China promove nova ordem global ao lado de Rússia e Índia

O presidente da China, XiJinping, usou ontem uma que contou com a Presença dos líderes de Rússia e Índia para apresentar sua visão deu ma nova ordem econômica e de segurança que prioriza o “Sul Global”, em um desafio direto aos Estados Unidos.

“A governança global chegou a uma nova encruzilhada”, disse Xi.

“Precisamos continuar a nos posicionar claramente contra o hegemonismo e a política de poder, praticando o verdadeiro multilateralismo”, acrescentou, em um ataque velado ao governo de Donald Trump e a guerra tarifária mundial lançada por ele em abril. Xi recebeu mais de 20 países da região para a cúpula da Organização de Cooperação de Xangai, uma iniciativa que recebeu um novo impulso com a presença do presidente russo, Vladimir Putin, e do primeiro- ministro da Índia, Narendra Modi, que fez sua primeira visita à China em sete anos.

Em uma imagem criada para criar um clima de unidade entre países que enfrentam antigas rivalidades e interesses muitas vezes conflitantes, Putin e Modi foram mostrados de mãos dadas enquanto caminhavam em direção a Xi antes da abertura da cúpula. Os três estavam lado a lado, rindo e cercados por intérpretes.

“É difícil dizer se a cena foi coreografada ou improvisada, mas isso realmente não importa”, disse Eric Olander, editor-chefe do The China- Global South Project, uma agência de pesquisa. “Se o presidente dos EUA e seus acólitos pensaram que poderiam usar as tarifas para pressionar China, Índia ou Rússia a se submeterem, esse (encontro) diz o contrário.”

Pouco conhecida fora da região, a Organização de Segurança de Xangai foi formada há mais de 20 anos como um bloco de segurança regional. China, Rússia e quatro países da Ásia Central são fundadores. A Índia aderiu em 2017.

Fora os recados velados a Trump, Xi não revelou nenhuma medida concreta no que “Iniciativa de Governança Global” – a mais recente de uma série de estruturas de políticas de Pequim voltadas para promover a liderança da China e desafiar as organizações internacionais dominadas pelos EUA após a Segunda Guerra Mundial.

No entanto, o bloco concordou com a criação de um novo banco de desenvolvimento, no que seria um passo importante em direção à aspiração de longa data de chineses e russos de desenvolver um sistema alternativo de pagamentos para diminuir o poder do dólar e das sanções impostas pelos EUA.

Esta não foi a primeira vez que Xi questionou o atual estado da ordem global e contestou o papel dos EUA, colocando a China como um possível pilar de um novo sistema em contraste com as incertezas geradas pelas políticas erráticas de Trump. Em outras oportunidades, o presidente chinês pressionou pelo que ele descreveu como uma globalização econômica mais inclusiva, em resposta às tarifas.

Os desafios ao dólar e as compras de produtos russos por parte de Pequim e Nova Délhi têm sido frequentemente questionadas por Trump, que acusa os países de financiarem o governo de Putin durante a guerra na Ucrânia. Apesar da pressão dos países europeus, porém, o presidente americano reluta em avançar com novas sanções contra o Kremlin, que segue atacando a Ucrânia e minando os esforços de paz da Casa Branca.

Trump impôs uma “tarifa secundária” de 25% sobre a Índia pela compra do petróleo da Rússia, elevando a alíquota cobrada sobre produtos importados do país a 50% – a mais alta da guerra comercial, ao lado do Brasil. Chineses, que escaparam ilesos desta “punição”, e indianos são os maiores importadores do produto russo.

Em paralelo à cúpula, Modi se reuniu com Putin e elogiou os crescentes laços energéticos entre os dois países, em desafio à pressão de Trump. Ele afirmou ao líder russo que, mesmo nas circunstâncias mais difíceis, os dois governos caminharam lado a lado.

“Nossa estreita colaboração é importante não apenas para nossos dois países, mas para a paz, a estabilidade e a prosperidade global”, afirmou o premiê indiano.

Já Putin destacou que os dois países mantêm uma “relação especial” há décadas. Sobre o discurso de Xi, o líder russo afirmou que o “novo sistema de segurança seria capaz de considerar genuinamente os interesses de uma ampla gama de países, ao contrário do modelo euro-atlântico”.

Desde o início da guerra da Ucrânia, Nova Délhi intensificou as compras de petróleo russo. Atualmente, estima-se que 37% das importações totais do país venham da Rússia. “Está claro que, para a Índia, o petróleo russo veio para ficar”, disse ao “Financial Times” Amit Bhandari, pesquisador da Gateway House, um centro de estudos com sede em Mumbai. “A Rússia é onde o petróleo está”.

Trump não se pronunciou sobre os discursos de Xi e Putin, mas fez críticas à Índia na rede Truth Social. O presidente dos EUA disse que o governo de Modi chegou a propor a zerar as tarifas sobre os produtos americanos, mas que era “tarde demais”. “Eles compram a maior parte de seu petróleo e de seus produtos da Rússia, muito pouco dos EUA”, afirmou.

https://valor.globo.com/mundo/noticia/2025/09/02/china-promove-nova-ordem-global-ao-lado-de-russia-e-india.ghtml

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