Após quatro anos de impasse, o Iêmen está à beira de uma nova guerra em grande escala, ameaçando ainda mais a estabilidade do Oriente Médio.
Os combates estão se intensificando dentro do país empobrecido entre a milícia houthi, apoiada pelo Irã, e as forças do governo iemenita, além de ocorrerem nas fronteiras, entre os houthis e a Arábia Saudita. Analistas dizem que todos os lados têm incentivos para ampliar o conflito.
Nesta quinta-feira, os houthis capturaram um porto estratégico no Mar Vermelho, em uma ampla ofensiva terrestre que pode dar ao grupo maior controle sobre uma importante rota marítima.
O que está impulsionando cada lado rumo à guerra
- Os houthis querem mais poder e recursos
- Irã quer aumentar a pressão sobre os EUA
- Governo iemenita vê uma oportunidade de recuperar território
- Arábia Saudita acredita que não pode ficar de fora
Os houthis querem mais poder e recursos
Os houthis são aliados próximos do Irã, mas também são uma facção eminentemente iemenita, com suas próprias motivações. O grupo de combatentes chegou ao poder depois de tomar a capital, Sanaa, em 2014, derrotando o governo iemenita. A Arábia Saudita iniciou uma campanha de bombardeios para tentar restabelecer o governo no poder, e os combates tomaram conta do país.
Quando uma trégua foi alcançada, em 2022, os houthis disseram que haviam vencido a guerra e consolidaram seu domínio sobre o norte do Iêmen. Mas não tinham acesso às receitas do petróleo iemenita, e as negociações de paz que poderiam lhes garantir uma parcela desses recursos estagnaram.
Desde então, a situação econômica nas áreas sob controle dos houthis piorou, aumentando o descontentamento entre os civis e colocando pressão política sobre o grupo, segundo analistas.
A milícia tem pouco a perder e muito a ganhar com a escalada dos combates. Ao pressionar a Arábia Saudita, os líderes houthis esperam obter concessões políticas que possam dar ao grupo mais poder. Eles exigiram o fim de todas as restrições a aviões e navios que entram em seu território, incluindo o regime de inspeção da ONU. Também insistiram para que a Arábia Saudita pague indenizações de guerra e se retire completamente do Iêmen, o que significaria o fim do apoio saudita ao governo iemenita.
“Os houthis não têm nenhum incentivo para reduzir a escalada”, disse Ibrahim Jalal, pesquisador iemenita e consultor de políticas públicas. Segundo ele, o grupo culpa a Arábia Saudita pelo sofrimento em seu território.
Irã quer aumentar a pressão sobre os EUA
Para o Irã, os houthis são um aliado particularmente útil porque a milícia controla território ao longo do Mar Vermelho, uma importante rota do comércio global. Desde o início da guerra entre EUA e Irã, em fevereiro, a Arábia Saudita, um dos maiores exportadores de petróleo do mundo, tem enviado grande parte de sua produção aos clientes pelo Mar Vermelho para evitar o Estreito de Ormuz, que o Irã efetivamente bloqueou.
Em julho, os houthis declararam um bloqueio à navegação saudita pelo Mar Vermelho, ameaçando essa nova rota e pressionando os preços do petróleo para cima.
Interferir na economia global e elevar os preços do gás nos Estados Unidos estão entre as maneiras mais eficazes de o Irã exercer influência sobre Trump, segundo analistas.
O Irã aposta que a escalada no Iêmen arrastará os Estados Unidos ainda mais para dentro da guerra regional e “aumentará a pressão sobre o governo Trump”, disse Baraa Shiban, pesquisador sobre Iêmen e Golfo do Royal United Services Institute, organização de pesquisa sediada em Londres.
Governo iemenita vê uma oportunidade de recuperar território
O governo internacionalmente reconhecido do Iêmen está determinado a repelir os houthis e retomar o controle de todo o país. Mas, durante vários anos, essa perspectiva pareceu estar fora de alcance. O governo depende fortemente da Arábia Saudita para obter apoio financeiro e militar, e os sauditas não queriam outra guerra com os houthis.
“Durante muito tempo, foram os sauditas que os mantiveram sob controle, porque estavam priorizando a contenção”, disse Ahmed Nagi, analista sênior sobre o Iêmen no International Crisis Group.
Agora, à medida que os houthis intensificam os ataques contra interesses sauditas, autoridades do governo iemenita veem uma oportunidade para uma contraofensiva contra a milícia. Há um ano, as forças do governo eram formadas por uma mistura de facções anti-houthis, com diferentes comandos e motivações. Recentemente, a Arábia Saudita pressionou pela unificação dessas forças e ampliou o apoio militar, segundo analistas.
O governo gostaria, idealmente, de recuperar todo o Iêmen, disse Jalal. De forma mais realista, as forças governamentais buscam “enfraquecer significativamente os houthis” e afastá-los dos territórios ao longo da costa do Mar Vermelho do Iêmen, afirmou.
As ambições do governo ainda podem ser limitadas porque a Arábia Saudita exerce a palavra final sobre as principais decisões que afetam o Iêmen. Uma grande campanha militar do governo iemenita “não pode acontecer sem coordenar plenamente uma operação com a Arábia Saudita”, disse Shiban.
Arábia Saudita acredita que não pode ficar de fora
A campanha anterior de bombardeios da Arábia Saudita no Iêmen se transformou em um atoleiro que contribuiu para a morte de centenas de milhares de iemenitas em decorrência da violência, da fome e de doenças. A campanha não alcançou seus objetivos políticos. Também prejudicou a reputação do reino e drenou suas finanças.
Por isso, autoridades sauditas mudaram de estratégia. Desde 2022, passaram a tentar administrar a relação com os houthis por meio de negociações, na esperança de manter a tranquilidade na fronteira sul do reino e desvincular os interesses da milícia dos interesses do Irã. Um novo conflito colocaria em risco os ambiciosos planos do príncipe herdeiro saudita de transformar o reino em um polo global de negócios e turismo.
Mas, cada vez mais, autoridades sauditas parecem acreditar que precisam enfrentar os houthis agora ou arcar com custos ainda maiores no futuro, segundo analistas.
A Arábia Saudita sediará a Expo Mundial de 2030 e a Copa do Mundo masculina de futebol de 2034, grandes eventos que exigem um ambiente livre de ataques com drones. Os canais diplomáticos entre a Arábia Saudita e os houthis parecem ter entrado em colapso, e os houthis vêm fazendo exigências que autoridades sauditas consideram excessivas.
“Os sauditas estão desenvolvendo uma espécie de convicção crescente de que a paz com os houthis é impossível”, disse Farea Al-Muslimi, especialista em Iêmen da Chatham House, instituição de pesquisa sediada em Londres. “Eles tentam comprá-los, tentam bombardeá-los, tentam combatê-los, tentam visitá-los, tentam convidá-los. Nada disso funcionou.”
Até onde a Arábia Saudita irá pode depender de os Estados Unidos ou outros aliados sauditas estarem dispostos a apoiar outra guerra contra os houthis.
Alguns analistas temem o pior. “Há muita gente empolgada com isso ou que pensa que será uma guerra rápida e curta, mas já ouvi essa mesma linha sobre quase todas as guerras no Iêmen”, disse Al-Muslimi. “Esta será uma guerra sangrenta e horrível.”
