Luigi Di Maio

Itália rejeita corte de gasto e amplia confronto com UE

O governo populista da Itália se recusa a desistir dos planos de novos gastos que têm assustado os investidores, o que coloca a terceira maior economia da zona do euro em rota de colisão com seus parceiros da União Europeia (UE).
O vice-premiê, Luigi Di Maio, disse ontem que o governo “não vai recuar nem um milímetro” dos gastos, que vão aumentar o déficit público do país para 2,4% do PIB, muito além de prometido pelo governo anterior.
Os planos de Roma e seus choques posteriores com os tecnocratas da UE elevaram o custo da dívida da Itália no mercado de bônus. Ontem, a taxa de retorno dos títulos de 10 anos da Itália subiu 0,10 ponto percentual, a 3,40%. Isso ampliou a diferença entre os juros do bônus italiano e os do bônus alemão para 3 pontos percentuais, o mais alto do ano.
Na segunda-feira, o ministro da Economia, Giovanni Tria, foi avisado por seus colegas da zona do euro de que o plano orçamentário da Itália ferem as regras do bloco. O comissário de Assuntos Econômicos, Pierre Moscovici, disse que o plano representa “um desvio muito significativo com relação ao compromisso assumido”.
A declaração provocou uma resposta irada de Di Maio, que acusou Moscovici de “criar terrorismo nos mercados”. Tria insistiu em que os planos do governo promoveriam um crescimento de 1,6% na Itália no ano que vem, o que manteria as finanças públicas sob controle.
Para o analista político Wolfango Piccoli, da consultoria Teneo Intelligence, essa meta de crescimento é otimista. Ele estima uma tendência de crescimento em torno de 1,1%.
Há vários anos a economia da Itália tem exibido um crescimento bem inferior ao de muitos outros países da zona do euro. O desemprego também continua relativamente alto, em 9,7%.
Tria deixou de participar do encontro dos 28 ministros de Finanças da UE ontem para voltar a Roma e trabalhar no orçamento, que deve ser submetido a Bruxelas até a segunda quinzena do mês.
Em Luxemburgo, o vice-presidente da Comissão Europeia, Valdis Dombrovskis, manteve a pressão sobre a Itália, observando que o país tem sido um das principais beneficiários de regras que permitem mais flexibilidade.
“As discussões sobre o plano de orçamento parecem caminhar numa direção muito além dessa flexibilidade”, disse Dombrovskis. “É um fato que a Itália tem a segunda maior relação entre dívida e PIB da UE, atrás apenas da Grécia, e os custos mais altos do serviço da dívida na UE. É importante que a Itália mantenha uma política fiscal e macroeconômica responsável até para manter as taxas de juro em níveis aceitavelmente baixos.”
A comparação com a Grécia também foi feita pelo presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker. “Uma crise foi suficiente”, disse na segunda-feira, durante um evento em Freiburg (Alemanha). “Depois da mais difícil gestão da crise da Grécia, temos que fazer de tudo para evitar uma Grécia, desta vez uma crise da Itália.”
O comentário enfureceu os líderes italianos. “O presidente da Comissão Europeia, Jucker, ao igualar a Itália à Grécia, enlouqueceu os spreads [de risco]. Ele poderia ter nos poupado disso”, afirmou ontem o ministro do Interior e líder da Liga, Matteo Salvini. “Ele devia beber dois copos de água antes de abrir a boca e parar de espalhar ameaças inexistentes”, continuou. “Eu só falo com pessoas sóbrias que não fazem comparações que não têm pé nem cabeça.”
O governo da Itália anunciou na semana passada que aumentaria os gastos no ano que vem para cumprir promessas feitas durante a eleição deste ano. Pelos planos do governo, o déficit orçamentário do país subirá para 2,4% do PIB, apesar das promessas de mantê-lo abaixo de 2%. Embora ainda esteja dentro do teto de 3% estabelecido pelas regras da UE, o limite mais alto vai ampliar a dívida pública, que já é persistentemente alta.
Não está claro que medidas a UE pode tomar. A UE pôs a França em um “procedimento relativo a déficits excessivos” por quase uma década sem multá-la. E a Alemanha já teve episódios de ultrapassar o limite de deficit da UE, também sem multas.

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