Engajamento instrumental e o esforço emocional demonstrado

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Victor de la Paz Richarte Martinez

O papel das emoções no trabalho é um campo de longos debates, discussões, estudos e aprendizados. Facilmente compreendido quando se lê, revela-se prova de fogo àqueles que lidam com gente todo dia. Sabe aquela máxima de que na prática, a teoria é outra? Entra na cena organizacional a humanidade, com suas emoções, humores, sentimentos, personalidades e atitudes tão imprevisíveis como qualquer outra relação entre pessoas.
O funcionário, na perspectiva clássica da Administração, deveria ser controlado sistematicamente, o que implicava em supervisão, correção e coação para o bom andamento das operações e aumento da produtividade. Ele era quase uma tábula rasa que deixava as emoções na porta de entrada. Mas isso era pensamento dos idos de 1900. 1900?
Num mundo conexionista, como cunham Boltanski & Chiapello (2009) em que pessoas e organizações estão conectadas e imbricadas exponencialmente, estar fora é não pertencer a um grupo. Assim, o funcionário precisa demonstrar emoções e humores compatíveis ao que o grupo social convencionou como esperadas e corretas e lidar com as próprias dissonâncias cognitivas e emocionais para não ser descartável e descartado:

  • Sente-se entediado, mas precisa demonstrar alegria;
  • Gostaria de expor ideias novas, mas sabe de represálias de quem divergiu;
  • Ouve em treinamentos e comunicação corporativa que deve ser engajado e proativo, mas toda ação deve receber aval do supervisor para prosseguir;
  • Deve colaborar para o sucesso da equipe, mas a avaliação é individual;
  • Propaga-se a meritocracia por resultados, mas é promovido quem conhece a pessoa certa na posição certa;
  • Deve ser criativo, inovador e empreendedor, mas os erros não são tolerados;
  • Etc etc etc.

Essas e muitas outras situações comuns na vida corporativa demandam o esforço emocional demonstrado em que a pessoa “precisa evidenciar” um humor para não ser do contra, não deixar o clima ruim, não prejudicar a imagem da empresa. Tem aí uma cilada para quem não reflete sobre o papel das emoções. Por não levá-las a sério, esquece-se que são elas que podem abrir acesso a racionalidade para melhorar situações problemáticas e auxiliar a compreensão do mundo e dos fatos.
Para não sofrer tanto ou mesmo alienar-se desse sentimento, algumas pessoas recorrem ao que costumo chamar de engajamento instrumental: aquela pessoa simpática, sempre sorridente, com discurso de positividade, que distribui charme para encantar a distinta plateia, mas que na primeira oportunidade, boicota grupo, trai pessoas e abre informações para a concorrência. Repito, é preciso levar a sério o papel das emoções no trabalho. Como estudos apontam, a emoção é contagiosa. Quem não passou pela experiência de estar de mau humor e entrou em um ambiente amistoso, relaxado e começou a se sentir melhor? Mas isso é totalmente diferente da emoção instrumental, demonstrada, artificial. Estamos falando aqui de emoção sentida e de congruência interna e de como os humores afetam o ambiente.
Isso me lembra uma empresa cujo lema era “aqui todo mundo é feliz, aqui é uma empresa feliz”. Para fazer jus a esse slogan e na ânsia de gerir emoções, todo o dia o “líder” passeava pelo escritório perguntando se a pessoa estava feliz. Ai daquele que não dissesse: SIM! Era questionado sobre o que a empresa poderia fazer para ele mudar aquele sentimento, afinal, nesta empresa todos devem ser felizes!
Imaginou trabalhar num lugar desses?

Prof. Dr. Victor de la Paz Richarte Martinez – Psicólogo Organizacional, Pesquisador sobre Gestão de Pessoas, Diversidade e Sustentabilidade Humana nas Organizações. Supervisor do Laboratório de Recursos Humanos da ESPM.

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