Quando muito bom é muito ruim

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Clarisse Setyon

Desde a semana passada está “rolando” uma polêmica interessante no nosso discutidíssímo futebol brasileiro.

Um tal de patrocínio, algo sempre tão difícil de conseguir, foi, literalmente, “demais”. Refiro-me ao patrocínio dos juízes no jogo da Semifinal do Campeonato Paulista.

De uma maneira bastante educada, Julio Casares, vice-presidente do São Paulo, diz “o patrocínio da Crefisa na arbitragem é um conflito que poderia ter sido evitado” (FSP 13/4/2014).

Imagino, por um lado, a dificuldade da Federação Paulista de Futebol, em obter patrocínios para o uniforme dos juízes. Diga-se de passagem, no futebol, o juiz não é exatamente aquela pessoa mais querida em campo. Por outro lado, quem conquistou o patrocínio da Crefisa, deve ter celebrado ! Muito bem, devem (ou pelo menos deveriam) ter dito os capos da FPF.

Mas o que era para ter sido muito bom vem se mostrando muito ruim.

Antes de qualquer discussão, a mídia nos informa que, neste caso, de acordo com estatuto da FIFA, o patrocínio é ilegal. Dois aspectos mostram esta ilegalidade: 1) patrocínio no uniforme dos juízes pode aparecer somente nas mangas das camisas. Cá entre nós, não há muita dificuldade em se entender este artigo do regulamento. Entretanto, o patrocínio obtido da Crefisa, dá à instituição financeira, o direito de colocar sua marca na frente do uniforme.

O segundo aspecto de ilegalidade é o conflito de interesses. A Crefisa também patrocina o Palmeiras, que disputa a semifinal do campeonato paulista esta semana.

As provocações que quero fazer aqui são várias.

Quando questionada pela mídia, a FPF disse que confia em seus árbitros e que não vê nada de errado no que fez. Pergunte a um acusado da Operação Lava Jato se ele é culpado e pense na resposta que ele lhe dará. Óbvio, meu caro Watson.

A Crefisa, quando questionada sobre o patrocínio, informa que não se pronunciará. Claro. Não se pronunciará, pois não tem uma estratégia de marketing esportivo definida para defender seu investimento. Não tem argumentos claros, objetivos coerentes. Caso tivesse, viria a público e diria exatamente qual a ideia, não só deste patrocínio, mas também do patrocínio do Palmeiras.

De acordo com o Meio & Mensagem de 22/01/2015, José Roberto Lamacchia diz que “o projeto é muito bom”. Exemplar objetivo, perfeita estratégia de marketing esportivo, não é mesmo? No mesmo veículo, Leila Pereira, Presidente da Crefisa, reforça: “se o projeto não fosse bom, ele (Lamacchia) jamais assinaria este patrocínio”. Perfeito.

Gostaria de ser uma mosca no dia em que acontecer a reunião de avaliação destes patrocínios, na Crefisa. A conversa deverá ser algo do tipo: E então, foi bom o patrocínio? Ah sim, foi bom! (BOM é uma excelente métrica).

Certamente, a discussão passará pela tal da “visibilidade”. Sim, dirão, tivemos muita visibilidade. Inclusive, vocês lembram daquela polêmica no jornal quando resolvemos patrocinar os juízes na semifinal? Então, foi ótimo (ÓTIMO é outra métrica indispensável!).

Leitores, visibilidade não é marketing esportivo. Polêmica, não é marketing esportivo.

Mas vamos todos aguardar e esperar o que vem por aí. Quem sabe a Crefisa fará de fato um projeto sério e eu me arrependerei de tudo que escrevi acima.

Três últimos pontos antes de encerrar este texto: está dito, para quem quiser ler, que a Crefisa está patrocinando a FPF, literalmente para pagar todas as despesas com os juízes do jogo da semifinal. Pense. Você faria algo para prejudicar o seu chefe, sabendo que ele pode continuar pagando o seu salário?

A FPF afirma, no site da ESPN que “A Fifa manda e organiza os campeonatos dela. A Federação Paulista tem seu próprio regulamento, seu próprio jeito de agir e suas próprias regras. A Fifa faz o que quiser com os campeonatos dela, com os da Federação Paulista é a gente que resolve”. A oficialização do “aqui quem manda sou eu”! Oficialização da Festa do Caqui!

E, por último, como Santista, acho que, de fato, o Palmeiras é o mais inocente nesta história toda.

Que venham os próximos fatos para nos ensinar ainda mais sobre a antítese do Marketing Esportivo. Ou, melhor ainda, que venha um plano coerente da Crefisa para nos surpreender.

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