João Osvaldo S. Matta
Aos quinze anos, participei de um intercâmbio de trinta dias na Califórnia. Pela manhã, estudávamos inglês na Universidade de San Diego. À tarde, estudávamos um pouco menos e circulávamos um pouco mais. Em um desses dias, alguns colegas brasileiros e eu encontramos uma rádio universitária e entramos para conversar com o locutor, que apresentava um programa dedicado à música internacional.
Quando soube que éramos brasileiros, ficou entusiasmado. Disse que gostava especialmente de música instrumental brasileira e mencionou dois de seus músicos favoritos: Sivuca e Hermeto Pascoal.
Não conhecíamos nenhum dos dois. Shame on us!
Na época, a situação me pareceu apenas curiosa: um radialista norte-americano conhecia músicos brasileiros que adolescentes brasileiros nunca haviam encontrado. Hoje percebo que aquela pequena cena continha uma pergunta maior:
Por que não conhecíamos Sivuca e Hermeto?
Uma resposta simples seria: porque ainda não os havíamos descoberto. Mas isso pressupõe que todas as músicas estavam igualmente disponíveis diante de nós e que apenas não tínhamos escolhido aquelas duas.
Não era assim.
Cresci no interior de São Paulo nos anos 1970 e 1980. O universo musical que chegava até nós passava por poucas emissoras de rádio, gravadoras, distribuidoras e lojas de discos. Antes que uma música pudesse fazer parte da nossa vida, alguém precisava gravá-la, distribuí-la, colocá-la à venda ou decidir que merecia alguns minutos de transmissão.
Meu gosto começava, portanto, antes das minhas escolhas.
A frase parece contraditória, mas aponta para uma questão importante: para escolher alguma coisa, primeiro precisamos encontrá-la. E aquilo que encontramos também participa da formação do que aprendemos a desejar. Spinoza observou, na Ética, que não desejamos uma coisa porque a julgamos boa; em alguma medida, julgamos boa uma coisa porque a desejamos. O gosto pessoal, portanto, forma-se dentro de um campo de possibilidades que não foi inteiramente criado por nós.
Isso não significa que alguém determine mecanicamente aquilo de que gostaremos. Podemos rejeitar o que nos oferecem, procurar outras referências e desenvolver interesses inesperados. Mas existe uma condição anterior à escolha: alguma coisa precisa entrar em nosso horizonte.
Durante boa parte do século XX, os responsáveis por organizar esse horizonte eram relativamente visíveis. Gravadoras, distribuidores, programadores de rádio, jornalistas, críticos e lojas selecionavam e hierarquizavam aquilo que circulava.
Então chegou a abundância digital.
Hoje carrego no bolso um acervo musical inimaginável para aquele adolescente na Califórnia. Posso procurar Sivuca em segundos, ouvir diferentes fases de Hermeto Pascoal e saltar imediatamente para músicos de praticamente qualquer parte do mundo.
Nunca tivemos acesso potencial a tanta produção cultural. Mas estar disponível não é o mesmo que ser encontrado.
Milhões de músicas podem estar em uma plataforma sem jamais aparecer diante de nós, enquanto outras reaparecem em playlists, recomendações, rankings e sequências automáticas. Talvez tenhamos trocado um problema de disponibilidade por outro de encontrabilidade.
É nesse ponto que o algoritmo se torna importante.
Frequentemente falamos dele como se fosse uma entidade que escolhesse por nós. Mas talvez essa não seja a questão principal. Continuamos escolhendo o que ouvir, assistir ou ler. O problema está um pouco antes: quem organiza aquilo entre o que podemos escolher?
Diante de milhões de possibilidades, alguma coisa precisa aparecer primeiro, alguma depois, e uma quantidade imensa simplesmente não aparecerá. Sistemas de recomendação organizam esse campo a partir de histórico de uso, popularidade, recorrência, semelhanças entre usuários, tendências e outros sinais.
Há uma diferença entre obrigar alguém a ouvir determinada música e tornar algumas músicas muito mais encontráveis do que outras. A segunda operação é menos evidente, mas participa diretamente da formação de nossos repertórios.
Quando entro em uma plataforma e encontro uma tela aparentemente feita para mim, não estou diante do mundo inteiro. Estou diante de uma determinada organização desse mundo.
Nesse sentido, a antiga rádio e a plataforma digital talvez estejam menos distantes do que imaginamos. O programador de uma emissora selecionava músicas e organizava sua sequência. A curadoria algorítmica realiza uma operação muito mais complexa, dinâmica e personalizada. E, justamente porque parece responder aos nossos próprios interesses, sua mediação pode se tornar menos perceptível.
Isso não significa que a recomendação algorítmica seja necessariamente ruim. Ao contrário: descobrimos por meio dela músicas, filmes, autores e artistas que talvez jamais encontrássemos. Tampouco existiu um passado culturalmente neutro: os antigos mediadores tinham interesses econômicos, limitações, preconceitos e critérios próprios de legitimidade.
A diferença importante talvez esteja na visibilidade da mediação. Quando o filtro se torna difícil de perceber, também se torna mais difícil interrogá-lo.
E isso importa porque recorrência produz familiaridade. Aquilo que aparece repetidamente ocupa espaço em nosso repertório. Certos artistas circulam mais, determinados estilos tornam-se reconhecíveis e algumas referências começam a parecer naturais. Outras permanecem na periferia da atenção. Se nossos desejos também se formam nos encontros que fazemos, organizar esses encontros é participar, ainda que indiretamente, da formação do gosto.
A questão ultrapassa a música. Plataformas selecionam quais filmes destacar, redes sociais organizam as publicações que veremos, mecanismos de busca ordenam resultados e sistemas de recomendação escolhem qual vídeo aparecerá depois daquele que assistimos.
A abundância, portanto, não eliminou a seleção. Tornou a seleção ainda mais necessária — e talvez menos visível.
Quanto maior o universo disponível, maior a importância dos mecanismos que o organizam. É aí que uma questão aparentemente técnica adquire dimensão cultural e política: quem ganha recorrência? Quem permanece difícil de encontrar? Que repertórios esses sistemas fortalecem? O que pode permanecer praticamente invisível não porque tenha sido proibido, mas simplesmente porque quase nunca atravessa nosso caminho?
Volto então àquela rádio em San Diego.
Durante muito tempo pensei que aquela história fosse sobre o estranho fato de um norte-americano conhecer uma parte da música brasileira que eu desconhecia. Hoje percebo que ela era também uma história sobre mediação.
Alguma cadeia de escolhas havia criado as condições para que Sivuca e Hermeto Pascoal chegassem até aquele radialista. Outras cadeias não haviam criado as mesmas condições para que chegassem até mim.
Quase meio século depois, encontrá-los seria infinitamente mais fácil. Mas a pergunta não desapareceu. Apenas mudou de lugar.
Antes, perguntávamos quem decidia o disco que chegaria à loja ou a música que entraria na programação da rádio. Hoje precisamos perguntar também quem organiza a tela que abrimos, por que determinada recomendação aparece e quais critérios transformam uma possibilidade entre milhões em algo que efetivamente chega até nós.
Porque, antes de escolhermos aquilo que queremos ouvir, assistir ou conhecer, alguma coisa precisa aparecer em nosso caminho.
E talvez a pergunta escondida naquela pequena rádio universitária continue sendo a mesma:
Quem organiza aquilo que encontramos?
