Vida plastificada

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Aníbal Azevedo, o Diretor do Intergraus Vestibulares

Em 1909, o químico belgo-americano Leo Hendrik Baekeland colocou no mercado o primeiro de uma longa série de materiais sintéticos; tratava-se da baquelite que, apesar de centenária, ainda continua a ser usada. A baquelite é um polímero produzido a partir da combinação de fenol e formol. Trata-se de um plástico termofixo (depois de moldado e solidificado, sua forma não mais se altera pelo calor) e que encontrou inúmeras aplicações. Os telefones antigos (de cor preta) e os interruptores elétricos eram feitos de baquelite. Ainda hoje, os cabos e os botões das tampas das panelas são feitos desse material; isso porque a baquelite não se deforma perto da chama e conduz mal o calor, o que evita que algum desavisado queime os dedos (o que ocorre nas vasilhas feitas todas de metal). Mas a baquelite tem lá seus defeitos: é um material escuro, de aspecto desinteressante e que não pode ser reciclado.

A Era dos Plásticos começou assim e passou por um desenvolvimento extraordinário. Há plásticos duros, rígidos, flexíveis, resistentes aos ácidos, transparentes, coloridos, enfim, milhares de variantes, para qualquer necessidade ou modismo. Hoje convivemos com centenas de materiais poliméricos moldáveis; os copos plásticos são de poliestireno, as sacolas plásticas são de polietileno ou de polipropileno, as garrafas de refrigerantes são de PET (polietilenotereftalato), dormimos em colchões de espuma sintética de poliuretano e nossas roupas são feitas de poliéster ou de náilon (uma poliamida). Nossos veículos carregam muito plástico: no painel, nos assentos, nos mostradores, nos carpetes…

A produção desses materiais é tão grande que surgiu um problema: como descartar o plástico já usado? Grande parte vai para o lixo comum, que, depois, é enterrado ou queimado; outra parte é jogada nas ruas e acaba arrastada pelas águas, indo terminar em algum rio ou no mar. Esse descarte no ambiente entope bueiros e córregos, assim contribuindo para as enchentes, e mata animais que o ingerem ou se sufocam com ele.

O popular PVC (policloreto de vinila) é utilizado na fabricação de canos para água e esgoto; o filme desse polímero é muito usado para acondicionar carnes e outros produtos para serem guardados em geladeira. Quando o PVC é queimado, produz certa quantidade de dioxinas, que são agentes de altíssima periculosidade implicados no surgimento de cânceres, de disfunções sexuais e até de malformações nos fetos.

A produção dos materiais plásticos exige também o uso de outras substâncias que melhoram o seu aspecto e o seu desempenho. Alguns desses insumos imitam hormônios sexuais e podem causar puberdade precoce nas meninas e outras alterações ligadas ao sexo. Nesse caso, estão os ftalatos e um grande vilão conhecido pela sigla BPA (bisfenol A). Essas substâncias começaram a ser avaliadas a partir de 2006 pelas agências de saúde americanas. A conclusão é que o BPA pode induzir um aumento do câncer de próstata e de mama, diabetes, anormalidades urogenitais e esterilidade. Foram encontrados índices alarmantes de BPA até mesmo no cordão umbilical de fetos e no leite materno. Em 2011, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) proibiu a fabricação e a venda de mamadeiras produzidas com o uso de BPA. A União Europeia e os Estados Unidos proibiram o emprego de ftalatos na fabricação de brinquedos para crianças menores de três anos (porque elas têm o costume de levar objetos à boca).

A civilização, como a conhecemos, dificilmente poderia se manter sem o uso de materiais plásticos; no entanto, apesar de toda a sua utilidade, é chegada a hora de se rever a legislação para evitar maiores danos à saúde humana e ao meio ambiente.

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