EUA e México estão à beira de ruptura silenciosa

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Depois de um destempero do presidente Donald Trump em conversa telefônica com seu colega mexicano Enrique Peña Nieto, as relações entre México e Estados Unidos entraram em um momento de “rompimento secreto”, na versão de Carlos Loret de Mola, colunista do jornal “El Universal”.
Tradução: os intensos contatos entre os diferentes setores dos dois governos ficaram paralisados, à espera das consequências do entrevero.
Segundo o “Washington Post” de sábado (24), Trump teria se irritado profundamente com Peña Nieto porque o presidente mexicano insistia com o colega para que ele reconhecesse publicamente que o México não pagará pelo muro que os Estados Unidos estão construindo na fronteira.
Como se trata de promessa de campanha de Trump e como o presidente americano detesta ser contrariado, era inevitável que o telefonema fosse truncado abruptamente. Também era inevitável, na sequência, que Peña Nieto cancelasse a viagem que faria esta semana a Washington, a primeira visita oficial desde que Trump assumiu faz um ano e um mês.
O mal-estar entre os dois mandatários coincide com o início (domingo, 27) de mais uma rodada de negociações em torno do Nafta (o acordo de livre comércio entre Estados Unidos, México e Canadá), cuja reformulação é outro dos pontos levantados por Trump durante a campanha.
A mídia mexicana começou a semana repleta de especulações em torno de uma ruptura do acordo por parte dos Estados Unidos, como represália pela recusa mexicana de financiar a construção do muro.
O Nafta é um pacto de importância formidável para os três sócios, mas principalmente para o México: calcula-se que os laços comerciais entre México e Estados Unidos –fortemente adubados pelo Nafta– ascendam a US$ 1 milhão por minuto.
Quanto ao muro, a mídia mexicana é unânime em considerá-lo uma provocação, de resto inútil, como escreve nesta segunda-feira (26) o colunista Jorge Fernández Menéndez no jornal “Excelsior”:
“Desde a época de George W. Bush começou a ser construída uma barreira que já ocupa praticamente a metade da fronteira. Não é útil e há, pelo menos, mil quilômetros de fronteira nos quais não tem nem sequer sentido construí-la. A vigilância fronteiriça, na qual o México colabora, é eletrônica, com drones, informação e inteligência. A maioria dos homens e mulheres que hoje chegam ilegais aos Estados Unidos não o fazem cruzando o deserto de Nogales [fronteira com o Arizona] e, sim, em avião”.
Seja como for, há uma semana começou a construção de uma seção de 3,2 km do muro entre as cidades-gêmeas de Calexico (Califórnia) e Mexicali (México). Terá 2 metros de profundidade e 9 metros de altura. “Não houve avaliação do impacto ambiental”, queixa-se o jornal “La Jornada”.
Tudo somado parece evidente que o bate-boca telefônico foi reflexo direto de um mal-estar que compromete seriamente a relação entre dois vizinhos, com efeitos inevitáveis em toda a América Latina.

https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2018/02/eua-e-mexico-estao-a-beira-de-ruptura-silenciosa.shtml

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