Altos funcionários do Pentágono estão elaborando um plano para reduzir o status de vários dos principais quartéis-generais das Forças Armadas dos EUA e alterar o equilíbrio de poder entre seus generais de mais alta patente. Trata-se de uma grande consolidação almejada pelo Secretário de Defesa, Pete Hegseth, segundo pessoas a par do assunto.
Se aprovado, o plano daria início a algumas das mudanças mais significativas na cúpula militar em décadas, cumprindo em parte a promessa de Hegseth de quebrar o status quo e reduzir o número de generais de quatro estrelas. A medida diminuiria a proeminência dos quartéis-generais do Comando Central, do Comando Europeu e do Comando Africano dos EUA, colocando-os sob o controle de uma nova organização denominada Comando Internacional dos EUA, de acordo com cinco fontes familiarizadas com o tema.
Espera-se que o Chefe do Estado-Maior Conjunto, Dan Caine, detalhe a proposta — que não havia sido divulgada anteriormente — para Hegseth nos próximos dias. Tais medidas complementariam outros esforços do governo para transferir recursos do Oriente Médio e da Europa, concentrando o foco na expansão das operações militares no Hemisfério Ocidental, disseram as fontes. Assim como outros entrevistados para esta reportagem, elas falaram sob condição de anonimato para discutir a iniciativa antes que ela fosse formalmente apresentada ao secretário.
A equipe de Hegseth declarou em comunicado que não comentaria “rumores de discussões internas” ou “questões ainda em fase de decisão”. Qualquer insinuação de que haja uma divisão entre as autoridades sobre o assunto é “completamente falsa — todos no Departamento estão trabalhando para alcançar o mesmo objetivo sob este governo”, afirmou a nota.
O Pentágono compartilhou poucos ou nenhum detalhe com o Congresso, uma falta de comunicação que irritou membros das comissões do Senado e da Câmara lideradas por republicanos, segundo duas pessoas familiarizadas com a preparação dos painéis para a proposta. Oficiais superiores dos comandos envolvidos também aguardam mais detalhes, disseram as autoridades.
O plano também prevê a reestruturação do Comando Sul e do Comando Norte dos EUA — que supervisionam as operações militares em todo o Hemisfério Ocidental — sob um novo quartel-general a ser batizado de Comando das Américas dos EUA, ou Americom, segundo fontes. Esse conceito foi noticiado no início deste ano pela NBC News.
Autoridades do Pentágono também discutiram a criação de um Comando do Ártico dos EUA que se reportaria ao Americom, mas essa ideia aparentemente foi descartada, disseram as fontes.
Combinadas, as medidas reduziriam o número de quartéis-generais militares de alto escalão — conhecidos como Comandos Combatentes (Combatant Commands) — de 11 para oito, ao mesmo tempo em que diminuiriam o número de generais e almirantes de quatro estrelas que se reportam diretamente a Hegseth. Os demais comandos combatentes seriam o Comando Indo-Pacífico, o Comando Cibernético, o Comando de Operações Especiais, o Comando Espacial, o Comando Estratégico e o Comando de Transporte dos EUA.
Estratégia de segurança nacional dos EUA
Pessoas familiarizadas com o plano afirmaram que ele está alinhado com a estratégia de segurança nacional do governo Trump, divulgada este mês, a qual declara que “os dias em que os Estados Unidos sustentavam toda a ordem mundial como Atlas chegaram ao fim”.
A proposta foi organizada pelo Estado-Maior Conjunto do Pentágono, sob a supervisão de Caine, e deve ser apresentada a Hegseth ainda esta semana como o curso de ação preferencial entre os oficiais militares de alto escalão. O plano surgiu de uma solicitação feita por Hegseth na primavera (do hemisfério norte) para buscar maneiras de melhorar o comando e controle das tropas, disse um alto funcionário da defesa a par da discussão, acrescentando que Hegseth manteve contato com Caine sobre o assunto nos últimos meses.
Quaisquer mudanças precisariam da aprovação de Hegseth e do presidente Donald Trump. As medidas seriam implementadas por meio do Plano de Comando Unificado (Unified Command Plan) do Pentágono, que define as atribuições dos principais quartéis-generais das Forças Armadas.
Legisladores tomaram a medida extraordinária de exigir que o Pentágono apresentasse um plano detalhado descrevendo os custos potenciais da reorganização e seus impactos nas alianças dos Estados Unidos. A medida, incluída no projeto de lei anual de política de defesa do Congresso, bloquearia os recursos para implementar a iniciativa até pelo menos 60 dias após o Pentágono fornecer esses documentos aos legisladores.
O projeto foi aprovado pela Câmara e deve ser votado pelo Senado esta semana.
O alto funcionário da defesa disse que a reestruturação proposta visa acelerar a tomada de decisões e a adaptação entre os comandantes militares. Ele acrescentou que foi observada uma “deterioração” na forma como as Forças Armadas dos EUA comandam e controlam as tropas, sugerindo que a necessidade de uma mudança radical é urgente.
“O tempo joga contra nós, cara”, disse o alto funcionário, descrevendo as conversas internas sobre o plano. “O ditado aqui é: ‘Se não formos nós, quem será? Se não for agora, quando?’”
Reorganização
A potencial reorganização surge no momento em que Hegseth iniciou esforços mais amplos para reduzir o número total de generais e almirantes em todas as forças. Ele também demitiu ou forçou a saída de mais de 20 oficiais superiores, ameaçou outros com testes de polígrafo para determinar se vazaram informações para a mídia e disse aos que permaneceram que, se não concordam com as políticas do governo, devem “ter a honradez de se demitir”.
Chuck Hagel, que atuou como Secretário de Defesa durante o governo Obama e, antes disso, como senador republicano, expressou preocupação com as ambições do governo Trump. Existem dinâmicas, necessidades e ameaças à segurança distintas em todo o mundo, disse ele.
“O mundo não está ficando menos complicado”, afirmou Hagel em entrevista. “Você quer comandos que tenham a capacidade de evitar problemas antes que eles se tornem grandes crises, e acho que se perde um pouco disso quando se unifica ou consolida muitos deles.”
Altos oficiais militares consideraram cerca de duas dezenas de outros conceitos, disse o funcionário da defesa. Pelo menos uma discussão propôs uma redução para um total de seis comandos combatentes. Nesse cenário, o Comando de Operações Especiais, o Comando Espacial e o Comando Cibernético teriam seu status reduzido e seriam colocados sob o controle de um novo Comando Global dos EUA, disseram outros funcionários.
Espera-se que Caine apresente pelo menos dois outros cursos de ação a Hegseth. Um conceito prevê a criação de dois comandos para englobar todos os outros: todas as principais organizações geográficas, como o Comando Central e o Comando Europeu, ficariam sob o controle de uma entidade chamada Comando Operacional. Outros quartéis-generais importantes, como o Comando de Transporte e o Comando Espacial, ficariam sob uma organização chamada Comando de Apoio.
Outra proposta sugeriu a criação de uma nova unidade de quartel-general, a Força-Tarefa Conjunta de Guerra, sediada no Pentágono. Ela se concentraria no planejamento e na estratégia quando os Estados Unidos não estivessem em guerra, mas seria capaz de controlar forças em qualquer lugar do mundo em caso de conflito, disseram fontes.
Preocupações
A ideia não foi bem recebida em simulações com oficiais militares e parece improvável de ser adotada, disse o alto funcionário da defesa. Oficiais expressaram preocupação de que tal organização não possuiria a mesma expertise regional e os relacionamentos inerentes à estrutura atual.
Mesmo que se tenha “alguns dos seus melhores profissionais” em tal força-tarefa, disse o oficial sênior, “você não tem uma noção imediata” do que está ocorrendo em uma região. Um segundo oficial disse que parecia “muito desarticulado” ter comandantes de alto escalão em uma região se preparando para um conflito, apenas para entregar esses planos a outro comandante quando algo ocorresse.
Outro plano buscava reorganizar as Forças Armadas por domínio de atuação, com operações lideradas de acordo com o local onde ocorriam: terra, ar, mar, espaço ou ciberespaço. A ideia tinha apoiadores na Força Espacial, mas poucos outros defensores. Ela também limitaria a influência do Corpo de Fuzileiros Navais, que ficaria sob o controle do Departamento da Marinha, mesmo com a elevação dos outros ramos das Forças Armadas.
Os oficiais militares envolvidos no esforço de reorganização também consideraram elevar o papel do Chefe do Estado-Maior Conjunto (o Chairman) para permitir que ele comandasse as forças, em vez de atuar apenas como conselheiro militar sênior do Presidente e do Secretário de Defesa. Isso poderia ter ocorrido por meio da estrutura da Força-Tarefa Conjunta de Guerra, disseram dois oficiais, mas o conceito parecia nebuloso.
A ideia também poderia ter sido complicada pela Lei Goldwater-Nichols de 1986, legislação histórica que reorganizou as Forças Armadas e definiu o papel do Chefe do Estado-Maior Conjunto. De acordo com a lei, ele é o principal assessor militar do Presidente dos EUA, do Secretário de Defesa e de outros oficiais superiores. As operações são controladas por meio de uma cadeia de comando que vai dos comandantes combatentes ao Secretário de Defesa e ao Presidente.
