examinamos antecipações de inflação além do curto prazo, por exemplo, no horizonte de três a cinco anos, ela é bastante estável, não vemos essa famosa espiral de preços/salários. 

Valor: E suas repercussões na política monetária? 

Boone: Algo muito diferente em relação à crise financeira global [2008/09] é que desta vez a comunicação sobre política monetária e reação dos bancos centrais foram muito rápidas e muito mais claras. Por exemplo, BCs nos emergentes, como no Brasil, reagiram rapidamente à alta da inflação. E isso vai ter um efeito para desacelerá-la. Da mesma maneira, o Federal Reserve dos EUA foi claro na sua comunicação. Os países emergentes começaram a aumentar os juros. Tem havido uma melhor sequência em relação ao que vimos antes. 

Valor: Há outros riscos mais elevados para a economia mundial? 

Boone: Primeiro, como falamos, identificamos o risco de inflação. Pensamos que é temporária, mas é preciso monitorar. Além disso, enquanto não tivermos muito mais pessoas vacinadas do que agora, não estaremos ao abrigo de fechamento de cadeias de produção, de portos, de tudo que faz a fluidez da atividade econômica mundial. Isso é muito importante, porque leva a uma persistência da inflação do lado da oferta. Portanto, [o ritmo da vacinação] nos inquieta pela saúde das pessoas, pela atividade e pela inflação. Também acompanhamos com atenção o que está ocorrendo na China, é claro, porque vimos em 2015 que, quando há tensão financeira ou baixa da demanda no país, isso tem impacto no resto do mundo, e é algo que afeta, por exemplo, o Brasil com as matérias-primas. 

Valor: Sobre a tensão na China… 

Boone: Vamos ficar atentos a essa situação da dívida do setor imobiliário. A China começou a sanear um pouco todos seus créditos e isso não ocorre sempre da maneira mais suave possível. É difícil sanear quanto houve crédito demais e conseguir que não haja muito impacto sobre o crescimento e os consumidores. 

E continuando sobre os riscos, vemos que as economias que estavam com pleno emprego vão voltar ao pleno emprego, as que não estavam em pleno emprego continuarão assim. Ou seja, as economias voltam ao que estavam antes da crise, só que com mais dívidas. E com uma transição energética que vai custar dinheiro. Assim, será necessário que os governos comecem a anunciar – nem é fazer, porque precisamos do apoio fiscal – como eles vão selecionar as prioridades, como vão ajustar suas finanças para fazer face às dívidas, a transição e aos problemas de antes. 

Valor: Tudo isso num cenário de crescimento menor em 2022. 

Boone: Sim, teremos moderação do crescimento em todo lugar, nas economias emergentes e nas avançadas. Mas é normal, um efeito de recuperação que vai diminuindo. É importante notar que, em relação à crise financeira global, na atual crise os países mantiveram o apoio fiscal, focando melhor [nesses apoios], depois diminuem as medidas de urgência. Os governos foram bem sucedidos em todo o período de proteção contra a crise sanitária. Agora estamos numa transição para a normalização, e é um período também complicado de manejar do ponto de vista de políticas econômicas. 

Valor: Sobre o início da retirada de estímulos à economia dos EUA, como ficam os emergentes? 

Boone: Em 2013 os mercados e os emergentes foram surpreendidos [a reversão do Fed de seu programa de flexibilização quantitativa de compras de ativos em 2013 gerou pânico no mercado quando os rendimentos dos títulos dispararam e os preços das ações caíram, com um aumento nos custos de empréstimos globais]. Desta vez, os emergentes já apertaram a política monetária. Nos EUA, a comunicação ajuda a esclarecer as coisas e ajuda a não ter choques e surpresas, como em 2013. Por isso, insistimos muito na comunicação dos bancos centrais. É preciso realmente evitar surpresas no mercado que levem a altas das taxas de juros que podem ser desestabilizadores para as economias. 

Valor: A nova projeção da OCDE para o Brasil, de expansão de 2,3% em 2022, não é muito otimista? O mercado já fala em menos de 1%. 

Boone: Há três fatos principais que levaram à revisão de nossa projeção. O crescimento na primeira metade do ano foi melhor do que prevíamos, e isso tem impacto sobre a produção futura. Além disso, há o boom de commodities, que pode continuar; e, por fim, tem uma surpresa, a alta da arrecadação do governo, com as finanças públicas melhores do que esperávamos. Isso é positivo. Do lado da oferta também, o que vemos é capacidade de produção sólida. 

Valor: A maior confrontação entre os EUA e China pode ter impacto sobre a recuperação global? 

Boone: Não posso comentar sobre questões militares, mas quando há tensões nas trocas comerciais, como em 2017 e 2018, tem impacto sobre o crescimento. 

https://valor.globo.com/mundo/noticia/2021/09/22/china-tem-como-amortecer-a-crise-da-evergrande.ghtml

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