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Sudão e Argélia apontam uma nova primavera árabe em gestação

Omar al-Bashir usou todos os truques do manual do ditador em sua batalha para se manter no poder, antes de ser finalmente derrubado por seus próprios militares.
Durante meses de protestos, o presidente sudanês impôs o estado de sítio, colocou agentes de segurança para governar os Estados, prometeu diálogo nacional e ordenou aos soldados que disparassem contra manifestantes que exigiam o fim de seu regime de 30 anos.
Mas o povo sudanês continuou tomando as ruas em grande número, deixando de lado o medo do regime autocrático para descarregar seu ódio contra anos de um regime opressor e dificuldades econômicas. Ontem, Bashir tornou-se o segundo líder árabe no mês a ser destituído; nove dias antes, os militares argelinos acabaram finalmente com o reinado de 20 anos de Abdelaziz Bouteflika.
Os dois casos são distintos. Por um lado, o Sudão tem um pé no mundo árabe e outro na África subsaariana; sua população fala a língua árabe e os mais ricos têm acesso a redes de TV pan-árabes; mas ele tem grandes laços comerciais com o leste da África e, até a secessão do Sudão do Sul, seu território se estendia até as florestas e savanas do coração do continente.
Por outro lado, o catalisador do levante popular na Argélia foi a decisão afobada do regime de tentar impor Bouteflika ao seu povo por um quinto mandato, apesar do octogenário de saúde debilitada não falasse em público havia seis anos. Os protestos nesse Estado do norte da África também têm sido predominantemente pacíficos.
Mas há temas comuns que vão reverberar no mundo árabe e devem servir de alerta para os líderes da região em suas avaliações sobre esses dois acontecimentos importantes. No centro dos protestos está a profunda sensação de desencanto das populações jovens em uma região repressora destruída por taxas de desemprego de proporções catastróficas.
Foi esse ódio que desencadeou os levantes populares que abalaram a região em 2011. Muitos viram a chamada primavera árabe como um fracasso. Conflitos irromperam na Líbia, Síria e Iêmen e até hoje continuam infligindo miséria a milhões de pessoas, enquanto muitos governos árabes reagiram se tornando mais opressores em sua tentativa de aniquilar o menor sinal de discordância.
Líderes também têm usado os exemplos da Líbia e Síria para instigar o medo em suas populações e alertar contra a mobilização. Mas o Sudão e a Argélia vêm mostrando que populações raivosas nem sempre serão intimidadas.
Especialistas vêm alertando há anos que as causas dos levantes de 2011 não foram abordadas. Em vez disso, uma tampa se equilibra precariamente sobre uma panela em fogo brando.
Durante anos, os autocratas árabes se fiaram em “contratos sociais” para manter a estabilidade – usando uma política de benefícios bancados pelos petrodólares em troca de uma liberdade política limitada. Mas com os governos enfrentando dívidas crescentes, aumento dos déficits e populações jovens cada vez maiores, esses contratos estão se desfazendo.
Subsídios aos alimentos, energia e combustíveis vêm sendo cortados através da região, elevando o custo de vida enquanto a taxa de desemprego entre os jovens dispara. O mundo árabe tem a maior taxa de desemprego entre os jovens, com cerca de 30% daqueles que têm entre 14 e 24 anos fora do mercado de trabalho.
O resultado é que as famílias estão sendo solicitadas a fazer sacrifícios ainda maiores, com liberdades políticas mínimas. E uma geração mais bem educada e mais informada de jovens árabes, armada de smartphones e cheias de inspiração, está desesperada por sistemas mais equitativos e perspectivas econômicas melhores.
É um ambiente volátil que tem provocado protestos em escalas variadas na Jordânia, Marrocos, Egito e Tunísia nos últimos anos, conforme o sentimento de injustiça das pessoas com sua marginalização política por regimes corruptos, é exacerbado por medidas de austeridade.
As pressões sociais só vão aumentar. O Banco Mundial prevê que se as atuais tendências demográficas persistirem, o Oriente Médio e o norte da África terão de criar mais de 300 milhões de empregos até 2050. Para manter o bônus demográfico da região, ela terá de “criar imediatamente” mais de 10 milhões de empregos por ano, alerta o Banco Mundial.
Está claro que os governos têm poucas escolhas a não ser levar a cabo, tardiamente, reformas econômicas, pois seus modelos tradicionais estão cada mais insustentáveis. Mas sem reformas políticas e a criação significativa de empregos, há o risco real de os governos simplesmente lançarem as sementes da próxima primavera árabe.
O teste imediato será como os militares vão proceder no Sudão e na Argélia. Se eles não conseguirem atender as demandas de seus povos e simplesmente buscarem preservar os regimes odiados, só estarão guardando mais problemas para o futuro.

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