Escrita sem disfarces

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Cézar Veronese, Professor do CPV Vestibulares

Um artista nunca morre, pois sua obra continua sempre circulando entre as gerações que o sucedem. De qualquer modo, as datas redondas geram as efemérides e estas servem para lembrar de alguns artistas que, às vezes, inexplicavelmente, caem no esquecimento.
Na literatura, 2014 foi o centenário de nascimento, entre tantos outros, de dois gigantes das letras argentinas: Adolfo Bioy Casares (que escreveu vários livros em parceria com Jorge Luis Borges) e Júlio Cortázar, um dos homens que projetou a literatura latino-americana no cenário mundial com O JOGO DA AMARELINHA.
Não desprezando los hermanos, quero falar de outra efeméride: o centenário da escritora Marguerite Duras. Ela escreveu cerca de 100 livros, dirigiu 19 filmes (sua cinematografia é uma das mais originais já aparecidas) e escreveu o roteiro do clássico HIROSHIMA MON AMOUR, de Alain Resnais. Apenas uns 30 livros dela foram traduzidos para o português (quase todos na década de 80) e, tirante dois ou três títulos (como O AMANTE e BARRAGEM CONTRA O PACÍFICO), as edições dos outros estão há décadas esgotadas. Daí o silêncio das FLIPS e BIENAIS, da Cultura, da Fnac e da Livraria da Vila que sequer tiveram a pachorra de destacar ao longo do ano um livro dela numa prateleira.
Os temas de Duras partem de sua biografia e são reelaborados com a imaginação criadora. Nascida no atual Vietnã, para onde a mãe, uma professora francesa, se aventurara pensando em fazer fortuna, ela foi para a França aos 15 anos, onde estudou matemática e direito. Mas dedicou sua vida à literatura. Entre tantos livros e filmes, um dos destaques é o relato A DOR, que, segundo o escritor e jornalista Fernando Bonassi, é “o maior texto já escrito”. A própria autora se explica afirmando que não sabe como conseguiu escrevê-lo e que o conteúdo do livro, comparado à literatura, faz com que esta a envergonhe.
A DOR é o relato da espera de dois anos da escritora pelo retorno do marido, o jornalista Robert Antelme, prisioneiro dos nazistas no campo de concentração de Dachau. Ele acaba sendo resgatado, chega a Paris pesando 37 quilos, “tudo junto, pele, olhos, fígado, pulmão, unhas (que se desprendiam), num corpo de 1,78m”. Então ela assiste a uma agonia que se prolonga por várias semanas: “se ele comesse, o estômago se romperia; se não comesse, morreria. Esse era o problema”. Antelme sobrevive e em 1947 publica A ESPÉCIE HUMANA, livro no qual não acusa os nazistas nem os alemães, acusa a espécie humana. Até morrer, em 1990, ele nunca mais pronunciou qualquer palavra sobre a guerra.
A ESPÉCIE HUMANA foi traduzido para o português só em 2013 e está disponível nas livrarias. A DOR está esgotado mas pode ser encontrado com facilidade no site da estante virtual.
Para ler outros textos do Prof. Veronese, acesse blog do CPV (link dicas culturais do verô)

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