Fahrenheit 451

Um mundo Incendiário

Fernando Matijewitsch

“Um livro é uma arma carregada na casa vizinha”. Em tempos de agitação e desilusão política, sempre é bom voltarmos nossa atenção aos clássicos, aos autores visionários que detinham um conhecimento tão profundo da sociedade que conseguiram projetar o seu funcionamento em um futuro onde nem mais permaneciam vivos. A frase acima é justamente a definição que Ray Bradbury, em Fahrenheit 451, estabelece para as obras que tanto acompanharam a história da humanidade.

Publicado originalmente em 1953, o romance nos apresenta um mundo futurístico: carros com velocidades que mais se assemelham a foguetes, robôs trabalhando para órgãos públicos, casas inteligentes, além de cômodos completamente revestidos por televisores com o intuito de inserir o espectador em uma realidade que não a dele. Todo esse sistema, porém, possui uma grande particularidade: os livros são expressamente proibidos. Para exterminá-los, basta chamar os bombeiros – profissionais que, com o advento de casas à prova de fogo, ganharam uma nova função: a de manter a ordem. Afinal, o conhecimento é visto como uma praga. É ele que nos faz refletir sobre tudo o que está à nossa volta. É ele que nos deixa depressivos ao nos colocar frente à imensidão do universo e do nosso próprio ser. E não há espaço para isso numa sociedade que quer ser puramente feliz. Portanto, o povo clama para que todos os livros sejam queimados! Para que queimemos todas as obras de arte! Para que queimemos toda e qualquer menção filosófica a algum assunto! “O fogo é luminoso, o fogo é limpo”, nos diz o capitão dos bombeiros em Fahrenheit 451.

Qualquer semelhança com a presente realidade não é mera coincidência. Numa das cenas mais marcantes do romance, Guy Montag, um bombeiro que atravessa imensa crise ideológica, pergunta para seu capitão como a sociedade chegou àquele ponto. As respostas não poderiam ser mais atuais e nos fazem refletir drasticamente sobre o possível resultado de tudo o que está ocorrendo em nosso país.

Vivemos num mundo acelerado. A tecnologia e as relações de trabalho neoliberais exigem que não paremos um segundo sequer, que não nos distraiamos com qualquer besteira, que produzamos o nosso máximo 24 horas por dia, 7 dias por semana. Não há espaço para tarefas demoradas. A impressão é a de que elas vão corroer nosso tempo de uma maneira danosa, sem conserto algum. Assim, tudo acaba sendo traduzido e consumido por meio da lógica frenética de nosso dia a dia. Matérias viram manchetes. Notícias viram memes. Jornais viram grupos de WhatsApp.

“Imagine o quadro. O homem do século dezenove com seus cavalos, cachorros, carroças, câmera lenta. Depois, no século vinte, acelere a sua câmera. Livros abreviados. Condensações. Resumos. Tabloides. Tudo subordinado às gags, ao final emocionante. Clássicos reduzidos para se adaptarem a programas de rádio de quinze minutos, depois reduzidos novamente para uma coluna de livro de dois minutos de leitura, e, por fim, encerrando-se num dicionário, num verbete de dez a doze linhas. Estou exagerando, é claro. Mas, para muitos, o Hamlet [...] não passava de um resumo de uma página num livro que proclamava: Agora você finalmente pode ler todos os clássicos; faça como seus vizinhos. [...] Resumos de resumos, resumos de resumos de resumos. Política? Uma coluna, duas frases, uma manchete! Depois, no ar, tudo se dissolve! A mente humana entra em turbilhão [...], tão depressa que a centrífuga joga fora todo pensamento desnecessário, desperdiçador de tempo!” (Capitão Beatty)

É claro que esse pensamento utilitarista não teria vez numa sociedade que prezasse pelo pensamento crítico, que valorizasse a reflexão e não negligenciasse certas etapas de nossa formação. O futuro, contudo, não parece tão promissor quando analisamos nossa educação. A ciência perde incentivos. Pais começam a mandar no conteúdo programático de escolas. Faculdades se esquecem do campo teórico e se preocupam apenas com a prática: Por que aprender a pensar, se esse sistema já pensa por mim?

“A escolaridade é abreviada, a disciplina relaxada, as filosofias, as histórias e as línguas são abolidas, gramática e ortografia pouco a pouco negligenciadas, e, por fim, quase totalmente ignoradas. A vida é imediata, o emprego é que conta, o prazer está por toda parte depois do trabalho. Por que aprender alguma coisa além de apertar botões, acionar interruptores, ajustar parafusos e porcas?” (Capitão Beatty).

O problema é que os livros – ou qualquer outra fonte de conhecimento – nos fornecem os alicerces nos quais sustentaremos nossa identidade, as noções básicas de nossa própria moral. Sem eles, fica impossível a tarefa de identificar o que está errado no mundo e qual é o nosso papel nele. Sem eles, perdemos o significado histórico dos fatos e passamos a criar os nossos próprios conceitos. O extremismo favorece o desmembramento de uma população em personagens únicos, sem profundidade, que lutam apenas para garantir a própria existência. Sem diálogo, sem senso crítico, todos se fazem iguais nas bolhas gigantescas nutridas por suas redes sociais.

“Com a escola formando mais corredores, saltadores, fundistas, remendadores, agarradores, detetives, aviadores e nadadores em lugar de examinadores, críticos, conhecedores e criadores imaginativos, a palavra ‘intelectual’, é claro, tornou-se o palavrão que merecia ser. Sempre se teme o que não é familiar. Por certo você se lembra do menino de sua sala na escola que era excepcionalmente ‘brilhante’, era quem sempre recitava e dava as respostas enquanto os outros ficavam sentados com cara de cretinos, odiando-o. E não era esse sabichão que vocês pegavam para cristo depois da aula? Claro que era. Todos devemos ser iguais. Nem todos nasceram livres e iguais, como diz a Constituição, mas todos se fizeram iguais. Cada homem é a imagem de seu semelhante e, com isso, todos ficam contentes, pois não há nenhuma montanha que os diminua, contra a qual se avaliar. [...] Façamos uma brecha no espírito do homem. Quem sabe quem poderia ser alvo do homem lido? Eu? Eu não tenho estômago para eles nem por um minuto” (Capitão Beatty).

Presos nos muros de suas certezas infundadas, algumas pessoas se perdem em seus próprios desejos. Dizem que querem um país melhor, a felicidade para todos. Mas, na verdade, tudo o que estão fazendo é reforçar os valores de sua classe, instituindo-os como obrigação para todos aqueles que não concordam com seu candidato. O outro é apagado no discurso, nas práticas, nas ações, no voto.

“Será porque estamos nos divertindo tanto em casa que nos esquecemos do mundo? Será porque somos tão ricos e o resto do mundo tão pobre e simplesmente não damos a mínima para sua pobreza? Tenho ouvido rumores; o mundo está passando fome, mas nós estamos bem alimentados. Será verdade que o mundo trabalha duro enquanto nós brincamos? Será por isso que somos tão odiados?” (Guy Montag).

A empatia, porém, há muito abandonou a mente dessas pessoas. Munidas com “fatos”, vão defender o abominável e atacar tudo aquilo que seja diferente. Estamos vivendo o maior surto de fake news do país. Manchetes #ÉFAKE dominam os jornais brasileiros, que, por sua vez, se veem perdidos numa época que deu a eles um único papel: o de confirmadores da verdade. Podemos até nos perguntar, indignados, como que alguém pode espalhar uma informação sem antes confirmar pelo menos a sua fonte. Mas, estamos vivendo num tempo de estruturas de pensamento solidificadas e inflexíveis. Tais “notícias” apenas reforçam aos seus disseminadores que estão certos, que suas crenças são as superiores. E isso é tudo o que eles precisam.

“Se não quiser um homem politicamente infeliz, não lhe dê os dois lados de uma questão para resolver; dê-lhe apenas um. Melhor ainda, não lhe dê nenhum. Deixe que ele se esqueça de que há uma coisa como a guerra. [...] Encha as pessoas com dados incombustíveis, entupa-as tanto com ‘fatos’ que elas se sintam empanzinadas, mas absolutamente ‘brilhantes’ quanto a informações. Assim, elas imaginarão que estão pensando, terão uma sensação de movimento sem sair do lugar. E ficarão felizes, porque fatos dessa ordem não mudam. Não as coloque em terreno movediço, como filosofia ou sociologia, com que comparar suas experiências. Aí reside a melancolia” (Capitão Beatty).

Frente a tudo isso, vemos como o futuro pode ser trágico. Não porque a maioria do Brasil não está pensando, mas porque não querem pensar. O conhecimento e a reflexão estão sendo substituídos por respostas instintivas e raivosas dominadas pelo ódio. Antes de defendermos o armamento da população, deveríamos nos municiar de textos, sejam eles falados ou escritos, impressos ou transmitidos. Afinal, parágrafos, frases e orações sempre serão melhores que pistolas, espingardas e munição.

 

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