‘Chatbot’ brasileiro usa IA para desvendar geografia

Quem fez a educação básica antes da era digital deve se lembrar bem dos antigos atlas escolares, que traziam coleções de mapas em forma de livro. Apaixonado por geografia, disciplina na qual é doutor pela Universidade de Brasília (UnB), Luiz Ugeda viu uma oportunidade de atualizar o formato ao transformá-lo em uma plataforma on-line e interativa, baseada em inteligência artificial. O resultado é a Geocracia IA, “chatbot” que mostra e interpreta dados estatísticos associados a recursos de geolocalização. Em versão beta, a plataforma entra hoje (11) no ar.

A Geocracia responde às perguntas do usuário, analisa as informações e faz sugestões, como ocorre com “chatbots” de uso geral, como Gemini, Claude e ChatGPT. O que a diferencia é sua enorme base de dados públicos associados a mapas, que permite fazer consultas por geografias bem específicas – por exemplo, quantas cavernas existem nas proximidades, quem venceu as eleições na rua de casa ou qual a receita média total dos moradores do bairro.

“O Brasil dispõe de muitos dados, mas a governança ainda é incipiente. Cada setor cria sua própria base de informações e, em alguns casos, várias organizações da mesma área fazem trabalhos paralelos”, afirma Ugeda, fundador e presidente da Geodireito, empresa responsável pela plataforma. A principal vantagem, diz ele, é a capacidade de reunir os dados em um só lugar e aplicar IA para analisá-los de forma conjunta, com retratos mais precisos.

A abordagem do “chatbot”, cuja criação envolveu uma equipe multidisciplinar, segue a linha do geógrafo Milton Santos (1926-2001), um dos maiores nomes da geografia mundial. Primeiro latino-americano a receber o Prêmio Vautrin Lud (1994), considerado o “Nobel da Geografia”, Santos não via o espaço geográfico como um cenário passivo, mas como expressão das relações de poder e desigualdades. “Bebemos dessa fonte. É uma linha genuinamente brasileira”, diz Ugeda.

A Geocracia IA está voltada a profissionais que precisam de informação georreferenciada para tomar decisões de negócios, como construir linhas de transmissão de energia, construir projetos imobiliários, mapear jazidas minerais ou obter créditos agrícolas – isso tanto em empresas privadas quanto públicas. Além da versão gratuita, a plataforma terá uma modalidade paga, com recursos mais sofisticados.

Indivíduos que precisam de dados para orientá-los no dia a dia e profissionais liberais como arquitetos e jornalistas também fazem parte do público-alvo.

“Enquanto a maioria das IAs geográficas são construídas de cima para baixo, com base em mapas aeroespaciais ou imagens de drone, a Geocracia foi feita de baixo para cima, com atenção a aspectos que não costumam ser levados em conta, como saber quantos pontos de ônibus existem numa rua”, compara Ugeda.

A plataforma não substitui cartórios ou serviços de consultoria, ressalta o também advogado e doutor em direito pela Universidade de Coimbra (Portugal). O objetivo, diz ele, é “escancarar problemas” nas primeiras fases de um projeto para evitar problemas posteriores.

Ugeda está acostumado a lidar com esse tipo de dificuldade. A Geodireito foi fundada em 2008 com foco em decisões jurídicas ligadas a temas como regularização de terras, monitoramento de territórios e crédito rural, além de fornecer subsídios para a formulação de políticas públicas. Neste ano, ele também se tornou sócio do escritório SplawSpiewak/Carneiro Advogados, que trata de questões relacionadas às areas de ciências da vida, saúde pública e inovação.

A internacionalização da Geocracia IA está nos planos, a começar por Portugal. A dificuldade, diz Ugeda, é que cada país tem legislação e nomenclaturas muito diferentes entre si. Por exemplo, enquanto o Brasil tem 5,5 mil municípios, a Espanha tem 8 mil e a França, 34 mil, mesmo sendo muito menores. “Queremos ser uma plataforma global, mas feita cem por cento por brasileiros.”

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