Quem nasceu a partir de 2010 pertence à assim chamada Geração Alpha, sucessora da Geração Z, recém-chegada aos postos de jovens aprendizes nas empresas e protagonista de episódios curiosos como a Revolta do Roblox.
Mais do que quaisquer das gerações anteriores, ela é quem define o que as famílias consomem ou não em certos itens, muito antes de alcançar a maioridade. É o que mostra o estudo “A influência Alpha: como a mais jovem e conectada geração está direcionando o consumo dos pais”, da L.E.K Consulting. A pesquisa, realizada com consumidores dos Estados Unidos, revela tendências que já se refletem de maneira clara nos lares brasileiros.
O comportamento de consumo mudou porque a própria dinâmica familiar se transformou. O tradicional modelo “manda quem pode, obedece quem tem juízo” cedeu espaço para a colaboração. Segundo Maurício França, sócio da L.E.K. Consulting, as gerações anteriores viviam uma relação muito mais hierárquica. “Você dizia para eles fazerem, eles obedeciam. E eu acho que agora tá uma relação mais de mão dupla”, ‘, afirma o consultor. Hoje, os pais dão mais voz aos filhos e os escutam mais, o que acaba repercutindo nas decisões de compra da casa.
Saúde em primeiro lugar
O relatório aponta que 77% dos pais da geração Millennials (nascidos entre 1981 e 1996) acreditam investir mais no desenvolvimento dos filhos do que seus próprios pais investiram neles. O mais interessante é notar para onde vão os esforços, e o dinheiro, dessa nova criação. Para esses pais, o sucesso acadêmico (prioridade para 63%) perdeu o topo do pódio. A saúde mental e emocional (74%) e a saúde física (71%) assumiram a dianteira das preocupações. França nota que essa é uma ruptura importante: “Você volta uns 15 anos, era só depois de todo o resto”.
Onde a Geração Alpha dita as regras
Não é novidade que as crianças escolhem seus próprios brinquedos68% delas têm influência direta nessa categoria. No entanto, o raio de alcance da Geração Alpha se expandiu. Eles já influenciam ativamente o que vestem e calçam (61%), as atividades extracurriculares que praticam (63%) e até o que a família come e bebe (53%).
Produtos de beleza e cuidados pessoais também entraram no radar de consumo dos mais novos.
E engana-se quem pensa que esse poder de escolha é exclusividade das famílias com maior poder aquisitivo. Embora a renda dite a diversidade de opções que os pais podem oferecer, o consultor ressalta que “mesmo nas classes mais baixas ainda tem um percentual alto” de influência das crianças dentro daquilo que o orçamento permite.
A vitrine digital
Se antes as crianças pediam o que viam nos comerciais de TV aberta durante os desenhos matinais, hoje a vitrine está no bolso ou no tablet. Onde essa geração descobre o que quer consumir
Para os menores (até 11 anos), o YouTube domina absolutamente a descoberta de novas marcas e produtos.
Para os pré-adolescentes e adolescentes, as redes sociais e os influenciadores assumem o protagonismo da decisão de compra. Inclusive, 30% dos jovens entre 15 e 17 anos já fazem compras sozinhos por meio de aplicativos de redes sociais.
“A mídia está se tornando cada vez mais relevante”, , pontua França. Ele lembra que o Brasil tem um tempo médio de uso de redes sociais altíssimo, com crianças usando muito YouTube e TikTok. Nesses canais, os influenciadores muitas vezes representam “o contato mais forte que eles têm com uma marca, com uma experiência, e eles acabam influenciando muito”.
O foco em sustentabilidade
Há, contudo, uma diferença notável de maturidade entre os mercados na hora de passar o cartão. O estudo americano destaca que a Geração Alpha é atenta aos valores éticos das marcas — como, por exemplo, preferir produtos livres de testes em animais ou ter preocupações com a sustentabilidade.
No Brasil, essa exigência por ESG (boas práticas ambientais, sociais e de governança) no momento da compra ainda engatinha. Segundo a leitura do sócio da L.E.K., os Estados Unidos estão alguns passos à frente nesse quesito. Por aqui, a demanda por sustentabilidade ainda soa tímida, concentrando-se mais no eixo Rio-São Paulo e nas classes de maior renda.
