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Destruição de ciclone na África ressalta impacto das mudanças climáticas

O ciclone tropical que arrasou cidades em Moçambique e no Zimbábue é um exemplo de como a combinação de rápida urbanização e mudança climática está sendo mortal em algumas das nações mais pobres do mundo.
Uma semana após o ciclone Idai ter atingido a costa de Moçambique com ventos de 105 km por hora, as equipes de resgate ainda se esforçavam para tentar salvar pessoas isoladas pelas enchentes em torno da cidade portuária de Beira – uma das maiores do país. Ontem, o número de mortos havia saltado para 200. O presidente moçambicano, Filipe Nyusi, declarou estado de emergência e disse que o número de mortos pode ultrapassar 1.000. No Zimbábue, o saldo de vítimas fatais soma 100.
A Cruz Vermelha disse que 90% da cidade moçambicana da Beira, porto no Oceano Índico com 600.000 habitantes, foi destruída. Imagens aéreas mostraram bairros inteiros inundados e centenas de edifícios destelhados. As fortes chuvas devem continuar até amanhã, o que complica uma corrida contra o tempo para resgatar pessoas presas pelas enchentes.
“O dano é tão grave, porque as áreas afetadas são densamente povoadas”, disse Sergio Zimba, porta-voz da Oxfam em Moçambique. “Tais desastres são mais devastadores em áreas urbanas onde a infraestrutura básica está ausente”.
A tempestade e a destruição que o ciclone deixou em seu caminho renovaram as questões sobre como os países pobres com longas costas estão se adaptando às mudanças climáticas – e se o resto do mundo está ajudando o suficiente. Acordos climáticos globais, incluindo o Protocolo de Kyoto de 1997 e o Acordo de Paris de 2015, prometeram ajuda aos países em desenvolvimento para fortalecer a infraestrutura e outras tecnologias para proteger suas populações da elevação do nível do mar e outros efeitos das mudanças climáticas.
Mas o nível de financiamento e a rapidez com que os projetos são colocados em prática são insuficientes, especialmente à medida que as populações crescem nos países pobres, que se tornam mais urbanizadas. O Fundo Verde para o Clima foi criado pela Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima em 2009 para levantar US$ 100 bilhões por ano até 2020, para a adaptação e mitigação da mudança climática nos países pobres. Recebeu até agora apenas US$ 10,3 bilhões em promessas. Foram iniciados 102 projetos, dos quais 43 estão na África.
A cidade de Beira estava no meio de uma atualização de infraestrutura apoiada pelo Banco Mundial para fortalecer suas defesas contra inundações quando foi atingida pelo ciclone. A expansão dos assentamentos na cidade, muitos sem sistemas formais de eletricidade e saneamento, deixou 300 mil moradores em risco de desastres relacionados ao clima, alertou o Banco Mundial no ano passado.
Analistas dizem que será difícil medir o custo econômico com a infraestrutura ainda submersos. O ciclone atingiu Moçambique antes da importante colheita de milho.
Para John Ashbourne, da Capital Economics, é “muito cedo para avaliar os danos”. Ele acrescentou que o impacto do ciclone pode não aparecer nos indicadores dada à base industrial limitada do país. “Isso não quer dizer que os efeitos não sejam terríveis para milhões de pessoas, só que eles não afetam muito o PIB”, concluiu.

https://www.valor.com.br/internacional/6172509/destruicao-de-ciclone-na-africa-ressalta-impacto-das-mudancas-climaticas#

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