A Aproximação entre o Canadá e a União Europeia: Integração como uma resposta estratégica em um Sistema Internacional fragmentado
Autor: Fernando Carmona Reche Alves
Núcleo de Estudos e Negócios Americanos (NENAM)
Coordenador: Prof. Dr. Roberto Uebel
Em um sistema internacional marcado por rivalidades comerciais e pela erosão de garantias de segurança antes tidas como estáveis, alguns Estados têm respondido não com isolamento, mas com o aprofundamento de vínculos institucionais. É esse o pano de fundo da proposta feita pela presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, de tornar o Canadá o primeiro “membro associado” da União Europeia, um movimento que reposiciona a integração regional não como limite à soberania, mas como instrumento para preservá-la diante de pressões externas.
O anúncio, feito durante o discurso do Estado da União em Estrasburgo, ocorre em meio a uma guerra comercial entre o Canadá e os Estados Unidos, agravada pela retórica de Washington sobre uma eventual anexação do território canadense. Von der Leyen propôs evoluir o acordo comercial CETA para uma “Aliança para o Futuro”, ampliando a cooperação em tecnologia, minerais críticos, energia e defesa, além de sugerir a criação de um Conselho Europeu de Segurança envolvendo a UE, o Canadá, a Noruega e o Reino Unido. A criação da categoria “membro associado”, inédita nos tratados europeus, reflete o interesse da UE em ampliar sua influência geopolítica sem recorrer ao processo formal de adesão plena, reservado a Estados europeus.
Tanto o Canadá quanto a União Europeia demonstram, nesse movimento, uma preferência por vínculos institucionais mais profundos em detrimento do isolamento estratégico. Para Ottawa, aproximar-se de Bruxelas significa diversificar parcerias comerciais e de segurança, reduzindo a dependência de um vizinho hegemônico que já não oferece previsibilidade. Para a União Europeia, o interesse é igualmente concreto: reduzir a dependência de fornecedores como a China em minerais críticos e reforçar sua presença estratégica no Ártico frente à Rússia. Esse posicionamento revela uma lógica de integração pragmática, na qual a cessão parcial de autonomia decisória é vista como preço aceitável para garantir estabilidade econômica e segurança coletiva.
O discurso de von der Leyen é marcado por uma retórica de coesão democrática, que contrapõe o bloco europeu a um cenário internacional descrito como cada vez mais volátil e marcado por potências que agem pela força ou pela riqueza. Sua fala buscou emplacar a mensagem de que “o poder não pertence ao mais forte, ao mais rico ou ao mais barulhento, mas a todos nós”, reforçando a legitimidade da União Europeia como projeto coletivo diante de ameaças híbridas e extremismos crescentes. A presença de Mark Carney no evento, em meio à disputa comercial com os Estados Unidos, reforça a leitura de que a aproximação responde a um cálculo estratégico imediato, e não apenas a uma afinidade ideológica de longo prazo.
A análise do caso mostra que a aproximação entre o Canadá e a União Europeia revela uma lógica de integração defensiva, que se fortalece justamente em resposta ao unilateralismo de grandes potências. Ao buscarem vínculos institucionais mais profundos em vez de agirem isoladamente, ambos os atores reforçam os blocos econômicos existentes e contribuem para conter a fragmentação do sistema internacional. O impacto dessa postura é o fortalecimento da lógica cooperativa que sustenta o regionalismo global, abrindo espaço para um cenário em que a integração volta a ser vista como ferramenta de resiliência frente à competição entre Estados.
Fontes:
PAYNE, Julia; MELANDER, Ingrid. EU’s von der Leyen wants Canada to become bloc’s first associate member. Reuters, Bruxelas, 16 set. 2026. Disponível em: https://www.dailymaverick.co.za/article/2026-09-17-eus-von-der-leyen-wants-canada-to-become-blocs-first-associate-member/. Acesso em: 17 set. 2026.
CORLIN, Peggy. Canada invited to become first ‘associate member’ of the EU. Euronews, [S. l.], 16 set. 2026. Disponível em: https://www.euronews.com/2026/09/16/canada-to-become-first-associate-member-of-the-eu. Acesso em: 17 set. 2026.
