Estruturação e qualidade das decisões

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Fabiano Rodrigues
Roberto Camanho

Em maior ou menor intensidade, o ato de decidir é um mix entre racionalidade, intuição e política. Podemos mapear e tratar as decisões em termos de complexidade analítica e complexidade organizacional, conforme Figura 1.

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Figura 1: Dimensões do processo decisório
Fonte: Adaptado de Parnell, Bresnick, Tani e Johnson (2016)

Uma decisão é complexa, do ponto de vista analítico, se possui muitas variáveis envolvidas na modelagem do problema decisório, acentuada dinâmica temporal, ou seja, o resultado de uma decisão influencia decisões posteriores, quando incertezas ocorrem em distintos momentos da decisão, muita incerteza na estimativa das informações, nos cenários e consequências previstas, bem como múltiplos critérios para o julgamento das alternativas, sejam eles conflitantes ou inter-relacionados.
Já do ponto de vista organizacional, a decisão é complexa se possui muitos atores envolvidos, muito conflito entre os stakeholders durante o processo decisório, múltiplos interesses e motivações envolvendo a decisão e suas potenciais consequências, muita assimetria quanto ao poder exercido pelos diferentes integrantes da equipe de decisão, frames iniciais muito divergentes para se lidar com a decisão, personalidades e competências heterogêneas da equipe responsável pela decisão, culminando em um processo complexo para a obtenção de consenso.
Desta forma, decisões de baixa complexidade são triviais, podem ser automatizadas, não requerem grandes reflexões, algumas podem até ser classificadas como no brain, onde o bom senso e procedimentos padrões podem contribuir para a tomada de decisão. No outro extremo, as decisões de alta complexidade analítica e organizacional se configuram como decisões estratégicas, escolhas de alto impacto, que definem a posição competitiva de uma empresa. Este tipo de decisão demanda um processo estruturado para sua condução, envolvendo tanto o alinhamento organizacional como capacidade técnica para a estruturação e modelagem do processo decisório.
Pensando na qualidade de uma decisão, podemos imaginar uma boa decisão como uma cadeira com três pernas, conforme Figura 2.
Uma perna representa as alternativas (ou seja, o que você pode fazer), outra perna são as informações (ou seja, o que você sabe sobre o problema) e a terceira representa os objetivos e preferências (ou seja, o que você espera, o que você quer da decisão).

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Figura 2: Requisitos para uma decisão com qualidade
Fonte: Adaptado de Howard e Abbas (2016, p. 16)
As pernas estão unidas ao assento da cadeira. O assento é o raciocínio usado para agrupar informações, alternativas e preferências, ou seja, manipular o que sei, o que posso fazer e o que quero da decisão. Indo mais além, a cadeira está no chão, o chão representa o frame da decisão, a forma como você delimita o problema, o seu escopo.
A qualidade da decisão depende da qualidade de cada ingrediente e da combinação entre estes (SPETZLER; WINTER; MEYER, 2016):

  • Framing adequado;
  • Geração de alternativas criativas e viáveis;
  • Levantamento de informações relevantes e confiáveis;
  • Estabelecimento de critérios e trade-offs;
  • Raciocínio lógico, ou seja, modelagem do problema decisório para extração de insights.

Caso apenas um requisito tiver baixa qualidade, por exemplo “informações relevantes e confiáveis para o tratamento da situação decisória”, todos os demais serão afetados e, consequentemente, a qualidade geral da decisão.
Um processo estruturado para tomada de decisão não é, necessariamente, linear, mas sim um processo integrado com várias possibilidades de retroalimentação e refinamento até o momento final da decisão. A geração de valor potencial da decisão depende da qualidade e da interligação entre os ingredientes!

Referências:
HOWARD, R. A.; ABBAS, A. E. Foundations of Decision Analysis. Pearson Higher Ed, 2016.
SPETZLER, Carl; WINTER, Hannah; MEYER, Jennifer. Decision Quality: value creation from better decisions. New Jersey: Wiley, 2016.

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