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Na China, Uber se une a rival

A Uber Technologies Co. foi, talvez, a empresa americana de tecnologia que mais tentou montar um negócio na China que fosse verdadeiramente local e se tornasse líder de mercado. No fim, o esforço não foi suficiente.
Depois de quase três anos operando na China, a Uber concordou em vender sua unidade local para a arquirrival Didi Chuxing Technology Co., anunciou ontem a empresa chinesa de capital fechado. Apesar de lançar os serviços de caronas pagas na China um ano antes da Didi, a Uber foi atropelada pela rival local, que adicionou recursos que agradam os chineses e conquistou investidores poderosos, os reguladores e a imprensa.

A Didi, que foi avaliada em US$ 28 bilhões na sua última rodada de captação de recursos, afirmou que a Uber e os investidores de sua unidade UberChina vão assumir uma participação de 20% na empresa. Combinada com a UberChina, avaliada em cerca de US$ 8 bilhões, a Didi vai passar a valer perto de US$ 36 bilhões, como mostrou artigo do The Wall Street Jopurnal, assinado por Eva Dou, publicado no Valor de 02/08.

O negócio marca o fim da tentativa da Uber de ter uma presença independente na China, uma iniciativa que começou em 2013.

Mas a Uber não é a primeira empresa americana de internet a fracassar nos esforços de conquistar os chineses. Na verdade, nenhuma delas jamais conseguiu. O Google Inc., o Facebook Inc. e o Twitter Inc. se depararam com a barreira instransponível da censura do governo chinês. As gigantes de tecnologia dos EUA, da Apple Inc. à Microsoft Corp., viram suas vendas desacelerarem na China em meio à crescente preocupação do governo com a “segurança” dos equipamentos domésticos.

Até as empresas politicamente menos sensíveis – como o Yahoo Inc., eBay Inc., Amazon Inc. e, agora, a Uber – tropeçaram diante da maior rapidez dos concorrentes locais para se adaptar às preferências dos consumidores chineses.

“Até agora, não vimos nenhuma empresa estrangeira se tornar grandiosa na China”, diz Andrew Teoh, sócio-gerente da Ameba Capital, um dos investidores iniciais da Didi.

A Uber e a Didi, que travavam uma batalha acirrada, terão seus destinos fortemente interligados pelo acordo. Travis Kalanick, diretor-presidente da Uber, vai se tornar membro do conselho de administração da Didi, enquanto o fundador e diretor-presidente da firma chinesa, Cheng Wei, vai ganhar um assento no conselho da Uber. Depois da fusão, a Uber terá 17,7% da Didi, passando a ser seu maior acionista, com os outros investidores da UberChina, inclusive a Baidu, gigante chinesa das buscas, ficando com outros 2,3% da Didi.

A empresa chinesa de carona paga também investirá US$ 1 bilhão na Uber como parte do acordo, diz uma pessoa a par da transação.

Provavelmente não foi coincidência que a decisão da Uber tenha ocorrido na esteira da implantação de novas regras na China para os serviços de táxis que usam aplicativos de celular. Anunciadas na semana passada, essas regras legalizam oficialmente o setor, mas dão uma grande vantagem ao participante que possui a base maior de usuários, justamente a Didi, que conta com investidores de porte como a Apple e as gigantes chinesas da internet Alibaba Group Holding Ltd. e Tencent Holdings Ltd.

Ao proibir as empresas de operarem abaixo do custo, as novas regras põem um fim na desastrosa guerra de subsídios entre as duas rivais, mas também torna mais difícil para a UberChina, com sua escala menor, igualar os preços da Didi.

A Didi e a Uber divergem quanto aos dados de suas participações de mercado chinês, mas a maioria das firmas de pesquisa independentes coloca a Didi bem à frente. Segundo uma delas, a Analysys International, a Didi tinha 42,1 milhões de usuários ativos em maio e a UberChina, 10,1 milhões.

“Éramos uma firma americana jovem entrando num país onde a maioria das empresas de internet americanas” não conseguiu ter sucesso, disse Kalanick por meio de um comunicado, ontem.

A Didi afirmou que vai manter o serviço da Uber separado, mas o futuro da marca na China é incerto. Uma promessa semelhante foi feita depois da fusão entre a Didi Dache e a Kuaidi Dache, em 2015, que formou a Didi Chuxing. A marca Kuaidi, de menor porte, acabou sendo marginalizada.

A trajetória da Uber na China faz lembrar a de empresas on-line como o eBay Inc. e o Groupon Inc., que também penaram para enfrentar concorrentes locais mais ágeis e mais sintonizados com os consumidores chineses.

E os desafios para as empresas americanas só crescem. Uma pesquisa divulgada em janeiro pela Câmara Americana de Comércio na China mostrou que apenas 64% delas – o menor nível em cinco anos – tiveram lucro em 2015. Quase 35% das firmas americanas incluídas no estudo não planejavam expandir seus investimentos na China, um percentual maior que durante a crise financeira global de 2008 e 2009.

Em julho de 2014, Kalanick fez uma proposta para comprar a Didi, dizendo que a Uber conquistaria a China cedo ou tarde, recordou Cheng, o líder da Didi, numa entrevista ao The Wall Street Journal em 2015. Cheng disse que recusou a oferta, com a promessa: “Um dia nós vamos ultrapassar vocês.”

Na época, uma porta-voz da Uber confirmou que a reunião aconteceu, mas que os executivos da empresa se lembravam dela de uma forma diferente.

A Didi começou a operar em 2012 como um app para ajudar taxistas chineses a encontrar passageiros. Embora o serviço não fosse lucrativo, ele ajudou a empresa a angariar uma massa de usuários leais. Quando a Didi finalmente lançou um serviço similar ao da Uber, em 2014, ela já tinha mais de 100 milhões de usuários e motoristas registrados.

Enquanto a Uber ainda se concentra em carros privados e caronas compartilhadas na China, a Didi se expandiu para ônibus, contratação de motoristas particulares e corridas de teste para potenciais compradores de carros.
O status da Didi como uma líder local ajudou a empresa a superar a Uber tanto nas relações com os governos locais quanto com a mídia. No ano passado, quando as caronas pagas ainda estavam num limbo legal na maior parte do país, a Didi anunciou uma parceria com a prefeitura de Xangai.

A Didi também se tornou uma máquina notável de captar dinheiro, recusando-se a capitular aos subsídios de bilhões de dólares que a Uber despejou na China. A Didi levantou US$ 7,3 bilhões em sua última rodada de captação, em junho, que incluiu um investimento de US$ 1 bilhão da Apple.

Agora, a empresa chinesa poderá se beneficiar da presença global da Uber para se expandir fora da China. Para a Uber, por sua vez, a fatia de quase 20% na Didi não deixa de ser um bom investimento. A Didi é a startup mais valiosa da China e, já é chamada de a quarta maior empresa de internet do país, juntamente com Alibaba, Tencent e Baidu.

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