China perde o título de maior fabricante mundial de tênis

As fábricas que cercam a agitada cidade vietnamita produzem solas de espuma, palmilhas macias, cadarços de algodão e tecido de malha. As peças são transportadas por caminhões para armazéns, onde são transformadas em calçados. Em seguida, nos portos próximos, contêineres são preenchidos com caixas para a Nike, a Adidas, a Saucony e a Brooks Sports e enviados pelo Rio Dong Nai até alcançarem o mar.

No mundo dos negócios, é difícil evitar a China, que tem domínio sobre as matérias-primas e possui uma capacidade fabril capaz de impulsionar os lucros e manter os consumidores satisfeitos. A indústria de tênis, porém, está mostrando que isso pode mudar. As grandes marcas ainda têm fábricas imensas lá, mas agora produzem principalmente calçados que são vendidos no mercado interno. Já o Vietnã ultrapassou a China como o principal país fornecedor mundial de tênis vendidos pela Nike, pela Adidas, pela Brooks e por outras marcas.

A centralidade crescente do Vietnã na confecção de tênis ficou evidente em 3 de abril. Depois que o presidente Donald Trump ameaçou a nação do Sudeste Asiático com uma tarifa de 46%, os preços das ações da Nike e da Adidas despencaram. Desde então, os dois países anunciaram um acordo comercial inicial que reduziu a nova taxação para 20%.

A incerteza que as tarifas de Trump provocaram nos custos vem forçando uma reavaliação no setor. A Nike estimou que a taxação global aumentará os custos extras deste ano em cerca de US$ 1 bilhão. Para amenizar o impacto, a empresa está reduzindo ainda mais a produção na China, onde as tarifas agora são mais altas do que as do Vietnã. Mas algumas companhias, preocupadas em depender demais de um único país, também colocaram na pauta a possibilidade de transferir a produção para fora do Vietnã.

Nos anos 1970, a indústria começou a se espalhar pela Ásia em busca de custos e salários mais baixos. Foi quando marcas como a Nike, então recém-chegada, recorreram a fábricas na Coreia do Sul e em Taiwan para aumentar a produção, à medida que a cultura do uso de tênis se consolidava nos Estados Unidos. As fábricas no Leste Asiático começaram a fabricar calçados de forma barata, rápida e em grande escala.

A China abriu sua economia para empresas estrangeiras na década de 1980 e, assim, teve acesso a centenas de milhares de trabalhadores. Em pouco tempo, tornou-se mais barata e atraente. As companhias sul-coreanas e taiwanesas que trabalhavam para marcas globais de tênis rapidamente transferiram grande parte de suas fábricas para lá.

De forma discreta, porém, o Vietnã estava implantando mudanças inovadoras em uma economia controlada pelo regime comunista. No início dos anos 2000, o vizinho do sul da China estava no radar de todos.

“Foi como a abertura da China. Agora, era o Vietnã que se abria”, disse Tony Le, executivo americano do setor de tênis que se mudou de Portland, no Oregon, para a cidade de Ho Chi Minh, com a Brooks, em 2019.

Le, que fugiu do Vietnã em 1976, aos três anos, depois do fim da guerra, cresceu acreditando que a hora de seu país natal chegaria. Em 1997, passou dois meses na China trabalhando como estagiário para a Adidas, e ficou impressionado com o tamanho da nação. Empresas taiwanesas como a Pou Chen, que tinha dezenas de milhares de trabalhadores na China, construíram fábricas que, segundo ele, eram como “pequenas cidades”.

Em meados dos anos 2000, Le trabalhava para a Nike quando a companhia começou a usar fábricas vietnamitas para produzir componentes básicos para calçados. “No fundo, eu torcia para que o país entrasse nessa indústria.”

Não demorou muito. Na década de 2010, os trabalhadores chineses exigiam salários mais altos e as empresas estavam se tornando hábeis na fabricação de produtos copiados, muitas vezes infringindo direitos autorais estrangeiros. As marcas globais foram forçadas a buscar diversificação.

O Vietnã tinha um governo receptivo ao investimento estrangeiro e a melhor condição demográfica possível: uma população jovem em crescimento e em busca de trabalho. Quando começou o primeiro mandato presidencial de Trump, em 2017, fábricas vietnamitas já produziam tênis em grande escala, mesmo enquanto as marcas ampliavam sua presença na China para atender ao mercado consumidor local. Depois que Trump confrontou a China sobre o comércio, em 2018, outras multinacionais de vários setores seguiram o exemplo da indústria de calçados e migraram para o Vietnã.

Contudo, a maioria das fabricantes de tênis ainda dependia da China para o fornecimento de matérias-primas e componentes, incluindo borracha e palmilhas.

Tudo mudou em 2020, quando a China fechou suas fronteiras no início do surto de Covid-19. Os líderes empresariais de fábricas que foram fechadas perceberam quanto dependiam da China. A transferência de recursos para o Vietnã não foi uma escolha difícil para os executivos do setor calçadista.

“É uma cadeia de suprimentos muito mais localizada do que a de outros setores. Há uma necessidade de rapidez na comercialização, e os parceiros de longo prazo já investiram na rede de abastecimento”, afirmou Bob Shorrock, executivo com longa experiência na indústria de artigos esportivos.

Na maior parte do tempo, caminhões trafegam lentamente pela rodovia que liga as fábricas de calçados do país à cidade de Ho Chi Minh e seus portos. Passam por dezenas de terrenos cheios de escavadeiras e tratores para alugar e por pátios com pilhas de contêineres.

Vendendo bolinhos de arroz à beira da estrada, Pham Kieu Diem, de 47 anos, relembrou a época em que os campos de arroz cercavam toda a área. “Não existiam fábricas e havia só uma ou duas casas neste trecho.”

Em julho de 1995, uma fábrica conhecida como Viet Vinh foi construída em antigos campos de arroz. “Eu me lembro bem dessa data, porque fui uma das primeiras pessoas a trabalhar lá”, comentou ela. Na época, Diem tinha 17 anos e permaneceu na fábrica durante 19 anos. “Eu não sabia fazer calçados e nunca tinha usado tênis antes”, contou. Diem abandonou a escola na nona série para ajudar a família a cultivar arroz e feijão.

“Eu e minhas duas irmãs economizamos o dinheiro que ganhamos e compramos um terreno. Nele construímos uma casa, o que ajudou a manter nossa renda e mudou nossa vida para melhor”, completou Diem.

https://www1.folha.uol.com.br/mercado/2025/09/a-china-esta-perdendo-o-titulo-de-maior-fabricante-mundial-de-tenis.shtml

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