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Jornalismo de humor

As pessoas se perguntam como os britânicos e seus jornalistas conseguem suportar o ridículo, a monotonia e a inutilidade dessa pobre novela do Brexit. A resposta é clara: eles não a suportam. Mas os jornais do Reino Unido têm um antídoto que faz maravilhas e ajuda as pessoas a engolir um xarope insosso e interminável.
Esse antídoto é composto e gerido por uma determinada categoria de jornalistas que não existe em nenhum outro país do mundo: os chamados “sketch writers” parlamentares. Somente cinco jornais possuem esse tipo de jornalista, mas entre os mais prestigiados estão The Guardian, The Times, Daily Mail, Daily Telegraph e The Independent. É preciso ler a revista Courrier Internacional para se ter uma ideia da arte do sketch. Não é nada delicada, mas faz empresários, proletários, estudantes e vovós gargalharem.
Comecemos pelo Daily Telegraph: “Nigel Farage está com aquele sorriso e os olhos saltados que o fazem parecer um sapo tramando uma maldade. Theresa May parece uma estátua de cera em plena depressão. Quanto a Boris Johnson, diríamos que é um Bobtail (uma raça de cão inglesa conhecida por seu pelo longo que esconde seu rosto e o seu ar estúpido) que parece ter derramado sobre a cabeça um escorredor cheio de espaguete. É esse o tipo de imagem apresentada. Gostemos ou não. Eu diria que é “um pouco pesado”, mas não sou inglês.
Mas a função do jornalista parlamentar não é atual. Dickens, o maravilhoso autor de As Aventuras do sr. Pickwick e uma vintena de obras-primas com frequência cômicas, também foi, na sua juventude, um jornalista parlamentar e sua verve deliciava os britânicos. Mas, na época, fazer piada estava fora de questão. Não se brincava com Westminster.
Foi pouco a pouco que os sketch writers puderam falar da vida política e debochar dela. Deste ponto de vista, o Brexit foi uma oportunidade. O Guardian é ácido: “Johnson acabará conseguindo validar seu acordo, mas vai ter de esperar. Será obrigado a explicar que seu acordo “de merda” não é “de merda”. Não é justo. A resposta de Jeremy Corbyn, líder dos trabalhistas também foi tão decepcionante como de hábito. Nós temos um Parlamento de asnos dirigido por tartarugas”.
O plebiscito sobre a permanência do Reino Unido na União Europeia foi uma divina surpresa para todos os humoristas britânicos. Uma era de ouro. Mas, por vocação, um sketch writer nunca está contente. E, há algumas semanas, eles adorariam que o naufrágio do Reino Unido nas águas tenebrosas enfim se concretize. Pois o espetáculo é inútil, muito chato.
Mas há uma razão pior: com os anos, os políticos acabaram aprendendo o trabalho dos sketch writers. E, dizem os humoristas, os próprios políticos estão exercendo o nosso trabalho. Para serem ridículos não precisam que os jornalistas os emporcalhem. Eles mesmos dão conta disso sem perceber. Seus discursos são tão fracos, vazios e idiotas que os sketch writers não têm nada a acrescentar. Parlamentares e ministros encarregam-se do trabalho todo. Não se pode mais trabalhar nestas condições. 
Nós, os humoristas, temos de mover uma ação na Justiça por concorrência desleal. Temos de reconhecer que eles aprenderam rápido a função. Sem ajuda técnica, eles proferem discursos tão nulos como aqueles que nós os acusamos de fazer. Eles são a caricatura deles mesmos. E o que será de nós, os humoristas? Um jornalista do Independent escreveu: “Há alguns anos, os políticos não necessitam mais do humorista para fazer as pessoas rirem. Eles se encarregam disso muito bem”. Gilles Lapouge, O Estado de S.Paulo

https://internacional.estadao.com.br/noticias/geral,jornalismo-de-humor,70003064085

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