The Economist: A máquina de negócios do Japão acelera e atrai gigantes globais

Os investidores corporativos do setor de private equity (PE) têm sido comparados, de forma memorável, a bárbaros invasores. Mas o setor pode ser descrito de forma mais útil como uma máquina que converte o dinheiro dos investidores em negócios, os negócios em desinvestimentos lucrativos (ou “saídas”) e as saídas em retornos para os investidores. Quando funciona bem, esse mecanismo ganha impulso próprio. Saídas lucrativas geram retornos atraentes, o que leva os investidores a injetar mais capital, possibilitando novos negócios.

Infelizmente, o capital privado não está funcionando bem nos Estados Unidos. Os fundos estão lutando para sair com lucro. O volume de negócios caiu. E ficou mais difícil levantar novo capital: ele pode cair em 2025 pelo terceiro ano consecutivo. O que antes era um modelo dominante e bem-sucedido tornou-se lento e pouco confiável, como um dos famosos carros beberrões de gasolina de Detroit da década de 1970.

Do outro lado do Pacífico, porém, há uma máquina voltando à vida. No Japão, o número de transações de private equity dobrou desde 2019, e seu valor triplicou. As fusões e aquisições atingiram um recorde de US$ 232 bilhões no primeiro semestre de 2025. Investidores ocidentais como Ares, Carlyle e Apollo estão abrindo novos escritórios em Tóquio ou expandindo os antigos. O PE japonês está passando por um “grande renascimento”, proclamaram os figurões da KKR, outro titã, no ano passado.

Três fatores explicam o contraste entre o maior mercado de private equity do mundo e o mais aquecido. O primeiro é o valor. Assim como os carros decepcionantes de Detroit na década de 1970, as empresas americanas não são especialmente acessíveis. O valor empresarial das empresas americanas listadas em bolsa é 11 vezes maior que seu lucro operacional (menos depreciação e amortização). No Japão, o custo médio das empresas é apenas sete vezes maior que o lucro operacional.

As empresas japonesas são baratas em parte porque seus gestores tendem a desperdiçar o capital dos acionistas. Muitas empresas têm enormes reservas de caixa e muitos ativos desnecessários parados. Mas essa desvantagem também é uma oportunidade. Nos Estados Unidos, ajustar as operações das empresas é um trabalho árduo. No Japão, simples racionalizações gerariam retornos enormes. A empresa listada mediana detém caixa no valor de 21% de seus ativos totais, em comparação com 8% das empresas públicas americanas.

A segunda falha do private equity americano é que o dinheiro injetado muitas vezes não consegue sair. Muitos negócios foram fechados em 2020-2021, quando as taxas de juros estavam baixas. O setor tem lutado para se adaptar à política monetária mais restritiva, assim como Detroit lutou para se adaptar aos padrões mais rígidos de eficiência de combustível.

As taxas de juros mais altas reduziram o valor das empresas compradas. Elas também aumentaram o custo do financiamento dos negócios. No entanto, muitos fundos, tendo feito promessas ambiciosas aos investidores, agora não estão dispostos a vender a valores reduzidos, por medo de realizar perdas. Isso criou um acúmulo de saídas para os fundos de private equity americanos, que se tornaram mais lentos para pagar os investidores.

No Japão, por outro lado, os canais estão menos entupidos. As saídas estão 68% acima da média de 2019-2023, de acordo com a Bain (embora continuem aquém dos máximos de uma década atrás). Listagens de alto valor, como a venda em 2023 da Kokusai Electric, fabricante de ferramentas para chips apoiada pela KKR, aumentaram a confiança. As baixas taxas de juros do Japão também ajudaram.

A terceira tendência favorável ao Japão é surpreendente: a desglobalização. O aumento do protecionismo está abalando muitos exportadores japoneses. Mas o PE japonês tem uma grande vantagem sobre seu equivalente americano: ele se beneficia da retirada da China. À medida que o risco de fazer negócios na República Popular cresceu, os fundos de PE globais transferiram suas alocações na Ásia da China para seus maiores vizinhos, Japão e Índia. O apelo da China pode melhorar se seu mercado de ações continuar em alta. Mas o medo de que os investimentos chineses possam atrair má publicidade ou cair no lado errado de uma disputa geopolítica deixou muitos investidores de private equity nervosos. Um maior escrutínio dos investimentos chineses alimentou a tendência em direção a mercados como o Japão, diz Jim Verbeeten, da Bain.

O contraste entre os Estados Unidos e o Japão pode não durar para sempre. Se as taxas de juros americanas caírem, o setor de PE poderá se recuperar, assim como o progresso do Japão poderá ser prejudicado se o banco central do país voltar a aumentar as taxas. Os gestores das empresas japonesas ainda podem frustrar as ambições do private equity.

Os esforços nos Estados Unidos para levar os fundos às massas podem permitir que o setor venda ativos a investidores de varejo dispostos a assumir riscos, desobstruindo os canais. Mas, por enquanto, a máquina de negociações do Japão parece tão barata, ágil e confiável quanto um Corolla ou um Civic, enquanto o private equity americano continua um pouco defasado.

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