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Zona do euro freia com demanda em queda na China

A economia da zona do euro desacelerou significativamente no terceiro trimestre, que foi o mais fraco dos últimos cinco anos. A região começa a sentir o impacto da desaceleração da economia chinesa e da turbulência na Itália.
Os dados de ontem sugerem ainda que as perspectivas para o bloco continuam incertas. Com a desaceleração do crescimento da China, a tendência da economia mundial parece ser de enfraquecimento neste ano, apesar da forte atividade nos EUA, puxada pelos sólidos gastos do consumidor e do governo. Embora a economia da zona do euro tenha acompanhado a dos EUA em 2016 e 2017, tem ficado para trás neste ano, e a distância está mais pronunciada.
A agência de estatística da União Europeia (UE) informou ontem que o Produto Interno Bruto (PIB) da zona do euro (19 países) cresceu 0,2% no terceiro trimestres, a metade da taxa de 0,4% registrada nos dois trimestres anteriores. Em termos anualizados, a região cresceu de 0,6%, uma desaceleração em relação à taxa de 1,8% do segundo trimestre e bem inferior à expansão de 3,5% registrada pelos EUA no terceiro trimestre.
Essa foi a expansão mais lenta desde o primeiro trimestre de 2013, quando a economia da região se contraiu num período de controle do endividamento e da crise bancária. Economistas ouvidos na semana passada previam que o crescimento manteria o ritmo obtido no segundo trimestre.
A economia da zona do euro teve em 2017 seu ano mais forte em uma década, em boa parte devido à disparada da produção industrial, puxada pelo salto das exportações. Mas esse ímpeto exportador perdeu força, e isso afetou o crescimento, em especial da Itália.
O país, terceira maior economia da zona do euro, ficou estagnado no trimestre, em vista da queda da produção industrial, que refletiu a fragilidade das exportações. Isso retoma uma tendência antiga: o núcleo de análise e pesquisa italiano Centro Studi Promotor estima que o setor industrial do país está atualmente quase 20% menor do que era dez anos atrás.
Parece haver pouca perspectiva de o país sair logo seu longo período de baixo crescimento. Embora o governo italiano queira impulsionar seu gasto e reduzir impostos, os investidores, preocupados com a possibilidade de aumento da já elevada dívida italiana, puxaram para cima o custo do crédito no país, o que poderá reduzir os gastos das empresas e famílias.
O premiê da Itália, Giuseppe Conte, disse ontem que os números reforçam sua determinação de seguir com a plano de orçamento.
“Previmos isso, e é exatamente por esse motivo que resolvemos implementar um orçamento expansionista”, disse Conte. “A Itália não pode entrar em recessão.”
Caso essa alta do custo do crédito se dissemine para outras partes da zona do euro, o crescimento poderá enfraquecer ainda mais.
Outra grande preocupação é a possibilidade de os conflitos comerciais com os EUA prejudicarem a demanda pelos produtos europeus, que já enfrentam uma desaceleração da demanda em alguns grandes países emergentes.
Enquanto as exportações da zona do euro para a China subiram 19,2% nos oito primeiros meses de 2017, em relação a igual período do ano anterior, elas cresceram só 3,3% em 2018. Algumas empresas relacionam esse desaquecimento à incerteza criada pelas tensões comerciais entre os EUA e a China.
“A demanda chinesa desacelerou nitidamente no terceiro trimestre”, disse Andreas Möller, porta-voz da fabricante alemã de máquinas Trumpf. “Quando EUA e China brigam em torno das regras comerciais, isso naturalmente, se reflete sobre os nossos negócios.”
A China é o segundo maior mercado mundial da Trumpf, atrás da Alemanha, mas à frente dos EUA.
Empresas de outros países europeus têm a mesma preocupação. “Para o futuro, estamos preocupados com a China”, disse Maurizio Casasco, presidente da Confapi, associação que representa empresas italianas de pequeno e médio portes. “Se o impasse [EUA-China] continuar, poderemos ser um caso de dano colateral. A Itália corre o risco de arcar com as consequências de uma coisa que está completamente fora do nosso controle.”
Por ora, é pouco provável que o desaquecimento da zona do euro frustre os planos do Banco Central Europeu (BCE) de retirar parte dos incentivos monetários que injetou na economia desde meados de 2014. Na semana passada, o presidente do BCE, Mario Draghi, disse que houve perda de impulso, mas que não há sinal, por enquanto, de “contração econômica”.
“Não é fácil, nesse caso, distinguir o transitório do que se revelará permanente, o que é típico de um país do que atinge a totalidade da zona do euro”, disse Draghi.
Parte do crescimento perdido poderá ser recuperado nos últimos meses do ano, uma vez que a produção foi temporariamente refreada pelos atrasos da Alemanha em testar automóveis para os novos padrões de emissões. A Alemanha não publicou dados de crescimento ontem, e não os publicará antes de meados de novembro, mas o banco central do país disse na semana que o PIB pode ter se estagnado no terceiro trimestre.
A maioria dos economistas prevê uma pequena recuperação do crescimento da zona do euro no último trimestre do ano, com a volta à normalidade da indústria automobilística alemã e a sustentação dada pela queda do desemprego aos gastos das famílias.
Mas há poucos sinais de que o crescimento possa se aproximar de seu pico de 2017 no ano que vem, e há motivos para temer que será ainda menor que o de 2018, que tende a ser decepcionante. Pesquisa da Comissão Europeia mostra que a confiança do consumidor e dos agentes econômicos caiu em outubro para seu menor nível desde maio de 2017.

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