Incursão de drones russos na Polônia expõe despreparo da defesa da Otan

Se a intenção de Vladimir Putin ao lançar drones sobre a Polônia de madrugada era testar as defesas aéreas da Otan, o presidente russo deve ter ficado satisfeito com o resultado. E, segundo alertam especialistas, provavelmente se sentirá estimulado a ir além da próxima vez.

A incursão no espaço aéreo polonês levou caças da Otan a decolar e abater parte dos projéteis – a primeira vez que a aliança militar liderada pelos Estados Unidos se envolve diretamente com as forças armadas russas desde que Putin iniciou a invasão em larga escala da Ucrânia. O episódio marca um novo e perigoso capitulo do conflito, que já dura mais de três anos e meio.

Mas, segundo autoridades, especialistas em defesa e analistas, isso também expôs quão despreparada a Europa está para o tipo de ataque aéreo em massa que a Rússia lança quase todas as noites contra a Ucrânia, deixando claro o tamanho do investimento necessário para reforçar o flanco oriental da Otan.

“Moscou certamente percebeu que ainda não aprendemos com o que a Ucrânia vem enfrentando há anos”, disse Ben Hodges, ex-comandantegeral do Exército dos EUA na Europa. “Não estamos preparados para isso… e agora eles estão à nossa porta”

Hodges enfatizou que a Europa precisa de um sistema de defesa aérea integrado e em camadas, capaz de avaliar a dimensão de um ataque iminente e acionar os recursos adequados, ao contrário da resposta da manhã desta quarta-feira, quando caças de alto valor, como os F-35 holandeses, foram mobilizados para abater drones baratos.

“Obviamente, não foi um acidente, dado o número de drones”, disse Hodges. “Isso foi um ensaio. Para testar, sondar, descobrir quão bons são os nossos sistemas de alerta precoce e quais são nossos tempos de reação.”

O primeiro-ministro da Polônia, Donald Tusk, disse que de um total estimado de 19 drones que invadiram o espaço aéreo polonês, apenas quatro, “que representavam uma ameaça direta”, foram derrubados. Segundo os militares poloneses, a maioria dos drones eram iscas, usadas rotineiramente pela Rússia para distrair e desgastar as defesas aéreas da Ucrânia, antes de lançar sucessivas ondas de mísseis e drones armados.

A Otan já reconheceu que suas defesas aéreas no leste são um dos pontos frágeis da aliança e precisam urgentemente de investimentos, dentro de um compromisso de elevar os gastos nacionais com defesa para 5% do PIB ao longo da próxima década. Um “escudo de defesa” no leste também é prioridade nas novas iniciativas de gastos militares apoiadas pela União Europeia.

O secretário-geral da Otan, Mark Rutte, elogiou uma “reação muito bemsucedida da Otan” e prometeu defender “cada centímetro do território aliado”, após o que descreveu como um “incidente que não foi isolado”. “Precisamos investir mais… para termos o que precisamos para dissuadir e defender”, acrescentou Rutte.

O ataque com drones, parte de uma ofensiva em larga escala contra a Ucrânia que combinou drones e mísseis, ocorreu após incidentes anteriores em que projéteis russos chegaram a contornar ou entrar brevemente no território da Otan, sem serem abatidos.

Um dirigente da indústria de armamentos da Polônia disse ao “Financial Times” que a maioria dos drones identificados eram drones “Gerbera”modelos Shahed de origem iraniana, sem ogiva, usados como iscas antes de ataques com mísseis contra a Ucrânia.

Autoridades polonesas suspeitam que uma onda posterior de Shaheds armados seguiu em direção à cidade ucraniana de Lviv, e que os Gerbera foram deliberadamente enviados para a Polônia para contornar as defesas aéreas em torno de Liviv. “Um drone, pelo que vimos até agora, pode ser um erro”. “, disse o dirigente da indústria de armamentos. Mas, “19 drones não são um erro”.

Tusk disse ao parlamento polonês que vários desses drones foram lançados a partir de Belarus, país aliado da Rússia que deve sediar um enorme exercício militar a partir desta sexta-feira, ao longo das fronteiras com a Polônia e a Lituânia.

A Alemanha “aumentou imediatamente o nível de alerta” e forneceu dados de seus dois sistemas de defesa aérea Patriot, localizados perto da cidade polonesa de Rzeszów, a cerca de 100 quilômetros da fronteira ucraniana, informou o Ministério da Defesa.

“O que isso nos ensina é que estamos sob constante ameaça de provocações das forças armadas russas”, disse o ministro da Defesa da Alemanha, Boris Pistorius, ao parlamento nesta quarta-feira.

A Polônia e seus vizinhos do Báltico já estavam em alerta máximo antes dos exercícios militares russo-bielorrussos Zapad, que ocorrerão esta semana. As manobras, realizadas a cada quatro anos, simulam uma resposta conjunta a um ataque de um país da Otan. Na terça-feira, Tusk ordenou um fechamento completo da fronteira polonesa com Belarus antes do “muito agressivo” exercício Zapad.

Em edições anteriores, os exercícios simularam até um possível ataque nuclear a Varsóvia, enquanto a última versão, no quarto trimestre de 2021, fez parte do acúmulo de tropas e armamentos russos na fronteira ocidental que acabou sendo usado para invadir a Ucrânia poucos meses depois.

Analistas afirmam que o Zapad deste ano tentará alcançar três coisas: testar as respostas da Otan a provocações como as incursões com drones, demonstrar que apesar de seus fracassos militares, a Ucrânia ainda é uma força de combate formidável, e manter um estado de ansiedade nos países da Otan que fazem fronteira com a Rússia e Belarus.

Nos últimos dias, autoridades russas intensificaram sua retórica contra os vizinhos da Otan, acusando-os de ofensivas militares e de preparar o terreno para que Moscou justifique suas próprias ações retaliatórias.

Em um artigo de opinião para a agência de notícias estatal Tass esta semana, Dmitry Medvedev, ex-presidente da Rússia e vice-presidente do conselho de segurança do país, acusou a Finlândia (que faz parte da Otan) de “seguir um curso de confronto em preparação para a guerra com a Rússia”.

No domingo, em um artigo para o jornal “Kommersant”, Nikolai Patrushev, ex-espião e um dos assessores mais próximos de Putin, acusou os países ocidentais de terem “decidido seriamente aumentar as apostas, transformando o Mar Báltico em uma arena de guerra híbrida não declarada”.

Nesta quarta-feira, Tusk disse que embora a atual situação não configure um “estado de guerra”, ela é “significativamente mais perigosa do que todas as anteriores”.

A autoridade da indústria polonesa de armamentos disse que o ataque foi elaborado para “criar uma divisão na Otan entre as pessoas que afirmam que ‘precisamos responder e ajudar a Polônia’, e aquelas que dizem ‘relaxem, eles estão apenas nos testando, não é nada demais'”.

Gabrielius Landsbergis, ex-ministro das Relações Exteriores da Lituânia, comparou as incursões com drones às tentativas russas de sabotagem realizadas em solo europeu nos últimos 18 meses.

“Eles estão tentando estabelecer uma nova realidade, de forma semelhante ao que fizeram com os ataques híbridos, quando basicamente aceitamos que os russos estão ativos em países da Otan e fazendo coisas maliciosas”, disse Landsbergis ao “Financial Times”.

“Agora, imagine a mesma situação com drones. Eles fazem uma vez e nós não reagimos. E então há outro ataque, talvez não na Polônia, talvez na Romênia, talvez na Lituânia.”

https://valor.globo.com/mundo/noticia/2025/09/10/ft-incursao-de-drones-russos-na-polonia-expoe-despreparo-de-defesa-da-otan.ghtml

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