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Há 20 anos, Napster atropelou a indústria da música

No hit “1999”, lançado em 1982, o americano Prince cantou que festas não foram feitas para durar eternamente. Para o mercado da música, a canção de tom profético virou realidade às vésperas da virada para o século XXI. Em 1999, a indústria fonográfica viveu um pico histórico de faturamento, com o auge da venda de CDs. O novo milênio despontava com otimismo – mas a ressaca foi forte: os números de gravadoras e artistas desidrataram na década seguinte e demoraram a se recuperar. Até hoje, mesmo com novo fôlego dado por serviços de streaming, há quem duvide que se retorne àquele patamar. E a culpa é do Napster, primeiro programa de compartilhamento de arquivos mp3, lançado em junho de 1999. 

Antes do Uber alterar a percepção de mobilidade ou o Airbnb desafiar a indústria hoteleira, o Napster mudou a forma como as pessoas escutam seus artistas favoritos – para que comprar um CD com 15 faixas se apenas uma valia a pena? Melhor baixá-la na internet. Mais que isso: em uma época de conexões restritas, o programa foi para muita gente o primeiro sintoma do impacto que a internet poderia causar no mundo real. “Fomos o paciente zero”, diz Maurício Bussab, fundador da distribuidora de música Tratore. 

Ao contrário das startups de hoje, que já nascem com a palavra “disrupção” em seu DNA, o Napster não nasceu com pretensões financeiras. Nos dois anos em que esteve no ar, seus executivos bateram cabeça para encontrar um plano de negócios que pudesse agradar gravadoras e ouvintes. Eram outros tempos, como descreveu o professor de direito de Harvard Lawrence Lessig: entre os pioneiros da internet, no auge da bolha “ponto-com”, a inovação acontecia rapidamente porque não visava lucro rápido. Só visava existir.

Google do mp3
O cérebro por trás do Napster era um universitário de 19 anos: Shawn Fanning. Um moleque que passava dias em discussões de fóruns e espaços de bate papo na internet. Como outros garotos conectados da época, ele tinha dificuldades em achar arquivos mp3 das músicas que gostavam na web. Sua ideia era simples: criar uma espécie de “Google do mp3”. Uma ferramenta que listasse todos os arquivos do tipo disponíveis na internet. 

Com “alma hacker”, ele foi além: criou um programa que conseguia conectar diretamente os discos rígidos de computadores, permitindo que as pessoas trocassem os arquivos hospedados em suas máquinas. Era como gravar uma fita K7 para alguém próximo – só que de forma digital. Ao divulgar a ideia para um amigo virtual, Seth McGann, ele recebeu uma resposta enigmática. “Você sabe que isso vai mudar tudo, né?.” 

O programa ganhou fama no boca a boca, especialmente entre universitários americanos – beneficiados, claro, pelas redes de internet das instituições, um raro ponto de conexão na época. Em dois meses, o Napster – nome tirado de um apelido que Fanning usava nos fóruns online – bateu a marca de 100 mil usuários. O sucesso fez o rapaz largar a faculdade, mas despertou a ira da indústria fonográfica. Pouco depois do serviço completar seis meses no ar, a Recording Industry Association of America (RIAA) entrou com um processo por infração de direitos autorais contra o Napster. 
O caso só se encerrou em julho de 2001, com a desativação do Napster – na época, o programa de Fanning tinha 26,4 milhões de usuários. Algumas estimativas são mais otimistas: dizem que o serviço teve até 80 milhões de contas cadastradas ao longo de sua existência. O estrago já estava feito: programas semelhantes, e até mais sofisticados, como KaZaa, Limewire e eMule, substituíram a criação de Fanning.

Estrago
O download ilegal se tornou hábito corrente para os fãs de música – a ponto da Applecriar um dispositivo só para execução de mp3, o iPod, em 2001. A empresa só “corrigiu” seu caminho dois anos depois, quando lançou o iTunes, programa que foi desativado apenas na última semana e que permitia venda de arquivos digitais de música, com o apoio das gravadoras, com cada fonograma por US$ 0,99. Foi pouco eficaz: para muita gente, não valia a pena mais pagar. Em países como o Brasil, era ainda um valor proibitivo – especialmente por conta de questões como cartões de crédito internacional. A pirataria oferecia um serviço melhor para o usuário. 

“A indústria demorou demais a reagir. Depois, perdeu muito tempo tentando lutar contra”, diz a jornalista Fabiana Batistela, organizadora da Semana Internacional da Música (SIM) de São Paulo. Em vez de procurar oferecer algo melhor ao usuário, tratou-o como criminoso – nos EUA, houve casos de gente que foi parar na cadeia por baixar um mp3. “As coisas só mudaram quando a indústria passou a tratar a pirataria como concorrente e não como inimigo”, avalia Bussab. Um exemplo? Oferecer o acesso a uma grande biblioteca de músicas por um preço baixo, pago mensalmente pelo usuário.
 
Ele demorou a engrenar: o primeiro serviço de streaming da história, o Rhapsody, nasceu em 2002 e tinha 175 mil músicas. Estava longe de dar conta do catálogo das grandes gravadoras. Ao ver seu navio afundar, porém, as gravadoras perceberam que esse tipo de negócio poderia fazer sentido. Um deles nasceu na Suécia em 2008, pelas mãos de Daniel Ek, um empreendedor serial que já havia sido comandado outro serviço pirata, o uTorrent. Era o Spotify. 

Com o tempo, as gigantes de tecnologia também aderiram: hoje, Apple, Amazon e Google têm suas próprias plataformas de streaming. A ideia engatinhou em sua primeira década, mas hoje é a principal esperança da indústria. “Os últimos anos para a indústria da música foram incríveis”, diz Joel Waldfogel, professor de Economia da Universidade de Minnesota e autor do livro Digital Renaissance (ainda sem tradução). “As receitas cresceram substancialmente em razão do streaming pago.”

Punk para negócios
No entanto, ainda há dúvidas se o modelo é sustentável – hoje, o padrão do mercado é ceder 70% de suas receitas para os donos dos fonogramas, ficando só com 30% do que recebe com assinaturas e anúncios. Com 100 milhões de assinantes e capital aberto na bolsa de Nova York, o Spotify só teve lucro em dois trimestres. Outros serviços seguem operando no vermelho ou embutidos entre números positivos das gigantes de tecnologia. A esperança é de que, conforme ganhem escala, as perdas se tornem parte do passado. “Tem muita gente que ainda não paga nada por música, mas é questão de tempo”, aposta Bruno Vieira, diretor geral da Deezer no Brasil. 

Quanto aos músicos, são frequentes as reclamações de artistas que recebem apenas alguns centavos por suas reproduções nas plataformas digitais. Há quem diga que vai ser sempre assim: “O Napster acabou com a economia da escassez do mundo físico”, avalia Sérgio Branco, diretor do Instituto de Tecnologia e Sociedade (ITS). “Sem um suporte físico, não há mais cópias ou exemplares, então as remunerações tem que cair mesmo.” 

Mesmo com um cenário em aberto, até mesmo o Napster entrou na onda do streaming. Após a empresa original ter fechado suas portas, sua marca foi vendida e rodou pela mão de corporações – incluindo a varejista americana Best Buy. Desde 2011, está na mão da RealNetworks e tomou o lugar da marca Rhapsody como serviço de streaming. Hoje, tem 2,5 milhões de usuários e cobra mensalidade de R$ 16,90 pelo acesso a 62 milhões de canções. 

“Nosso foco é a parceria com marcas”, explica Márcio Kanamuru, vice-presidente para América Latina da empresa – entre os parceiros, estão Vivo, BMW e Sony. Nenhum rancor do passado? “As gravadoras são nossas grandes parceiras atualmente”, explica Kanamuru. É, hoje a festa é outra. Mas nem Prince poderia prever o destino do Napster: o punk dos anos 1990 que acabou com a festa de engravatados foi parar no escritório.

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