Investimentos chineses fluem para a Europa

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A China cresceu o olho sobre a Europa. Os investimentos chineses no continente saltaram em 2016 para US$ 40 bilhões – quase o dobro do ano anterior. Investimentos estrangeiros diretos da China caíram em 2017, mas a cota destinada à Europa aumentou de um quinto para um quarto do total. 
Em geral, esse dinheiro é bem-vindo: as relações comerciais entre Europa e China enriqueceram os dois lados. Entretanto, a China vem usando seu peso financeiro para alavancar a influência política. O presidente checo, Milos Zeman, já sugeriu que seu país seja “o porta-aviões insubmersível” da China na Europa. No ano passado, em um fórum da ONU, a Grécia instou a União Europeia (UE) a não mais criticar a China por violações de direitos humanos. Hungria e Grécia impediram a UE de apoiar uma ordem judicial contra a reivindicação territorial chinesa no Mar do Sul da China. Frente a tais manifestações, os europeus têm razão de se sentir inquietos. 
E não só os europeus. O modo como a superpotência não democrática conduz seus investimentos no exterior diz respeito a todos os países – particularmente se outros setores, como política externa, forem afetados. Os americanos, cada vez mais temerosos de que a China se torne uma ameaça comercial e militar, deveriam ficar atentos à competição chinesa pela lealdade de seus antigos aliados.
Para o bem geral, seria bom que os europeus moderassem um pouco suas boas-vindas à China. Mas até agora não estão fazendo isso. 
Muitos dos planos da China para a Europa são exatamente o que se esperaria de uma economia em ascensão. Alguns investimentos chineses são privados e visam apenas ao lucro, podendo ser considerados inofensivos. Também adquirir tecnologia por meio da compra de empresas inovadoras, incluindo pequenas e médias empresas alemãs, é razoável, desde que os contratos sejam submetidos a escrutínio para prevenir riscos à segurança nacional.
Há ainda coisas que a China, ao contrário da Rússia, não deseja, como enfraquecer a a UE ou semear o caos apoiando veladamente partidos populistas e xenófobos. Ela prefere que a Europa continue estável e aberta aos negócios. E, em assuntos como clima e comércio a China vem sendo mais responsável que o governo Trump, ao defender acordos globais em lugar de torpedeá-los. 
Alguns europeus têm usado essa argumentação para sugerir que a China é um oportuno contrapeso ao imprevisível Tio Sam. É um equívoco. A Europa tem muito mais em comum com os Estados Unidos que com a China, embora muitos europeus possam não gostar do atual ocupante da Casa Branca. Além disso, a China tem usado a seu favor a exigência de unanimidade que a UE estabeleceu para tomar muitas de suas decisões aliciando países-membros para vetarem declarações ou decisões que contrariem interesses chineses – como na questão dos direitos humanos.
Outros europeus, porém, se agarram a tais argumentos para chegar a conclusões opostas. Eles temem que a investida da China na UE venha a abalar a aliança militar da Europa com os Estados Unidos. Felizmente, essa possibilidade está muito distante, como mostraram as Marinhas da França e Grã-Bretanha ao se unirem aos Estados Unidos e Japão para desafiar Pequim no Mar do Sul da China. Assim, até que a China se torne uma democracia, ou não havendo indícios nesse sentido, a Europa seguramente continuará próxima de seus aliados tradicionais.
A Europa, no entanto, precisa escolher um caminho que evite os extremos da ingenuidade e da hostilidade. Ela não deve copiar o protecionismo chinês. Pode até parecer “justo”sujeitar empresas chinesas na Europa a restrições semelhantes às que empresas europeias sofrem na China, mas seria um erro: a permeabilidade das sociedades e economias europeias a ideias e influências é uma das forças do continente. 
No entanto, essa abertura também deixa a Europa mais vulnerável. Consequentemente, governos europeus vem avaliar caso a caso as propostas chinesas de investimento. Assim, Montenegro não deveria ter permitido que sua dívida com a China se tornasse tão perigosamente alta, e Hungria e Polônia deveriam ter avaliado melhor certos projetos chineses de infraestrutura cujos custos sem mostraram desproporcionais aos benefícios proporcionados. 
Os europeus poderiam, por exemplo, criar novos controles para tornar mais claro quem está comprando ações de determinada empresa europeia e se isso é feito com transparência. Deveriam também cobrar mais transparência de seus partidos políticos, universidades, centros de estudos e lobistas. O dinheiro chinês às vezes compra, nada sutilmente, opiniões favoráveis, levando até instituições de prestígio a restringirem suas críticas. 
E a Europa também deveria se empenhar em falar a uma só voz. Nenhum país europeu pode sozinho fazer frente à China, mas, atuando juntos, eles teriam mais força. A UE poderia, por exemplo, usar o critério de maioria qualificada ao votar sobre temas sensíveis à China, como direitos humanos.
Isso não se aplicaria a tudo – a maioria das nações europeias hesitaria em dar a Bruxelas poder de veto sobre movimentação de suas forças militares. Mas a maioria qualificada dificultaria que a China paralisasse a UE negociando isoladamente com países menores. A UE deveria também coordenar o processo de triagem de investimentos em seus países-membros. E deveria cuidar melhor dos países europeus do Sul e do Leste, particularmente vulneráveis à influência chinesa, acenando-lhes com fontes alternativas de investimentos para projetos que julguem importantes. Um pouco mais de solidariedade interna talvez rendesse muito. 
O que o dinheiro não pode comprar
Os Estados Unidos também têm um papel a desempenhar. Seria bom se o governo Trump parasse de tratar os europeus como passageiros clandestinos do poder americano, que merecem ser expulsos a pontapé. No comércio, especialmente, a UE é um poderoso aliado potencial com vistas a fazer com que a China cumpra normas globais.
Os EUA também deveriam trabalhar mais de perto com governos europeus para o estabelecimento de padrões comuns de transparência, combate à corrupção e prevenção do tráfico de influência – o que dificultaria à China impor suas regras a países menores. Numa época em que a tecnologia da informação e a inteligência artificial estão sob risco de ficar sob controle da China e dos EUA, a Europa pode ajudar a encontrar uma via intermediária. 
Com a ascensão da China, os benefícios para o mundo de uma Europa aberta e livre só podem aumentar. Inversamente, uma Europa enfraquecida e dividida pelo regime autoritário mais poderoso do mundo pode extrapolar seus problemas para muito além de suas fronteiras. Os europeus não devem permitir que isso aconteça.

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