The Economist: O que o superávit de US$ 1 trilhão da China representa para o mundo

No ano passado, o PIB de apenas 19 países ultrapassou US$ 1 trilhão. Isso coloca as últimas notícias da administração alfandegária da China em um contexto gritante. Em 8 de dezembro, ela informou que as exportações líquidas de bens do país nos primeiros 11 meses do ano já haviam ultrapassado US$ 1 trilhão, mais do que qualquer superávit anterior. Mesmo com os Estados Unidos impondo tarifas sobre a China, seus fabricantes empreendedores se expandiram para mercados alternativos e descobriram rotas alternativas para contornar as barreiras comerciais americanas.

O tamanho do superávit está causando ansiedade em todo o mundo. “Os desequilíbrios que vemos se acumulando hoje não são sustentáveis”, disse Emmanuel Macron, presidente da França, em uma visita a Pequim este mês. Um relatório recente da Goldman Sachs sobre o poder de exportação da China foi intitulado Beggar thy neighbour (Empobreça seu vizinho). E, em 10 de dezembro, o FMI pediu à China que corrigisse seus desequilíbrios.

No entanto, como em muitas coisas relacionadas à economia chinesa, um certo grau de perspectiva é tão valioso quanto um senso de admiração. O superávit monstruoso não é tão assustador quanto parece. Além disso, ele causa problemas não para o resto do mundo, mas para a própria China.

Para começar, o superávit de trilhões de dólares conta apenas com bens físicos que passam pela alfândega. Não inclui serviços, o que subtrairia cerca de US$ 180 bilhões do total. Também não captura algumas transações entre empresas multinacionais e fabricantes locais contratados em zonas de livre comércio no território da China, mas fora de sua fronteira alfandegária.

Uma medida mais ampla das relações da China com o resto do mundo é seu superávit em conta-corrente. Esse atingiu US$ 650 bilhões nos últimos quatro trimestres (embora alguns analistas tenham dúvidas sobre como é medido). Ainda é um número grande. Mas a China, acredite, é uma grande economia. Seu superávit equivale a cerca de 3,4% do seu PIB. De acordo com o FMI, havia 45 economias com um superávit maior do que esse no ano passado. Oito delas estão na União Europeia de Macron.

O foco nos desequilíbrios também diagnostica erroneamente a verdadeira preocupação da Europa, que é o esvaziamento de sua indústria nacional. O verdadeiro problema é que os fabricantes europeus agora lutam para competir com as montadoras e empresas de eletrônicos chinesas. Isso aconteceria mesmo que a China gastasse muito mais em commodities e outras importações e seu superávit comercial caísse para zero.

Além disso, a relutância da China em comprar produtos do exterior não se estende aos ativos estrangeiros. Em troca de suas exportações, ela comprou títulos, concedeu empréstimos, adquiriu ações e construiu fábricas no exterior. Esses ativos representam direitos sobre o futuro. A China está, portanto, vendendo produtos hoje em troca de produtos no futuro. O comércio é uma troca. Mas a troca não precisa ser simultânea.

A ânsia da China por economizar já foi difícil de acomodar para o mundo. Após a crise financeira global de 2007-2009, todos queriam se retrair e gastar menos do que ganhavam. Os bancos centrais reduziram as taxas de juros para quase zero. Mas não havia demanda suficiente para todos. Nesse mundo, os superávits da China podiam ser acusados de empobrecer seus vizinhos. Suas exportações líquidas “drenavam” a demanda de países que sofriam com a escassez de gastos.

Agora as coisas estão diferentes. Em muitas grandes economias, a inflação está no nível ou acima da meta do banco central. Os gastos são fortes o suficiente para manter o desemprego baixo no país, com um pouco sobrando para comprar o excedente da produção da China também. Se os bancos centrais estão preocupados com a falta de demanda, eles têm espaço para reduzir as taxas, como fez o Federal Reserve (Fed, o banco central americano) em 10 de dezembro.

Na verdade, o excedente da China é mais um problema para ela mesma do que para o resto do mundo. É o único grande país onde a inflação parece perigosamente baixa. A contratação está fraca, os consumidores não têm confiança e o mercado imobiliário entrou no quinto ano de uma recessão aparentemente intratável. O banco central está preocupado que taxas de juros mais baixas prejudiquem as margens dos bancos. E o governo está relutante em fazer o que for necessário para reverter a situação.

Os formuladores de políticas da China têm contado com exportações inesperadamente fortes para manter o crescimento nos trilhos. Isso pode acabar sendo um erro. Se a guerra comercial se espalhar para a Europa ou se a economia global sofrer uma recessão, a demanda externa poderá facilmente enfraquecer. A China seria então forçada a fazer um grande esforço fiscal para reanimar os gastos internos.

Sua tarefa pode ser ainda mais difícil por ter sido adiada. Quanto mais tempo o sentimento pessimista persistir, mais difícil será dissipá-lo. E a China pode se ver tentando reavivar a confiança dos consumidores e compradores de imóveis justamente quando a economia mundial está enfraquecendo. A China tornou-se dependente dos gastos dos estrangeiros para estabilizar sua própria economia. Isso não é antissocial, mas é imprudente.

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