O poder da reflexão I. Onde e quando nascemos (ou nasceremos)?

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Pedro de Santi
 
“O verdadeiro lugar de nascimento é aquele em que, pela primeira vez, se lança um olhar inteligente sobre si mesmo”
 
Para o TED x ESPM, que será gravado no dia 19/09, na ESPM.
 
Fui convidado para participar do evento, que terá como tema o poder da reflexão.       

Ao pensar sobre caminhos possíveis para tratar de um tema tão provocativo, veio-me à lembrança quase que literalmente a citação acima. Ela vem de um livro que li há cerca de 30 anos: “Manual de pintura e caligrafia”, de José Saramago. Escrito em 1977, ele é menos conhecido e anterior à série memorável de romances que o transformou num dos autores mais conhecidos da língua portuguesa.

Saramago, por sua vez, extraiu a frase do romance histórico “Memórias de Adriano” (1951), de Marguerite Yourcenar.

Já estamos no campo da reflexão, e de várias formas. O termo ‘reflexão’ significa dobrar-se ou curvar-se sobre algo. A citação relaciona o verdadeiro nascimento de uma pessoa à aquisição de consciência reflexiva de si: nascemos de verdade onde nos desdobramos de um eu que age a um outro que lança um olhar inteligente sobre si.  Assim sendo, nascemos de uma cisão irremediável: ao examinarmos a nós mesmos, transformamo-nos; o que exige novo exame, que levará a uma nova transformação, e assim por diante.

Em minha memória já distante da leitura do romance, lembrava da frase dizendo que nascemos ‘quando’ lançamos um olhar inteligente sobre nós. Mas talvez em meu lapso haja também este emaranhado de espaço e tempo no qual nos situamos.

No livro de Saramago, ele exercita a escrita com o pressuposto de que tudo o que escrevemos seja autobiografia. Em busca de uma escrita própria, copia textos biográficos de vários autores, colocando-se em seus lugares. Surge então outra figura da reflexão; Yourcenar se debruça sobre a vida do imperador romano Adriano e Saramago, então, debruça-se sobre a obra de Yourcenar. Cada leitor de Saramago é, por este expediente, convidado a ingressar na série reflexiva, aprendendo sobre si através do outro da linguagem. E neste caso, em ótima companhia.

No desenvolvimento da reflexão de Saramago, ele então se pergunta:

“Onde nasci eu, pintor, calígrafo, nado-morto, enquanto não estiver decidido onde, quando e se um olhar inteligente foi lançado sobre mim mesmo?”

A reflexão se desdobra em dúvida: já não se poder saber com certeza sequer ‘se’ nascemos, naquele sentido. Ecos de Descartes, nas “Meditações Metafísicas” (1641): se eu duvido, devo admitir não ser um ser perfeito, que se encerra em si. Disto, Descartes deduziu a existência de Deus. A reflexão nos lança à consciência de nossas imperfeições, finitude e abertura para um outro (transcendente ou humano). A autoconsciência traz consigo a consciência de nossa mortalidade. Então Saramago diz que nem bem nascemos, já estamos a caminho da morte. Esta é a referencia a ser “nado-morto” na citação acima. Flerta-se aqui também com a filosofia existencial.

Relendo o texto e sobre ele refletindo agora, na faixa dos 50 anos, reparo então que posso ter me precipitado em seu entendimento quando o li pelos 20. Passou-me então desapercebido que Saramago usa um sujeito indefinido para aquele que lança o olhar inteligente: na primeira citação “se lança”, na segunda “foi lançado”. Abre-se então outro campo de possibilidades de leitura; o de que o olhar inteligente seja lançado desde um outro, como condição que dispara em nós nosso nascimento. Outro do cuidado? Outro do desejo? Outro que se reflete sobre nós e sobre quem  os refletimos?

A reflexão nos condena a um exílio da experiência ingênua e nos ensina que não nos encerramos em nós mesmos. Auto-insuficientes, aqueles que, mitologicamente, provaram no fruto da árvore do conhecimento e se tornaram mundanos.

Encerro com a terceira versão do enunciado, por Saramago;
“Que é o tempo para quem neste exacto momento morre, sem ter sabido, pelo poder do entendimento, onde nasceu?”

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