Presidente do Irã sugere possibilidade de diálogo diplomático em carta aos EUA

O presidente do Irã, Masoud Pezeshkian, divulgou nesta quarta-feira, 1º, uma carta dirigida ao povo americano sugerindo a possibilidade de um diálogo diplomático. O documento foi divulgado poucas horas antes do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, fazer um pronunciamento sobre o conflito.

“Hoje, o mundo se encontra em uma encruzilhada”, disse Pezeshkian na carta, divulgada por seu gabinete. “A escolha entre confronto e diálogo é real e consequente; seu resultado moldará o futuro das próximas gerações”, acrescentou. O presidente, no entanto, não apresentou medidas específicas sobre como evitar um novo conflito, mas seu tom foi conciliatório.

No início do dia, Trump disse nas redes sociais que o Irã havia solicitado cessar-fogo aos Estados Unidos. Ele condicionou o fim dos ataques à liberação total do Estreito de Ormuz. A informação foi negada pelo porta-voz do ministério das Relações Exteriores, Esmaeil Baqaei.

Não ficou claro se a carta do presidente iraniano representava um consenso entre os líderes do Irã. No documento, publicado em inglês e persa e com cerca de mil palavras, Pezeshkian também assumiu tom desafiador e paternalista. Ele abordou lições históricas sobre o Irã ter sobrevivido a séculos de invasões e turbulências, afirmando: “O Irã nunca iniciou uma guerra. No entanto, repeliu com determinação e coragem aqueles que o atacaram”.

No sistema dual de governo do Irã, o papel e a autoridade do presidente são ofuscados pelo líder supremo, o aiatolá Mojtaba Khamenei, que sucedeu seu pai assassinado no início de março. Khamenei tem a palavra final em todas as questões importantes do Estado, como negociações com Washington ou condições para o fim da guerra.

Desde o início da guerra, a Guarda Revolucionária Islâmica também ganhou mais destaque, e comandantes militares de alto escalão passaram a ter mais influência, incluindo um ex-comandante, o brigadeiro-general Mohammad Bagher Ghalibaf, atual presidente do Parlamento e um dos generais que comandam a guerra. Trump afirmou que os Estados Unidos estavam em contato com facções mais moderadas no Irã, sem dar detalhes.

Não ficou claro se a carta de Pezeshkian foi escrita em coordenação com Khamenei ou com a Guarda Revolucionária. O Irã não respondeu oficialmente ao plano de paz de 15 pontos do governo Trump, entregue a Teerã por meio do Paquistão. Trump afirmou que o vice-presidente, JD Vance, poderia se reunir com altos funcionários iranianos caso as negociações de paz fossem realizadas.

Pezeshkian conversou por telefone na terça-feira com o presidente do Conselho Europeu, António Costa, e informou-lhe que o Irã estaria disposto a pôr fim à guerra caso suas condições fossem atendidas.

Os linha-dura iranianos atacaram o presidente por sugerir que o Irã estaria aberto a negociações sobre um cessar-fogo. O chefe de comunicação do presidente, Elias Hazrati, disse em uma publicação nas redes sociais que as tentativas de minar o presidente estavam “apenas fazendo o jogo dos agressores”.

Em sua carta, Pezeshkian também expôs as queixas de longa data de Teerã contra os Estados Unidos e recapitulou as negociações nucleares que, segundo ele, acabaram levando Israel e os Estados Unidos a lançarem ataques militares surpresa em 28 de fevereiro. Mas, em seguida, ele sugeriu que havia uma distinção entre o governo americano e seu povo.

“O povo iraniano não nutre inimizade contra outras nações, incluindo o povo dos Estados Unidos, da Europa ou dos países vizinhos”, escreveu ele. “Mesmo diante de repetidas intervenções e pressões estrangeiras ao longo de sua orgulhosa história, os iranianos sempre fizeram uma distinção clara entre governos e os povos que eles governam.”

Pezeshkian defendeu os ataques retaliatórios do Irã contra Israel e os países árabes no Golfo Pérsico. Mas ele não abordou o fechamento do Estreito de Ormuz pelo Irã, o que causou caos na economia global.

“O que o Irã fez — e continua a fazer — é uma resposta comedida, baseada na legítima defesa, e de forma alguma uma iniciativa de guerra ou agressão”, afirmou Pezeshkian.

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