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Empresas dos EUA já buscam fornecedores fora da China

Num comício feito na região central da Pensilvânia na segunda-feira, o presidente dos EUA, Donald Trump, apresentou uma resposta fácil para as empresas americanas que se queixam do impasse nas negociações comerciais com a China e da escalada das tarifas sobre milhares de produtos que vêm do outro lado do oceano Pacífico.
“Aqueles que não quiserem pagar as tarifas têm uma solução simples: fabriquem seus produtos na América, tragam suas fábricas de volta para a Pensilvânia, que é onde vocês gostariam de estar mesmo”, disse o presidente americano.
Trump reforçou seus pedidos para que as empresas americanas abandonem a China e retornem suas linhas para os EUA – ou transfiram sua produção para outros países como o Vietnã – depois que a possibilidade de um acordo com o presidente da China, Xi Jinping, diminuiu nas últimas semanas. Mas muitas empresas americanas sabem que desfazer seus laços com a China não é tão simples quanto a Casa Branca pensa.
“Quando ouvimos a sugestão de que deveríamos fabricar nossos produtos nos EUA, ou algum outro país, como se você mudasse um interruptor, nós nos assustamos”, disse Matt Priest, presidente da Footwear Distributors and Retailers of America, um grupo de lobby do setor de calçados.
As companhias americanas vêm gradualmente reduzindo a dependência das importações chinesas nos últimos anos, porque os custos de produção, mão de obra e transporte aumentaram em comparação aos de outros países da Ásia. Uma década atrás, as fabricantes de calçados dos EUA traziam mais de 90% de seus produtos da China, mas esse número caiu para 69%.
Mas agora elas estão sendo forçadas a contemplar uma mudança muito mais abrupta para evitar sofrer as consequências das sobretaxas que as forçariam a subir os preços para os consumidores, ou, no pior cenário, demitir funcionários.
“Há uma razão para estamos na China hoje, que é por causa da enorme quantidade de mão de obra disponível no país, e o fato de todos os fornecedores de matérias-primas estarem na China”, diz Mike Jeppesen, presidente da Wolverine Worldwide, fabricante de calçados de Michigan. Quarenta por cento das importações de sua companhia vêm da China.
Num depoimento ao Congresso anteontem, o secretário do Tesouro, Steven Mnuchin, insistiu que os temores da indústria são exagerados e que ele havia acabado de conversar com o Walmart sobre o impacto das tarifas. “Muitos desses negócios serão transferidos da China para outros lugares da região, de modo que não haverá um custo”, disse Mnuchin, acrescentando que alguns produtos vão se beneficiar de isenções tributárias.
Na Câmara Americana do Comércio no Sul da China, em Guangzhou, Harley Seyedin, presidente da entidade, disse que a guerra comercial está convencendo executivos a apressar decisões que vinham sendo trabalhadas há algum tempo. “Agora as pessoas sabem que não podem colocar todos os ovos em uma única cesta.”
Nos últimos dias, várias companhias – incluindo da Ralph Lauren e a Xcel Brands, que controla marcas de produtos de consumo como Isaac Mizrahi e Judith Ripka – disseram que iniciaram ou intensificaram planos para transferir suas cadeias de fornecimento.
Bronwyn Flores, especialista em políticas de comunicação da Consumer Technology Association, cujos membros são importadores de produtos eletrônicos, disse que encontrar alternativas à China é agora uma “realidade”, mas também é “muito complicado e muito caro”.
As empresas passaram anos construindo boas relações com fornecedores, disse Flores. “Elas precisam contratar e treinar talvez 1 mil funcionários numa área que nunca produziu fones de ouvido antes e querem que seus produtos sejam os melhores do mercado.”
As pequenas empresas em particular poderão ter problemas para fazer mudanças rápidas porque “dependem da certeza decorrente do fechamento de contratos de muitos anos”, alertou Nydia Velázquez, democrata que preside a comissão de pequenas empresas da Câmara dos Deputados dos EUA.
Até mesmo um acordo entre Trump e Xi poderá não ser tranquilizador o suficiente para as empresas americanas continuarem produzindo na China.
“Um acordo terá contingências de execução e uma das coisas que mudou nos últimos 18 meses é que as empresas agora entendem que a ameaça das tarifas pode não ser só uma ameaça, e sim algo real – elas poderão ser retiradas, mas também poderão ser implementadas de novo”, disse Susan Lund do McKinsey Global Institute.
Uma pesquisa feita pela empresa de dados Panjiva junto a seus clientes, constatou que 50% deles já planejavam tirar a produção da China antes das tarifas, e que essa parcela cresceu para 82% após a implementação das tarifas.
Joshua Green, fundador da Panjiva, disse: “As pessoas reconheceram que eram dependentes da China, ficaram nervosas com isso e tentaram encontrar alternativas, mas descobriram que até onde podem, isso diz respeito a transferir parte do que elas fazem na China para outros países. Pegar tudo que você faz na China e mudar para outro lugar não é uma coisa realista.”
Seyedin observou que mesmo dependendo menos dos produtos chineses, as companhias americanas ainda continuarão a expandir suas atividades na China, que é um mercado em crescimento.
“A verdade é que nossas empresas continuam operando com sucesso na China, elas continuam tendo lucros substanciais, elas precisam continuar operando na China para manter e ganhar participação de mercado”, disse ele.
Quanto ao retorno para os EUA, Priest disse que a visão de Trump é um “sonho impossível” em seu setor, onde mais de 2 bilhões de pares de calçados são importados da China todos os anos. “A capacidade dos EUA se foi, a mão de obra qualificada necessária para a produção de calçados se encontra apenas em uns poucos enclaves,”
Os custos com a mão-de-obra nos EUA e o desafio de vende calçados “Made in USA” por meio de redes como o Walmart ou a Target, tornou isso difícil demais, acrescentou Priest. “Você não pode ter um calçado de US$ 300, que normalmente custaria US$ 120, com americanos dispostos a pagar esse preço.”

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