Há apenas um ano, os Ray-Ban da Meta, equipados com câmera, ganhavam força. Milhões de unidades haviam sido vendidas. Influenciadores usando os elegantes óculos produziam vídeos de culinária, unboxing de produtos e documentários de viagem. Por um momento, parecia que os óculos inteligentes poderiam ser o próximo passo da computação pessoal depois do smartphone.
Muita coisa pode mudar em um ano.
À medida que as vendas dos óculos de US$ 300 cresciam, começaram a surgir histórias constrangedoras. Artistas da paquera os usavam enquanto importunavam mulheres em academias, banheiros e vestiários, gravando-as às escondidas. Logo, lojas e restaurantes passaram a exibir avisos proibindo os Ray-Ban da Meta. Os óculos ganharam um apelido nada lisonjeiro: “óculos de pervertido”.
Na quarta-feira, Mark Zuckerberg apresentou o Ray-Ban Meta Audio, um novo modelo sem câmera, vendido por US$ 349 e focado em microfones para conversar com o assistente de inteligência artificial da Meta. Ele apresentou a ausência da câmera — o recurso característico dos óculos anteriores da empresa — como uma evolução. Pareceu uma retirada constrangida.
“Sem câmeras, isso abre muitas novas possibilidades de design”, disse Zuckerberg durante uma apresentação principal na conferência da empresa para desenvolvedores de software, em Menlo Park, Califórnia. “Eles podem parecer quaisquer outros óculos. É possível torná-los mais leves e mais finos. Eles têm a maior duração de bateria entre todos os nossos óculos.”
Assim como o antecessor equipado com câmera, os óculos apenas com áudio podem fazer chamadas telefônicas e reproduzir música. A empresa também continua vendendo outras versões com câmera. Embora a Meta tenha apresentado um novo modo privado para que as pessoas interajam com sua IA em um ambiente seguro, inacessível aos funcionários da empresa, não mencionou novas proteções para impedir que usuários gravem outras pessoas de maneira inadequada.
Neste mês, porém, a Meta anunciou que havia desativado permanentemente as câmeras de milhares de óculos inteligentes pertencentes a usuários que adulteraram o produto para remover uma luz que acendia durante a gravação de vídeos.
Em um vídeo no Instagram, o diretor de tecnologia da Meta, Andrew Bosworth, afirmou que a empresa desenvolveu os óculos tendo a privacidade em mente. Mas minimizou os problemas relacionados ao tema e disse que a Meta continuaria avançando com os óculos computadorizados.
“Não quero que o debate seja inteiramente moldado por esse número relativamente pequeno de maus usuários”, disse ele. “A maioria das pessoas que usa os óculos os utiliza de maneiras completamente normais.”
Em comunicado, Carl Woog, porta-voz da Meta, afirmou que os óculos da empresa “continuam muito populares, razão pela qual estamos ampliando os estilos e incorporando nosso agente de IA Muse, capaz de realizar tarefas para você sem o uso das mãos”. Ele acrescentou que as luzes dos óculos inteligentes da Meta que indicam uma gravação “não podem ser desligadas, e inutilizamos a câmera se alguém adulterar a luz”.
Seria de imaginar que a reação negativa aos óculos com câmera da Meta deixaria outras empresas de tecnologia mais cautelosas em relação à venda de dispositivos vestíveis semelhantes. Mas isso seria subestimar a sede do setor de tecnologia por novos tipos de produtos para vender.
Neste mês, a Apple lançou uma nova versão de seu relógio inteligente que escuta conversas para produzir pequenos resumos. (O novo presidente-executivo da Apple, John Ternus, negou, em entrevista ao Tom’s Guide, que o dispositivo faça qualquer gravação.) A Apple também estaria desenvolvendo óculos com câmera e proteções de privacidade mais robustas que as da Meta. A empresa se recusou a comentar.
O Google também planeja lançar neste ano elegantes óculos com câmera que incluem seu chatbot de IA, o Gemini. É a segunda tentativa da empresa nesse segmento, 13 anos depois de ter cortejado o mundo da moda e os consumidores mais entusiastas de tecnologia com seus próprios óculos equipados com câmera.
Em 2013, a empresa lançou o Google Glass, um headset com câmera e tela transparente para o uso de aplicativos. Usuários que gravavam discretamente outras pessoas sem consentimento, entre outros comportamentos, foram rotulados com um palavrão — uma combinação do nome do produto com um termo para pessoas desagradáveis — que nossos editores preferem que não seja reproduzido nesta coluna.
O Google publicou um guia de etiqueta para o uso do Google Glass em público e pediu aos usuários que tivessem bons modos. Mas o ridículo público se sobrepôs às vendas fracas. Dois anos depois, a empresa encerrou o produto.
Também surgiram, em 2024, dispositivos de startups que experimentaram ideias semelhantes e foram extremamente impopulares, como o colar de IA Friend, que escutava conversas constantemente e oferecia comentários por mensagens de texto, e o AI Pin, um broche com câmera, microfone e chatbot. Ambos fracassaram.
Mesmo com as empresas de tecnologia lançando esses novos dispositivos, fica cada vez mais claro que o público está mais sensível à possibilidade de ser monitorado por câmeras sem autorização. A Flock Safety, uma empresa de vigilância de Atlanta, também passou a ser alvo de escrutínio por instalar câmeras em todo o país para escanear placas de veículos.
Embora os dispositivos tivessem o objetivo de ajudar agentes da lei a capturar criminosos, os críticos da Flock acreditam que a presença generalizada de câmeras de vigilância em espaços públicos reduz a privacidade pessoal, inclusive a de cidadãos que respeitam a lei.
Evan Greer, diretora da organização sem fins lucrativos de direitos digitais Fight for the Future, afirmou que os problemas levantados pela Flock e pelos óculos com câmera da Meta mostram como as políticas públicas não acompanharam as novas tecnologias.
“Impérios de vigilância estão sendo construídos não apenas por governos, mas também por indivíduos e empresas”, disse ela. “Estamos numa espécie de Velho Oeste quando se trata da possibilidade de as pessoas filmarem umas às outras em público. Elas podem fazer isso secretamente? E quais são os danos sociais decorrentes disso?”
A insistência da indústria de tecnologia em computadores vestíveis que registram o ambiente ao nosso redor, apesar dos muitos fracassos anteriores e do aparente desconforto social, levanta uma questão importante: por que continuar tentando?
Uma explicação simples: o hardware pode ser um caminho para lucrar com uma tecnologia de IA que, de outra forma, é um poço de dinheiro. Fabricantes de chatbots, como OpenAI e Anthropic, que não são lucrativas e queimam bilhões de dólares, precisam convencer mais usuários comuns a pagar assinaturas por seus serviços.
Mas a motivação maior são os dados, a moeda invisível que permite que a internet seja usada gratuitamente. Dados sobre as pessoas, coletados por um dispositivo que vê o que elas veem e ouve o que elas ouvem, são extremamente valiosos, afirmou Chris Gilliard, pesquisador independente de privacidade.
“Eles precisam de dados de treinamento, por isso precisam que as pessoas estejam sempre com dispositivos, que eles as acompanhem e conheçam sua alimentação”, disse ele, referindo-se à investida contínua do setor de tecnologia. “Essa é a extensão lógica do que eles chamam de algoritmos que conhecem você melhor do que você conhece a si mesmo — mas eles chamam isso de IA.”
https://www.nytimes.com/2026/09/24/technology/personaltech/meta-glasses-wearables.html
