China avança rápido no uso militar de Inteligência Artificial

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Havia mil deles pontilhando o céu à noite, flutuando graciosamente como se fossem lanternas chinesas, vermelhas, azuis e violetas. Foi a maior demonstração já vista de drones voando em formação, um espetáculo que entusiasmou a multidão reunida em Cantão, na China, para marcar o fim do Ano Novo Lunar chinês.
Apesar de ter o mesmo ar festivo de uma queima de fogos, o espetáculo dos drones, em fevereiro, foi citado duas semanas depois numa audiência no Congresso dos EUA sobre armamentos avançados chineses. Elsa Kania, ex-analista do Pentágono e especialista em tecnologia militar da China, referiu-se à performance como uma “demonstração de técnica de enxame” com claras aplicações militares, como mostrou matéria assinada por Henny Sender, publicada no Valor de 30/11.
A exibição dos drones foi uma ilustração perfeita dos avanços da China no desenvolvimento de “tecnologias de dupla utilização” – com aplicações tanto militares quanto civis. A China, assim como os EUA, está engajada no desenvolvimento desse tipo de tecnologia em áreas que vão de inteligência artificial e robótica a realidade virtual e edição de genes. São investimentos que podem render uma dupla recompensa: na área militar e na economia em geral. O Departamento de Defesa dos EUA, por exemplo, pode desenvolver tecnologias de voos não tripulados que beneficiem os militares, mas cujos avanços podem ser usados em drones do setor privado que algum dia vão entregar encomendas para clientes de comércio eletrônico. A transferência de know-how também pode fazer o caminho inverso: do setor privado para o militar.
Kania, pesquisadora do centro de estudos Center for a New American Security, disse na audiência no Congresso que as Forças Armadas chinesas querem usar tecnologias de dupla utilização, incluindo drones, inteligência artificial e automação, como “forças multiplicadoras” de seu poder militar. Se o Exército chinês dominar essas tecnologias, isso poderia alterar o equilíbrio militar na região da Ásia-Pacífico e intensificar a dor de cabeça na esfera militar para EUA, Japão, Coreia do Sul e aliados.
Enxames de drones são apenas o começo. Entre outros tipos de armas avançadas que vêm gerando preocupação no Pacífico estão bombas guiadas por laser, bloqueadores que interferem nas comunicações por satélite, armas de feixes de partículas e instrumentos de destruição eletromagnéticos e de micro-ondas. Richard Fisher, analista do International Assessment and Strategy Center, identificou lasers de fibra ótica chineses – tecnologia vital para satélites de combate com lasers – numa exibição neste ano em Abu Dhabi.
Pela primeira vez desde o fim da Guerra Fria, a supremacia militar dos EUA deixou de ser algo incontestável – um fato com implicações enormes para a economia dos EUA e suas alianças de segurança pelo mundo. Os avanços da China nessas tecnologias futuristas – e os esforços dos EUA para contê-las – terão efeito cascata em toda a Ásia. A crescente tensão regional pode levar o Japão a reconsiderar sua posição militar.
A Ásia beneficia-se há anos de uma paz relativa, que possibilitou-lhe usar seus enormes reservas para a prosperidade da população, em vez de gastos com armas. Isso pode estar mudando.
Em 2016, Ash Carter, secretário de Defesa dos EUA no governo Obama, descreveu a Ásia como “a região mais importante para o futuro dos EUA”. “Será necessário que continuemos a ampliar nossa vantagem militar de forma que continuemos sendo a força militar mais poderosas na região e o parceiro preferencial de segurança”, disse, acrescentando que a China é de longe o “maior transgressor do princípio da não militarização.” Essa pouco notada corrida armamentista faz parte da competição tecnológica entre as duas maiores economias do planeta.
Novas tecnologias talvez deem características “silenciosas, intangíveis e não tripuladas às guerras do futuro”, segundo a edição mais recente do manual militar chinês “A Ciência da Estratégia Militar”. A China vem acelerando a pesquisa dessas opções militares, em parte devido a suas estimativas de como serão as forças militares dos EUA no futuro. Um estudo citado em 2016 pelo jornal oficial do Exército de Libertação Popular sugere que em 2040 os robôs e outros sistemas sem presença humana vão superar o número de pessoas nas Forças Armadas americanas.
Os conflitos de hoje cada vez mais acontecem no que o jargão militar rotulou de “zona cinza”. No passado, as guerras eram travadas entre governos ou grupos fáceis de se identificar e com motivações claras. Agora, agentes que não são Estados ou mesmo indivíduos podem lançar o que tradicionalmente seriam considerados atos de guerra, sem revelar quem são nem quais poderiam ser seus objetivos. Se um satélite militar de comunicações for hackeado, isso é um ato de guerra? E como um país pode retaliar se ninguém assume a responsabilidade pelo ataque?
Em fevereiro, um estudo chamado “China’s Technology Transfer Strategy” detalhou os riscos de que a China possa ter acesso às “joias da coroa da inovação dos EUA”. Feito pelo DIUx, braço do Departamento de Defesa dos EUA, o estudo descreve um futuro no qual as cadeias de abastecimento de serviços e equipamentos militares dos EUA estarão cada vez mais sob controle de empresas chinesas. Também diz que 10% dos investimentos recentes chineses foram direcionados a empresas de tecnologia dos EUA e que isso é “apenas uma parte de uma história maior de transferência em massa de tecnologia dos EUA para a China que está em curso há décadas”.
Muitas das inovações americanas em tecnologias de dupla utilização foram compartilhadas com empresas chinesas, alerta o DIUx. A China também vem investindo pesado para alcançar os concorrentes em robótica. Historicamente, os principais fabricantes de robôs incluem nomes como a Fanuc, do Japão, a suíça ABB e a Kuka, empresa alemã recentemente adquirida pela chinesa Midea. Entre os possíveis concorrentes na China estão a Shanghai Siasun Robot & Automotation, que foi criada a partir da Academia Chinesa de Ciências, segundo Henrik Christensen, diretor do Contestual Robotics Institute e professor de ciência da computação na Universidade da Califórnia, em San Diego.
Ironicamente, um motivo pelo qual a China obteve avanços tão impressionantes é justamente por ter adotado um modelo que vem sendo negligenciado nos EUA, onde as Forças Armadas tiveram por muito tempo laços próximos com universidades e empresas privadas. Além disso, enquanto o financiamento à ciência vem sendo alvo de frequentes cortes de orçamento nos EUA, isso não ocorre na China.

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