Autoridades da União Europeia estão acelerando os planos para um euro digital, segundo interlocutores envolvidos nas discussões, depois que uma nova lei de stablecoins nos Estados Unidos aprofundou preocupações sobre a competitividade de uma moeda digital europeia.
O Congresso dos EUA aprovou no mês passado uma lei histórica que regulamenta o mercado de stablecoins de US$ 288 bilhões, amplamente dominado pelo dólar, após forte lobby do setor das criptomoedas.
Stablecoins são um tipo de token digital atrelado na proporção de um para um a uma moeda soberana e lastreado por reservas como títulos do governo.
Uma pessoa envolvida nas discussões disse que, desde que a chamada Genius Act foi aprovada, autoridades da UE têm “repensado os planos para o euro digital”.
Fontes próximas ao assunto acrescentaram que os dirigentes agora consideram rodar o euro digital em uma blockchain pública, como ethereum ou solana, em vez de uma privada —como era esperado anteriormente— devido a preocupações com privacidade.
Segundo um interlocutor, a rápida aprovação da lei americana abalou muita gente, e o discurso agora é de acelerar.
O Banco Central Europeu (BCE) vem trabalhando há vários anos na possível criação de uma versão digital do euro, que seria gratuita para uso em toda a zona do euro.
Defensores afirmam que uma moeda digital desse tipo daria às pessoas acesso a um meio de pagamento lastreado pelo banco central à medida que o uso de dinheiro em espécie diminui, além de promover o euro globalmente.
Agora, autoridades da UE temem que a nova legislação americana estimule ainda mais o uso crescente de tokens denominados em dólar e acreditam que um euro digital é necessário para proteger a dominância da moeda única no continente.
Piero Cipollone, membro do conselho executivo do BCE, afirmou em abril que a promoção de stablecoins atreladas ao dólar pelo governo dos EUA “levanta preocupações para a estabilidade financeira da Europa e para sua autonomia estratégica”.
Ele acrescentou que isso poderia resultar em “depósitos em euros sendo transferidos para os Estados Unidos e em um fortalecimento adicional do papel do dólar nos pagamentos internacionais”.
Empresas de cripto como Circle e Tether estão entre as que emitem stablecoins lastreadas no dólar, enquanto bancos americanos como Citi e JPMorgan Chase consideram lançar suas próprias versões.
Moedas digitais de bancos centrais (CBDCs, na sigla em inglês) são formas digitais de dinheiro público. A China é a mais avançada com seu token, enquanto o Reino Unido avalia a criação de uma libra digital.
Várias stablecoins atreladas ao euro já foram lançadas, sendo a maior delas operada pela Circle, com uma capitalização de mercado de US$ 225 milhões. Mas a criação de um token diretamente pelo BCE consolidaria o compromisso da região com os ativos digitais.
“A Europa não pode se dar ao luxo de depender excessivamente de soluções de pagamento estrangeiras”, disse Cipollone em abril.
Se o euro digital fosse rodado em uma blockchain pública, ele poderia ser negociado em qualquer lugar, o que poderia ampliar sua circulação e uso. Mas autoridades demonstram cautela em relação ao uso de blockchains existentes porque as transações são públicas, levantando preocupações com a privacidade.
O uso de uma blockchain pública é algo que autoridades da UE estão levando mais a sério agora, disse uma das fontes.
Outra pessoa afirmou que um euro digital em sua forma privada, como amplamente esperado, se pareceria muito mais com o que o banco central chinês está fazendo do que com o que empresas privadas nos EUA estão fazendo, em referência ao token do Banco Popular da China, que é operado de forma privada.
O BCE disse ao Financial Times que está considerando “diferentes tecnologias —tanto centralizadas quanto descentralizadas— no desenvolvimento do euro digital, incluindo tecnologias de registro distribuído” e que ainda não foi tomada uma decisão sobre o assunto.
