Ranking do Alibaba avalia amigos de clientes

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Em Shenzhen, cidade que faz fronteira com Hong Kong no sul da China, a dona de uma barraca de salada de frutas no movimentado bairro de Luohu não esconde a irritação com quem tenta entregar moedas de yuan. Nos últimos anos, o pagamento com celular, usando os aplicativos Alipay e WeChat Pay – operados pelas gigantes Alibaba e Tencent, respectivamente –, transformou o país num lugar onde moedas e cédulas são raras. É essa economia digital que está formando as bases para o governo desenvolver o Sistema Nacional de Crédito Social.
Hoje, o Alipay tem 450 milhões de usuários, enquanto o WeChat Pay, seu principal concorrente, tem mais de 1 bilhão de usuários. Os dois sistemas permitem pagar por compras ao fotografar códigos QR afixados aos produtos. Informações de usuários desses serviços já são acessados pelo governo chinês constantemente – embora as empresas e o governo chinês neguem isso. Mas, agora, as gigantes também estão ajudando a testar as tecnologias necessárias para tornar o Sistema Nacional de Crédito Social realidade. Elas estão entre as oito empresas que receberam autorização do governo para testar a tecnologia no país.
“Antes do lançamento nacional, o governo está observando e aprendendo com os algoritmos criados pelas empresas”, explica Rachel Botsman, estudiosa do sistema chinês. “Embora não haja indicativo de que elas serão responsáveis por administrar o sistema oficial, o governo deve usar os dados coletados por elas nos últimos anos.”
Foi pelas mãos do Alibaba que surgiu a experiência mais popular de ranking social até agora: o Sesame Credit (na China, conhecido como Zhima Credit), um recurso do aplicativo Alipay. Ele gera pontuação entre 350 a 950, conforme hábitos de consumo, histórico de crédito, nível de educação, registros financeiros e até amigos e familiares.
O Sesame Credit já tem 520 milhões de usuários e a participação é voluntária. Nas principais cidades chinesas, o sistema oferece vantagens para quem tem pontuação alta. Para ganhar pontos, é preciso fazer pagamentos online, investimentos, se conectar com pessoas com altas pontuações e evitar o contato com usuários que tenham notas de crédito baixas.
“O aplicativo não monitora postagens nas redes sociais e não pretende medir caráter”, afirmou Hu Tao, gerente do Sesame Credit, em artigo publicado no jornal Financial Times no fim de 2017. Procurada pelo Estado, a Alibaba não respondeu aos pedidos de entrevista.
Os benefícios para quem tem notas altas incluem isenção de pagamento de depósitos em aluguéis ou passagens aéreas em categoria superior. Em Guangzhou, no sul da China, já existem hospitais que permitem que pacientes com boas notas paguem por atendimento só depois do tratamento.
Ainda não está claro quais atividades implicam na redução da posição no ranking. Mas autoridades chinesas já estão criando listas de devedores e de pessoas que não cumpriram ordens judiciais. Elas são punidas com restrições de viagens e até mesmo impedidas de ocupar cargos altos em companhias.
Evolução. O governo chinês ainda não informou como a pontuação de uma pessoa no Sesame Credit influenciará a nota no ranking social do governo, que funcionará a partir de 2020. Além do setor privado, há testes em andamento em cidades, como Rongcheng, desde 2013. Os 700 mil adultos dessa cidade têm pontos descontados quando infringem a lei.
Nesse cenário, é quase impossível enxergar um limite para a invasão de privacidade. “Se o governo chinês estiver pedindo às empresas chinesas que liberem os dados dos usuários para seu ranking funcionar, é improvável que estabeleçam limites para coleta dos dados”, afirma Lim May-Ann, diretora da Asia Cloud Computing Association e professora da Universidade Nacional de Cingapura. “O governo pode ver qualquer resistência em compartilhar informações como ‘hostis’, o que pode levar a sanções às empresas.”

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