Aos olhos de muitos em Hollywood, a batalha pelo controle da Warner Bros Discovery (WBD) se resume a duas opções pouco atraentes: o vencedor será a empresa que abalou os alicerces da indústria cinematográfica, ou aquela que, na visão deles, está abertamente se curvando ao presidente Donald Trump.
A Netflix, que ofereceu US$ 83 bilhões pelos ativos de”streaming” e de estúdios da WBD na semana passada, há anos irrita o setor por se recusar a lançar filmes de forma ampla nos cinemas. Ted Sarandos, o executivo-chefe adjunto da Netflix, chamou as estreias cinematográficas de uma “ideia ultrapassada”, no início deste ano.
E a Paramount, cujo executivo-chefe David Ellison lançou uma proposta hostil de US$ 108 bilhões pela Warner Bros esta semana, é visto por alguns liberais de Hollywood como excessivamente disposto a ceder a Trump.
“Há muita frustração no ar agora em relação a esses dois compradores”, disse Tom Nunan, produtor de cinema vencedor do Oscar e professor da Escola de Teatro, Cinema e Televisão da University of Califórnia, em Los Angeles (Ucla).
A venda do centenário estúdio Warner, aumentou a apreensão com a possibilidade da eliminação de milhares de empregos e a perda de um grande comprador de projetos de TV e cinema – algo que deve afetar praticamente todos os segmentos da indústria, de agências de talentos a produtores, atores e diretores.
Esta semana, a Paramount disse que tentará economizar US$ 6 bilhões em três anos caso consiga comprar a Warner. A Netflix estima cortes de custos de US$ 2 bilhões a US 3 bilhões, sobretudo em áreas tecnológicas sobrepostas e funções de apoio.
A venda também intensificou a ansiedade sobre o futuro de Hollywood após alguns anos difíceis marcados por greves, milhares de demissões, queda de público nos cinemas e a ascensão da inteligência artificial.
“O que vocês estão vendo é um choque. Hollywood está em choque”, disse outro produtor premiado sobre a venda da Warner Bros. Hollywood está surtando.”
“Estamos empenhados em lançar os filmes da Warner da mesma forma que são hoje” — Ted Sarandos
O acordo costurado por Ellison conta com o apoio financeiro de seu pai, Larry Ellison, um apoiador de Trump. A oferta mais recente da Paramount pela Warner Bros também incluiu Jared Kushner, genro de Trump, como um de seus apoiadores financeiros, juntamente com investidores do Golfo Pérsico.
“No momento em que você vê que Jared Kushner está envolvido, sabe que [o negócio da Warner] é fato consumado” ‘, disse um veterano executivo da área de entretenimento – uma opinião repetida inúmeras vezes em Hollywood esta semana. “Isso já diz tudo que você precisa saber.”
A proposta da Netflix despertou um sentimento de apreensão entre alguns cineastas de Hollywood, incluindo o diretor de “Avatar”, “James Cameron, diante da possibilidade de o serviço de “streaming” assumir o controle da Warner. No podcast “The Town”, Cameron chamou a promessa de Sarandos de continuar lançando filmes da Warner Bros nos cinemas de “isca para otário”.
Sarandos tentou minimizar essas preocupações. “Estamos profundamente empenhados em lançar os filmes da Warner Bros exatamente da mesma forma que eles os lançaram até hoje”, disse ele esta semana.
“O setor de exibição cinematográfica é algo sobre o qual não falamos muito no passado… porque nunca atuamos nesse ramo”, disse Sarandos. “Quando esse acordo for concluído, estaremos nesse negócio.”
Alguns profissionais da indústria continuam céticos, dizendo que a Netflix costuma lançar filmes apenas por janelas curtas e sem apoio de marketing, principalmente para qualificá-los para a temporada de prêmios. A Cinema United, uma entidade do setor, classifica a oferta da companhia de “uma ameaça sem precedentes ao negócio global de exibição”.
“As pessoas do cinema se sentem traídas”, “, disse um produtor ao “Financial Times”. “Elas falam como se tivessem sido derrotadas, como se não tivessem conseguido vencer a Netflix. Continuam se referindo à Netflix como novos-ricos, como se fossem dinheiro novo, cafona, que não respeita nossas tradições.”
A Netflix também mudou radicalmente a forma de pagamento do talento em Hollywood, substituindo a participação nos lucros – que enriqueceu gerações de agentes e artistas -, por pagamentos iniciais robustos. Muitos acreditam que esses modelos tradicionais continuarão minguando, especialmente com menos concorrência entre os estúdios.
“A busca dos Ellison por aprovação de Trump deixou muita gente insegura” – Tom Nunan
Quando se trata da Paramount e dos Ellison, os executivos de Hollywood firmam que suas maiores preocupações são os cortes de custos e a olítica. Ao contrário da Netflix, a Paramount quer comprar também os ativos de TV a cabo da Warner, que incluem a CNN, há muito um alvo de Trump.
Desde que assumiram o controle da Paramount em agosto, os Ellison aparentam atender às preocupações e preferências de Trump. Eles colocaram a jornalista “anti-woke” [oposição às ideias progressistas] Bari Weiss no comando da CBS News e aprovaram a retomada da franquia “Rush Hour” ,favorita do presidente, segundo reportagem do site de notícias Semafor.
Nunan disse: “A combinação dos Ellison buscando tão agressivamente a aprovação de Trump, aceitando que ele terá influência, e ainda reunindo investidores sauditas junto com o próprio genro dele para financiar tudo isso, deixou muita gente insegura sobre o processo editorial, em especial no que diz respeito à CNN”.
Na cerimônia de entrega dos prêmios do Kennedy Center no doming (7), Trump disse que estaria “envolvido” na decisão sobre a venda da Warner Bros, acrescentando que recebeu Sarandos na Casa Branca na semana anterior. O presidente também sugeriu que a participação de mercado da Netflix talvez seja grande demais para que a autoridade reguladora aprove sua compra da Warner. “Pode ser um problema”, afirmou.
Apesar das críticas, pessoas que trabalharam com Ellison e Sarandos os descrevem como amantes do cinema que querem, de fato, ajudar Hollywood a voltar a crescer. Ainda assim, quem admira Ellison teme que ele precise digerir a compra da Paramount antes de tentar assumir um segundo ícone de Hollywood. E dão crédito a Sarandos pelo papel que ele teve na construção de uma empresa que hoje tem valor de mercado acima de US$ 400 bilhões.
“O cálculo aqui é decidir qual equipe de gestão será melhor, e acho que isso é praticamente indiscutível quando se olha o histórico”, disse um executivo experiente de Hollywood. “Não é uma crítica ao David – ele é muito competente. Mas ninguém pode dizer que foi ele quem criou a Netflix.”
Outro executivo de estúdio graduado, um declarado apaixonado pela experiência no cinema, disse que a aflição em torno da ideia de a Netflix ser dona de um grande estúdio já começa a soar ultrapassada.
“Com a Netflix e as objeções das pessoas a ela, elas estão de luto por algo que já aconteceu”, disse ele. “A experiência nas salas de cinema é superior em mil aspectos ao que é lançado on-line. Mas, se o público deixou de ir, deixou de ir.”
