Tensão entre Pequim e Tóquio cresce após radar chinês mirar em caças japoneses

Japão e Austrália pediram calma neste domingo depois que aeronaves militares chinesas miraram o radar em caças japoneses, um mês após declarações da líder do Japão sobre Taiwan, que aumentaram as tensões entre Tóquio e Pequim.

O ministro da Defesa, Shinjiro Koizumi, disse que o Japão protestou formalmente contra o incidente, classificando-o como “extremamente lamentável” e “perigoso”, além de “exceder o escopo necessário para operações seguras de aeronaves”.

“Apresentamos um protesto contundente ao lado chinês e exigimos medidas preventivas rigorosas”, disse Koizumi.

O Ministério da Defesa do Japão informou que aeronaves militares chinesas J-15 decolaram do porta-aviões chinês Liaoning, próximo à ilha japonesa de Okinawa, no sábado, e “intermitentemente” travaram seu radar nos caças japoneses F-15 em duas ocasiões no mesmo dia: por cerca de três minutos no fim da tarde e por cerca de 30 minutos à noite. Não ficou claro se o mesmo J-15 chinês esteve envolvido nos dois episódios.

Os caças japoneses haviam sido acionados para perseguir jatos chineses que realizavam exercícios de decolagem e pouso no Pacífico. Eles perseguiam as aeronaves chinesas a uma distância segura e não tomaram ações que pudessem ser interpretadas como provocação, informou a agência Kyodo News, citando autoridades de defesa, quando ocorreu o travamento de radar. Não houve violação do espaço aéreo japonês, e nenhum ferimento ou dano foi registrado.

O coronel sênior Wang Xuemeng, porta-voz da Marinha chinesa, defendeu o treinamento aéreo da China próximo à ilha de Miyako no sábado, dizendo que Pequim havia anunciado os exercícios antecipadamente e acusando as aeronaves japonesas de “assédio”.

“Pedimos solenemente ao lado japonês que pare imediatamente de caluniar e difamar, e que restrinja rigorosamente suas ações na linha de frente. A Marinha chinesa tomará as medidas necessárias de acordo com a lei para salvaguardar resolutamente sua própria segurança e seus direitos e interesses legítimos”, disse Wang em um comunicado publicado neste domingo no site do Ministério da Defesa da China.

As relações entre Japão e China pioraram depois que a primeira-ministra japonesa, Sanae Takaichi, afirmou no início de novembro que o país poderia se envolver militarmente caso a China tomasse alguma atitude contra Taiwan, a ilha autogovernada que Pequim considera parte de seu território.

Japão e Austrália, cujos ministros da Defesa realizaram conversas programadas em Tóquio neste domingo, expressaram preocupação com a situação.

“Estamos profundamente preocupados com as ações da China nas últimas 24 horas”, disse o ministro da Defesa da Austrália, Richard Marles, em uma coletiva conjunta neste domingo após as conversas com Koizumi. “Esperamos que essas interações sejam seguras e profissionais.”

A Austrália “não quer ver qualquer mudança no status quo no Estreito de Taiwan”, afirmou Marles, acrescentando que a China é o maior parceiro comercial de seu país e que ele deseja manter relações produtivas com Pequim.

“Continuamos a dialogar com a China sobre essas questões de forma muito calma, sensata e moderada”, disse.

Japão e Austrália, durante as conversas deste domingo, concordaram em reforçar seus laços militares para liderar a cooperação de defesa multilateral na região. Os dois ministros concordaram em formar uma “estrutura de coordenação estratégica de defesa” abrangente e discutir detalhes adicionais.

Tóquio vem acelerando sua ampliação militar enquanto expande seus laços de defesa para além de seu único aliado por tratado, os Estados Unidos. O país agora considera a Austrália como um semi-aliado.

Marles também visitou um estaleiro da Mitsubishi Heavy Industries em Nagasaki no sábado para observar a produção da fragata da classe Mogami, atualizada, que seu país escolheu em setembro para substituir sua frota envelhecida.

Acredita-se que o travamento de radar ocorrido no sábado seja o primeiro envolvendo aeronaves militares japonesas e chinesas. Em 2013, um navio de guerra chinês mirou um radar em um destróier japonês, informou a Kyodo.

Caças utilizam radar para operações de busca ou controle de tiro antes do lançamento de mísseis.

Em outra parte do Pacífico, a guarda costeira das Filipinas informou que a China disparou três sinalizadores em direção a um avião do departamento de pesca que fazia patrulha no Mar do Sul da China no sábado. As forças chinesas disparam sinalizadores para alertar aviões a se afastarem do que consideram seu espaço aéreo sobre as águas disputadas.

O repórter da Associated Press, Ken Moritsugu, em Pequim, contribuiu para esta reportagem./AP

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