A Builder.ai era uma empresa de inteligência artificial (IA) muito badalada, com um CEO experiente em mídia, investidores de prestígio em três continentes, uma parceria com a Microsoft e um negócio supostamente vibrante de criação de aplicativos para pequenas empresas.
Há dois anos, a revista Fast Company classificou a Builder como a terceira empresa mais inovadora em IA, logo atrás da OpenAI e da DeepMind, do Google.
Recentemente, tudo desmoronou. A diretoria da Builder descobriu que as vendas haviam sido significativamente superestimadas. O CEO renunciou. Em poucos meses, a Builder, com sede em Londres e operações na Índia e na Califórnia, passou de uma empresa unicórnio avaliada em US$ 1,5 bilhão à falência. Agora, ela está sendo liquidada em um tribunal de Delaware.
“A Builder deve ser um sinal de alerta para investidores, funcionários e executivos”, disse Manpreet Ratia, que foi contratado como CEO em março para tentar salvar a empresa. “Tenha cuidado com o que você afirma ser. Em algum momento, isso vai te prejudicar.”
Graças ao sonho da inteligência artificial, o Vale do Silício está passando pelo seu maior boom de todos os tempos. As empresas estão promovendo a tecnologia como a salvadora da humanidade. Ela será seu chefe, seu funcionário, seu professor, seu melhor amigo, seu terapeuta. A comunidade tecnológica está entusiasmada com uma urgência que beira o pânico. Se o mundo está mudando completamente neste momento, não há tempo a perder.
O colapso da Builder passou praticamente despercebido em meio ao frenesi. É a maior empresa de IA a entrar em colapso, embora seja discutível se ela deveria ser chamada de empresa de IA. Inteligência artificial é um termo ambíguo. Atribuir o rótulo de IA a uma startup pode envolver um grau considerável de esperança e presunção e, às vezes, até mesmo engano.
No início deste ano, a Comissão de Valores Mobiliários acusou um casal de São Francisco de fraude, alegando que eles haviam enganado investidores em sua empresa de chat com IA. Em Nova York, os promotores acusaram um empresário de fraudar investidores em seu aplicativo de compras, cuja IA acabou sendo fornecida por prestadores de serviços nas Filipinas.
“A IA falsa é comum no Vale do Silício há muito tempo, mas com a bolha ela realmente decolou”, disse David Gerard, que administra o popular site de checagem Pivot to A.I. “Se você quer financiamento, basta dizer um monte de palavras relacionadas à IA — ‘aprendizado de máquina’, ‘grandes modelos de linguagem’ e ‘esse é o futuro’. Você não precisa realmente ter IA.”
A Builder, fundada em 2016 como Engineer.ai, fornecia uma plataforma onde as empresas podiam obter aplicativos e outras ferramentas de software criadas para elas. Nos primeiros anos, ela não fez uma venda agressiva de inteligência artificial. Sachin Dev Duggal, o CEO, usou 150 palavras para promover a empresa em 2018, quando ela recebeu seu primeiro grande investimento de risco. “IA.” não estava entre elas.
Naquele ano, havia menos de 15 mil endereços da web terminando com “.ai”. Originalmente desenvolvido para a ilha caribenha de Anguilla, o domínio de nível superior .ai tornou-se popular entre as startups que querem sugerir que entendem de inteligência artificial.
Cerca de 1.500 endereços .ai foram criados todos os dias nos últimos meses, de acordo com o Domain Name Stat. No ritmo atual, o número total de endereços .ai ultrapassará um milhão até o Dia de Ação de Graças, no final de novembro. Em uma comparação aproximada, o número de empreendimentos online fundados no final da década de 1990, na era das pontocom, é estimado em 10 mil.
A quarta — e que acabou sendo a última — rodada de financiamento da Builder foi liderada pela Qatar Investment Authority, um fundo soberano, em 2023. Desta vez, a terceira palavra do comunicado à imprensa, logo após o nome da empresa, foi AI.
Os investidores injetaram um total de US$ 450 milhões na empresa. Além do Catar, entre eles estavam a incubadora DeepCore, da SoftBank, a Microsoft, o investidor de Hollywood, Jeffrey Katzenberg, o CEO da Palo Alto Networks, Nikesh Arora, e a empresa Insight Partners, de Nova York. Nenhum deles quis comentar para este artigo.
‘É basicamente mágica’
A estratégia da Builder era tornar-se tão onipresente que parecesse inevitável.
Apesar de toda a suposta natureza transformadora da IA, o que muitas vezes impulsiona o sucesso é a publicidade à moda antiga. “Na corrida dos chatbots de IA, a cobertura consistente da mídia não é apenas ruído — é combustível para a adoção e o crescimento”, afirmou recentemente a One Little Web, uma consultoria de Bangladesh, ao anunciar seu último estudo.
A Builder levou essa ideia a sério. Ela investiu dinheiro não no desenvolvimento de produtos, mas na promoção. No outono passado, a empresa esteve na conferência Web Summit, em Lisboa. Foi Gold Partner, o segundo nível mais alto de parceria, na conferência TechCrunch Disrupt, em São Francisco. Também esteve na conferência Gitex Global, em Dubai.
Nesses eventos, a empresa apresentou a “Natasha”, que chamou de primeira gerente de programa de IA. O produto foi projetado para tornar a criação de um site ou aplicativo tão fácil quanto pedir uma pizza. Diga à Natasha o que você quer e ela criará.
“Eu sei o que você está pensando: como tudo isso é possível?”, perguntou Natasha em um anúncio. Em seguida, ela sussurrou: “É basicamente mágica”.
Em 2024, com o aumento do frenesi em torno da inteligência artificial, a Builder gastou cerca de US$ 42 milhões em promoção, ou 80% de sua receita, de acordo com documentos internos analisados pelo The New York Times. Os gastos com a marca quadruplicaram durante o ano, à medida que o número de funcionários aumentou para 1500.
Duggal, CEO, se autodenominava o “mago-chefe” da Builder. Ele era uma figura familiar em conferências e na televisão, vestindo seu suéter da sorte, uma peça multicolorida memorável que reforçava sua marca pessoal.
Ele falava com confiança sobre a libertação global que a IA proporcionaria. “O que você está vendo com a IA é uma mudança que está permitindo que a parte mais criativa da natureza humana entre em ação”, disse ele em uma entrevista à CNBC, em 2023. Ele se recusou a ser entrevistado para este artigo e sua equipe de relações públicas não forneceu comentários.
A programação de software costumava ser um trabalho árduo e altamente qualificado, algo que só podia ser feito por programadores treinados. A noção de que é possível criar software sem programação é chamada de “programação sem código” ou, em um termo recém-criado, “programação vibracional”. Basta confiar na inteligência artificial.
A mágica funcionou em alguns meios de comunicação. A classificação da Fast Company da Builder como a terceira empresa mais inovadora em IA colocou-a seis posições à frente da Nvidia, atualmente a empresa mais valiosa do mundo. A Fast Company afirmou que, embora houvesse uma pequena taxa de inscrição, as empresas foram avaliadas com base nas suas aplicações.
A Fast Company elogiou a Builder por consolidar “uma nova parceria com o JPMorgan Chase para vender produtos da Builder à base de clientes da gigante dos serviços financeiros”. Uma porta-voz do banco disse que a Builder nunca foi um fornecedor. Uma porta-voz da Fast Company considerou a seleção da Builder “infeliz”.
Em 2024, Duggal recebeu o prêmio EY Entrepreneur of the Year Award, ****na Grã-Bretanha. O prêmio, segundo os organizadores, foi concedido àqueles que demonstraram “coragem, perseverança e resiliência para superar obstáculos significativos”.
Duggal então participou na competição global, que é acompanhada por todo o glamour do Oscar. Ele não ganhou. Uma porta-voz da EY se recusou a comentar.
‘Fumaça e espelhos’
Duggal, que é britânico, era um empreendedor em série que começou há 20 anos com um software de visualização para desktop, criou um aplicativo de compartilhamento de fotos e, em 2016, fundou a Engineer.ai. Em 2018, ele trouxe um executivo americano, Robert Holdheim, para administrar o negócio.
Holdheim durou apenas alguns meses. Em fevereiro de 2019, ele entrou com uma ação em Los Angeles contra a Engineer.ai e Duggal, alegando que havia sido demitido por apontar problemas na startup.
A ação judicial alegava que a empresa tinha dois conjuntos de livros contábeis, um com números falsos para os investidores e outro com os números reais. A Engineer.ai tinha apenas alguns clientes, e a maioria estava insatisfeita com o produto, dizia a ação. Fazendo comparações explícitas com Elizabeth Holmes e sua startup médica, a Theranos, Holdheim disse em sua ação judicial que a startup era toda “fumaça e espelhos”.
Holdheim disse em sua ação que havia confrontado Duggal sobre esse ponto. O CEO respondeu, segundo ele, dizendo que todos faziam isso.
“Todas as startups de tecnologia exageram para obter financiamento — é o dinheiro que nos permite desenvolver a tecnologia”, afirmou Duggal, segundo a reportagem.
O processo também alegava que Duggal havia desprezado a tradicional frugalidade das startups em favor de um estilo de vida luxuoso às custas da empresa, incluindo a contratação de um chef pessoal da Grécia durante uma visita a Los Angeles.
A Engineer.ai negou as acusações. Em outubro de 2019, a empresa mudou sua marca para Builder.ai. Holdheim disse que recebeu um acordo, cujos termos não foram divulgados. Nem o processo judicial nem um artigo do Wall Street Journal de 2019 questionando as capacidades de IA da Builder prejudicaram o crescimento da empresa nos anos seguintes. Holdheim se recusou a comentar.
Um fator que ajudou a Builder foi a pandemia de covid e suas restrições.
“Normalmente, quando você investe, você passa tempo com a empresa”, disse Ratia, o atual CEO. “O Covid tornou isso impossível. A história da Builder.ai decolou durante a pandemia.”
Em 2023, a Microsoft investiu US$ 30 milhões na Builder. A Microsoft afirmou que a colaboração traria o “poder combinado de ambas as empresas para negócios em todo o mundo”. Os clientes de pequenas empresas da Builder utilizariam o armazenamento em nuvem da Microsoft.
Uma porta-voz da Microsoft afirmou que a empresa “não tem nada a compartilhar neste momento”.
No fim do ano passado, a diretoria da Builder, tentando determinar por que a empresa tinha pouco dinheiro em caixa apesar do suposto rápido crescimento, descobriu que a receita estava drasticamente superestimada, de acordo com documentos internos e duas pessoas que falaram sobre as finanças sob condição de anonimato devido a questões legais.
A receita da empresa para o ano fiscal de 2023 foi reportada como US$ 157 milhões, mas na verdade foi de US$ 42 milhões, de acordo com uma das pessoas e os documentos internos. No ano fiscal de 2024, a diferença aumentou, com uma receita reportada de US$ 217 milhões contra US$ 51 milhões na realidade. A Builder também não estava pagando suas contas. Ela devia US$ 75 milhões à Amazon Web Services, disse a pessoa.
Após a investigação do conselho, Duggal renunciou. Ratia, que trabalha para um dos primeiros investidores da Builder, a Jungle Ventures, tinha planos para consertar a empresa. Mas quando os credores perderam a confiança, a única opção foi entrar com um pedido de falência nos termos do Capítulo 7.
“Sou o único que restou”, disse Ratia.
Em maio, uma conta nas redes sociais sem nenhuma ligação aparente com a Builder postou que a IA da empresa não existia: “A rede neural Natasha acabou por ser 700 programadores indianos.” A acusação, que foi amplamente divulgada, gerou uma piada instantânea na comunidade tecnológica: na Builder, “IA” significava “Na verdade, indianos”.
Ratia, membro do conselho da Builder desde o início de 2024, rebateu a acusação.
“A IA era real”, escreveu ele no LinkedIn em junho. “Não era um artifício. Não era ilusão. Era um sistema sofisticado e pronto para produção.” Sua defesa não surtiu muito efeito.
Em uma entrevista, Ratia disse que a confusão foi, pelo menos em parte, culpa da Builder.
“A Builder não fez um bom trabalho ao definir a IA”, disse ele. “Dependendo do seu público, você tende a se promover um pouco demais. A IA estava sendo usada para auxiliar o trabalho dos seres humanos? Sim. A IA estava substituindo os seres humanos? Não.”
Desde que a OpenAI lançou o ChatGPT em 2022 e causou sensação, a pressão — ou talvez a tentação — para que as empresas descrevam algo como inteligência artificial é muitas vezes irresistível.
“A inteligência artificial vende, e a automação não”, disse Ratia.
