Autoridades ucranianas e europeias respiraram aliviadas após amenizar as condições do plano de paz surpreendentemente favorável ao Kremlin apresentado pelo presidente Donald Trump na semana passada. Mas uma realidade incômoda paira sobre a frenética atividade diplomática: tudo dependerá do que o presidente russo, Vladimir Putin, estiver disposto a aceitaO líder do Kremlin sinalizou que está preparado para continuar a guerra, apesar das elevadas perdas no campo de batalha e das dificuldades econômicas internas. O objetivo dele com isso é forçar a Ucrânia a aceitar exigências que a subordinariam à Rússia.
A realidade no terreno, segundo analistas, dá a Putin poucos motivos para moderar suas condições. A Ucrânia está perdendo território em ritmo acelerado. O país enfrenta um escândalo de corrupção interna. Além disso, está com poucos recursos financeiros e militares, e a paciência dos Estados Unidos está se esgotando.
Para o líder russo, insistir em um colapso mais amplo da Ucrânia poderia render concessões ainda maiores.
“A essência da guerra dele é enfraquecer a Ucrânia”, afirmou Tatiana Stanovaya, pesquisadora sênior do Carnegie Russia Eurasia Center.
Enquanto bombardeia a infraestrutura ucraniana e gradualmente conquista mais território, o líder russo acredita que conseguirá o que deseja, disse Stanovaya, “se não agora, então em seis meses, se não em seis meses, então em um ano”.
Ainda de acordo com a analista, Putin pode não ser um mestre da estratégia, como demonstra sua enorme subestimação inicial da capacidade da Ucrânia de conter as forças russas. Mas ele entende perfeitamente que tem a vantagem na guerra.
“A própria Ucrânia está em uma crise cada vez mais profunda e, mais cedo ou mais tarde, ela ruirá — ele sabe disso claramente, e isso basta”, disse ela. “Ele não precisa saber de mais nada.”
Putin afirmou que deseja uma garantia de que a Ucrânia não entrará na Otan, uma promessa de que a aliança militar ocidental não se expandirá mais para o leste, limites para o poderio militar da Ucrânia e proteções especiais para a língua russa e a Igreja Ortodoxa Russa na Ucrânia, entre outras exigências. As negociações no Alasca neste verão centraram-se no desejo de Putin de anexar a totalidade das regiões orientais ucranianas de Donetsk e Luhansk, incluindo partes ainda controladas pela Ucrânia.
Nos últimos dias, autoridades europeias expressaram consternação com pontos do plano que restringiriam a Otan e dariam a Moscou poder sobre a segurança europeia, persuadindo autoridades americanas a colocar essas questões em uma via de negociação separada. A Ucrânia tem insistido que a atual linha de frente seja o ponto de partida para as negociações territoriais. Também questionou os limites propostos para suas forças armadas.
Moscou rejeitou como improdutivas as contrapropostas europeias que circularam nos últimos dias e sugeriu que qualquer plano que se afastasse dos entendimentos fundamentais alcançados pelos Estados Unidos e pela Rússia durante a cúpula do Alasca seria inviável.
Há indícios de que Putin sequer teria concordado com o plano original de 28 pontos divulgado na semana passada, já considerado bastante pró-Rússia.
O líder russo afirmou que o plano poderia servir de base para um acordo de paz, mas que ainda exigiria discussões substanciais. Seu principal assessor de política externa, Yuri Ushakov, disse que muitas das posições eram aceitáveis, “mas nem todas”.
Os limites impostos pela proposta ao poderio militar da Ucrânia, por exemplo, eram mais generosos do que os apresentados por Moscou nas negociações fracassadas de 2022. O plano dos EUA não imporia limites ao equipamento militar ucraniano. Além disso, previa o uso de fundos soberanos russos congelados na Europa para a reconstrução da Ucrânia. Todos esses pontos poderiam representar obstáculos para Putin.
O Kremlin informou que o enviado especial de Trump, Steve Witkoff, retornaria a Moscou na próxima semana para discutir os detalhes. Trump anunciou a visita nas redes sociais e afirmou que o secretário do Exército dos EUA, Daniel P. Driscoll, se reuniria com os ucranianos.
Embora Putin tenha declarado estar disposto a continuar a guerra, o líder russo também está ansioso para desenvolver um relacionamento mais profundo com Trump, o que poderia resultar em alívio das sanções, cooperação econômica e benefícios geoestratégicos mais amplos. Analistas afirmam que o líder russo se sente atraído por essa perspectiva, mas não sacrificará seus principais objetivos de guerra para alcançá-la.
A Rússia também tem enfrentado uma campanha de ataques ucranianos contra suas instalações petrolíferas e militares, que Trump ameaçou reforçar este ano com o fornecimento de mísseis Tomahawk de longo alcance, antes de recuar.
Moscou pode estar esperando que, se a última rodada de diplomacia não resultar em um acordo de paz, isso leve os Estados Unidos a cortar todo o apoio à Ucrânia, possivelmente acelerando a desintegração ucraniana.
“Putin ainda quer tudo”, disse Max Bergmann, diretor do programa Europa, Rússia e Eurásia do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais. “Mas o principal que ele quer é a Ucrânia em sua órbita. E se ele não puder ter a Ucrânia, ninguém poderá.”
Segundo Bergman é por isso que investidas diplomáticas semelhantes neste ano fracassaram.
“De certa forma, isso é um carrossel”, disse ele. “A cada iniciativa, você entra num carrossel, há uma onda de atividade, parece que você está indo a algum lugar e, eventualmente, tudo para e você sai no mesmo lugar de onde estava, que é a guerra continuando.”
