Dinastia

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Aníbal Azevedo, Diretor do Intergraus Vestibulares

“Supor-se-ia que os Estados Unidos, por serem uma democracia, dispensariam as famílias dinásticas”, escreveu um historiador, em 1947. No entanto, a próxima eleição presidencial americana tem tudo para ser uma disputa entre dinastias, representadas por Hillary e Jeb. Houve um Clinton ou um Bush em sete dos últimos nove pleitos. Na política e nos negócios, o poder ainda se concentra em famílias. E as dinastias e famílias poderosas estão aí para ficar.

Clintons e Bushes não constituem exceções: os líderes do Japão, das Coreias do Sul e do Norte, de Cuba, das Filipinas e de Bangladesh são aparentados a ex-chefes políticos. Uma Fujimori lidera as pesquisas eleitorais no Peru, enquanto um Trudeau abre vantagem no Canadá. Na China, dá-se o mesmo: a longa lista dos bem-sucedidos “príncipes herdeiros” — como são chamados localmente os filhos do alto escalão do Partido Comunista — é encabeçada pelo atual presidente, Xi Jinping.

O poderio familiar é uma das razões pelas quais a política europeia lembra um clube privado. Cinquenta e sete dos 650 membros do Parlamento Britânico são parentes — entre si, ou de ex-parlamentares. O presidente da França, François Hollande, tem quatro filhos com Ségolene Royal, candidata à presidência em 2007. Três gerações de Le Pens disputam o controle da Frente Nacional, o polêmico partido francês de direita. O Primeiro Ministro da Bélgica é filho de um ex-Ministro do Exterior.

Por aqui, não é diferente. Nas últimas eleições, quase 20% dos eleitos eram parentes de políticos. Clarissa Garotinho, Bruno Covas, Zeca Dirceu, Marco Antonio Cabral, Elcione Barbalho e Sarney Filho são apenas alguns deles.

Os clãs prosperam também nos negócios. Mundialmente, mais de 90% das empresas são geridas ou controladas familiarmente, inclusive gigantes como a Volkswagen, que vive uma guerra de diretoria entre as duas principais famílias proprietárias. A Boston Consultoria calcula que 33% das firmas americanas que faturam mais de um milhão de dólares e 40% das francesas e das alemãs são empresas de família. Nos países emergentes, o percentual é ainda maior.

Os pais da teoria política e econômica moderna teriam ficado surpresos. Imaginavam que as dinastias políticas desapareceriam quando o voto se tornasse universal. E que as empresas familiares perderiam terreno para as sociedades anônimas, estas sim capazes de levantar dinheiro com milhões de pequenos investidores. Mas isso não aconteceu. Em parte, por causa das vantagens do parentesco: os empreendimentos familiares podem, por exemplo, ser mais flexíveis e mirar mais longe do que as sociedades anônimas. As famílias proprietárias esperam que seus negócios sobrevivam por muitas gerações e conseguem investir no longo prazo, sem que acionistas exijam lucro imediato.

As dinastias ainda se beneficiam das transformações sociais e econômicas. A emancipação das mulheres duplicou a oferta de talentos em seu seio. No passado, o machismo teria barrado as pretensões políticas de Roseane Sarney, de Park Geun-hye, de Keiko Fujimori e da Sra. Clinton. Na arena dos negócios, a ala feminina dos clãs tomou as rédeas do Sistema Brasileiro de Televisão (SBT), do Grupo Mauricio de Sousa, do banco espanhol Santander, da mineradora australiana Hancock e até da Financeira Olayan, na conservadora Arábia Saudita.

A maioria dos “pais da teoria” mencionados anteriormente acreditava na santidade da propriedade privada e no direito dos empreendedores de desfrutar de seus ganhos. Mas postulava, simultaneamente, que os indivíduos deviam ser recompensados pelo mérito e não por conexões familiares. O New York Times calcula que a probabilidade de um filho de governador ser eleito para o mesmo cargo é 6 000 vezes maior que a do americano comum, enquanto a vantagem de um filho de senador na disputa pelo Senado é multiplicada por 8.000. A manutenção do poder e da riqueza nessa pequena elite obviamente levanta questões de legitimidade.

O poderio familiar torna-se especialmente preocupante quando negócios e política se entrelaçam. Os Clintons, por exemplo: todo tipo de doadores, inclusive governos estrangeiros, repassaram milhões de dólares para a fundação Clinton — quem sabe esperando influenciar um futuro Chefe de Estado.

Um sistema sem reserva de mercado, conduzido sob o império da lei e policiado pela imprensa livre reduz o alcance do nepotismo. Campanhas eleitorais milionárias favorecem as dinastias políticas com ramificações nos negócios e, por isso, deveriam ser reestudadas. Certos tipos incestuosos de organização empresarial lesam o mercado. Os Estados Unidos impuseram limites a eles na década de 1930. A Inglaterra o fez na década de 1960 e Israel começa a fazê-lo. Para não ser predador, o poderio familiar, como qualquer outro, precisa de limites.

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