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Paris e a aliança

A Otan (Organização Tratado do Atlântico Norte) está reunindo todos seus membros em Londres para o 70.º aniversário da aliança atlântica. Quando a Guerra Fria terminou, o filósofo da Casa Branca, Francis Fukuyama, anunciou que o mundo entrava em uma nova era profetizada no século 19 pelo filósofo Friedrich Hegel: o “fim da História”. Estava aberto o caminho para que desabrochassem a democracia, a paz universal e as sociedades liberais. Sem mais tensões e fúria, sem mais guerras.
No lugar disso, a felicidade. Naquele dia, porém, Fukuyama, que é um bom filósofo, teria feito melhor se ficasse calado. Desde 1990, ou seja, desde “o fim da História”, as guerras, as revoluções, os golpes, as microtiranias, tumultos, intolerâncias, o caos, as ansiedades, a miséria, longe de desaparecer, prosperaram. Europa, África, Ásia, América continuam lindos, mas cheios de bestas ferozes. A tal ponto que um humorista pôde escrever: “Dê-nos a nossa velha Guerra Fria, pois ela deu fim às pequenas guerras quentes.”
A celebração dos 70 anos da Otan nada tem de gloriosa. Não só não trouxe paz e felicidade ao mundo, como os confrontos causaram estragos no interior da própria aliança. A Turquia é um membro essencial, um país poderoso, dotado de formidável Exército e ocupa um centro nevrálgico na transição entre Europa e Ásia. Mas o presidente Recep Erdogan decidiu, sem avisar a Otan, atacar os curdos que haviam lutado ao lado da aliança na longa guerra contra o Estado Islâmico. Emmanuel Macron criticou e Erdogan respondeu com desprezo: “Macron é um amador”, disse o turco.
É claro que Macron estava certo, mas ele respondeu com virulência desnecessária. Esse é o “pecado venial” de Macron. Suas análises são sólidas e razoáveis. Mas ele as expressa sem tato, tentando atingir o outro. Dia desses, Macron se voltou contra a Otan. Aqui também, seu diagnóstico estava correto. Mas ele achou inteligente expressá-lo com uma fórmula insultuosa. “A Otan está em estado de morte cerebral.” A fraqueza de Macron está aí: o diagnóstico é exato, mas é expresso com uma violência não apropriada entre países amigos.
A Otan desempenhou um papel benéfico na proteção dos países da Europa contra os desejos predatórios da URSS. Então, começou a declinar ou até cometer grandes erros, por exemplo, a guerra estúpida contra a Líbia, de Muammar Kadafi, ditador, mas que protegia o Ocidente do maléfico avanço do jihadismo. Hoje, é toda a África que se confronta com o horror extremista. A Otan está inerte e muda. 
Apenas os soldados franceses tentam impedir que a região do Sahel se torne, após o fim do EI no Iraque e na Síria, um novo refúgio para assassinos. Macron analisou bem. Mas sua voz não se impõe tanto quanto há um ano. Se alguém fizer um balanço de sua ação em política externa, é obrigado constatar um fracasso. Ele havia iniciado seu mandato, há dois anos, com um hino à concórdia, à união, e com a meta de ouvir os outros. Ele não obedeceu a tais resoluções. Arruinou grandes oportunidades.
Ele contava com Angela Merkel para revitalizar a União Europeia, que precisa urgentemente disso. Mas suas vaidades caíram sob a austera chanceler alemã. Renovar a UE graças à amizade franco-alemã, meta tão querida de Macron, não está mais na agenda. Merkel não perde uma oportunidade de contradizer o francês.
Apesar de tantas falhas, Macron não se acalma. Ele tem outros projetos. Primeiro, gostaria que a Europa parasse de tratar Putin como uma vítima da peste. Mais uma vez, ele está certo. É estúpido demonizar Putin. Grande parte da opinião pública europeia compartilha dessa análise. Finalmente, Macron conseguirá moldar um grande projeto diplomático? Integrar a Rússia à esfera europeia, em vez de deixar Moscou se aproximar da Ásia?
Novamente, o diagnóstico de Macron está correto. Mas será que ele conseguirá esquecer sua arrogância, seu hábito de distribuir aos outros “pontos positivos”, de nocautear seu público com discursos inteligentes, sutis, mas pedantes, pretensiosos e narcisistas?

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